O Google lançou ferramentas de Inteligência artificial para quem desenvolve aplicativos para o Android. A empresa preparou um pacote abrangente de ferramentas de inteligência artificial enquanto simultaneamente liberou distribuições e pagamentos alternativos na Play Store. As mudanças entraram em vigor no dia 29 de outubro nos Estados Unidos.
A empresa está integrando a Gemini ao Play Console para desenvolvedores Android em todas as etapas do desenvolvimento de aplicativos, desde as traduções automáticas gratuitas até a análise inteligente de métricas e programação assistida por agentes. Do lado das mudanças obrigatórias, a derrota no processo movido pela Epic Games força a empresa a permitir que desenvolvedores usem sistemas de pagamento próprios, ofereçam preços menores fora da Play Store e até mesmo direcionem usuários para downloads externos.
Juntas, essas transformações representam o maior conjunto de mudanças no ecossistema Android em anos, potencialmente alterando a relação entre o Google, os desenvolvedores e os consumidores.
Gemini oferece traduções gratuitas na Play Store
Uma das ferramentas mais úteis do novo pacote é a integração do Gemini para oferecer traduções gratuitas e de alta qualidade para todo o texto dos aplicativos. Desenvolvedores chamam esses textos de strings, que incluem tudo desde descrições na loja até menus, botões e mensagens dentro do próprio aplicativo.
Barreira histórica
Historicamente, a localização de aplicativos para múltiplos idiomas representava uma barreira significativa, especialmente para desenvolvedores independentes e pequenas equipes. Contratar tradutores profissionais para traduzir milhares de strings em dezenas de idiomas pode facilmente custar dezenas de milhares de dólares. Serviços de tradução automática baratos frequentemente produzem resultados de qualidade duvidosa, com erros gramaticais, traduções literais que não fazem sentido contextual além dos termos técnicos mal interpretados.
O Gemini promete resolver esse problema oferecendo traduções de qualidade comparável a tradutores profissionais, mas completamente gratuitas e instantâneas. A IA foi treinada em volumes massivos de texto em praticamente todos os idiomas importantes, permitindo que compreenda não apenas palavras individuais mas também contexto cultural, gírias regionais e nuances linguísticas que fazem a diferença entre a tradução mecânica e natural.
Para um desenvolvedor independente no Brasil que quer alcançar mercados na Europa, Ásia e América do Norte, essa ferramenta literalmente democratiza o acesso global. Em vez de escolher entre investir recursos limitados em tradução ou simplesmente manter o aplicativo em português e perder 95% do mercado potencial, agora é possível oferecer experiência localizada de qualidade em dezenas de idiomas sem gastar nada além de alguns cliques.
Essa mudança pode ser especialmente transformadora para desenvolvedores em mercados emergentes que têm ideias inovadoras mas carecem de capital para expansão internacional. Um desenvolvedor talentoso na Índia, Indonésia ou Nigéria agora pode competir em igualdade de condições com estúdios bem financiados em termos de alcance linguístico.
Resumos inteligentes de métricas
Outro recurso poderoso sendo introduzido na Play Store são os resumos de gráficos e métricas com tecnologia do Gemini. Qualquer pessoa que já teve que analisar dados de aplicativo sabe quão confuso e demorado isso pode ser. Você abre a página de estatísticas e se depara com dezenas de gráficos mostrando downloads, retenção de usuários, receita, crashes, avaliações e inúmeras outras métricas.
Em vez de você precisar interpretar manualmente um pico misterioso em instalações ou uma queda repentina na retenção de usuários de sete dias, o Gemini agora descreverá automaticamente as principais tendências e eventos que afetam suas métricas. A IA analisa todos os seus dados em contexto, identificando correlações e oferecendo explicações prováveis para mudanças significativas.
Por exemplo, imagine que você vê um aumento súbito de 300% nas instalações do seu aplicativo em uma semana específica. Manualmente, você teria que cruzar referências com calendário promocional, checar se houve alguma menção viral nas redes sociais, verificar se algum influenciador mencionou seu aplicativo, investigar se houve mudanças em algoritmos de recomendação da Play Store. É um trabalho investigativo tedioso que pode levar horas.
Com os resumos inteligentes do Gemini, a IA instantaneamente identifica que o pico coincide com uma promoção que você lançou, que foi amplificada por um post viral no Reddit que gerou cobertura em blogs de tecnologia, resultando em destaque na seção de tendências da Play Store. Mais importante, a IA também pode sugerir ações para capitalizar esse momento, como estender a promoção, investir em mais marketing enquanto você tem visibilidade ou preparar sua infraestrutura para lidar com o aumento dos usuários.
Esse tipo de análise contextual e sugestões acionáveis economiza tempo precioso e evita dores de cabeça tanto para desenvolvedores independentes quanto para grandes estúdios com equipes dedicadas de analytics. É um tipo de recurso que você não sabia que precisava até experimentar, e depois se perguntar como viveu sem ele.
Android Studio ganha recursos do Gemini para programação

Do lado do desenvolvimento propriamente dito, o Android Studio está recebendo atualizações significativas de inteligência artificial que prometem acelerar o processo de criação de aplicativos. Os novos recursos de IA permitem que assistentes inteligentes executem tarefas complexas que anteriormente exigiam trabalho manual e tedioso.
Um exemplo específico mencionado pelo Google é a capacidade da IA de atualizar automaticamente as APIs do seu projeto. Para quem não é desenvolvedor, APIs são basicamente interfaces de programação de aplicações, ou seja, conjuntos de regras e ferramentas que permitem que diferentes softwares conversem entre si. O Google regularmente atualiza suas APIs para adicionar novos recursos, melhorar a segurança e depreciar funcionalidades antigas.
Atualizar um projeto grande para usar versões mais recentes de APIs pode ser um processo extremamente tedioso. Você precisa identificar todas as chamadas antigas, substituí-las pelas novas equivalentes, ajustar parâmetros que mudaram, lidar com funcionalidades que foram removidas e testar exaustivamente para garantir que nada quebrou. Em projetos complexos, isso pode levar dias de retrabalho.
Programação assistida por agentes
Com os novos recursos de IA do Android Studio, você pode simplesmente pedir para o assistente inteligente atualizar o seu projeto para a versão mais recente das APIs, e ele fará todo o trabalho pesado automaticamente. A IA analisa seu código, identifica padrões de uso de APIs antigas, implementa as substituições apropriadas e até mesmo sugere melhorias de performance ou segurança que você pode fazer já que está mexendo naquela parte do código.
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Esse tipo de programação assistida por agentes representa um salto qualitativo enorme em relação aos simples auto completadores de código que existiam antes. Não é apenas a IA sugerindo a próxima linha de código baseada no que você está escrevendo. É a IA assumindo responsabilidade por tarefas completas de refatoração e modernização de código, permitindo que os desenvolvedores humanos foquem em resolver problemas criativos em vez do trabalho mecânico.
Suporte para modelos de linguagem personalizados
Outra adição interessante é a capacidade de usar seu próprio modelo de linguagem de grande porte, ou LLM, para alimentar a IA dentro do Android Studio. Diferentes modelos têm diferentes pontos fortes. Alguns são melhores para código Python, outros para JavaScript, alguns focam em segurança enquanto outros priorizam performance.
Se você trabalha em um domínio muito específico, como desenvolvimento de aplicativos médicos ou financeiros, pode querer usar um LLM que foi treinado especificamente em código desses setores altamente regulados. Ou se sua empresa desenvolveu internamente um modelo customizado que entende suas convenções de código e arquitetura específicas, agora pode integrar esse modelo diretamente no ambiente de desenvolvimento.
Essa flexibilidade reconhece que não existe solução única que serve para todos quando se trata de assistência por IA na programação. Diferentes equipes têm diferentes necessidades, fluxos de trabalho e prioridades. Permitir que desenvolvedores escolham e integrem os modelos que funcionam melhor para seus casos específicos demonstra maturidade na abordagem do Google em relação a IA generativa.
API prompt traz Gemini Nano para dispositivos
Talvez a ferramenta mais técnica do pacote seja a nova API Prompt que disponibiliza o modelo Gemini Nano diretamente em dispositivos móveis. Isso permite que desenvolvedores criem recursos de inteligência artificial que executam localmente no smartphone ou tablet do usuário, sem a necessidade da conexão com a internet ou o envio de dados para servidores na nuvem.
Executar a IA localmente oferece várias vantagens cruciais. Primeiro, privacidade e segurança são melhoradas porque dados sensíveis nunca saem do dispositivo. Se você está construindo um aplicativo de saúde que analisa sintomas ou um assistente financeiro pessoal que processa informações bancárias, poder fazer tudo localmente eliminando preocupações sobre vazamento de dados ou interceptação durante a transmissão.
Segundo, a latência é reduzida essencialmente a zero. Não há delay de rede, não há tempo de processamento em servidores remotos. A resposta é instantânea porque está acontecendo ali mesmo no processador do seu telefone. Para experiências que exigem interação em tempo real, essa diferença é perceptível e muito importante.
Terceiro, a funcionalidade offline se torna possível. Aplicativos que dependem de IA na nuvem simplesmente não funcionam quando você está sem internet, em um avião, em área rural com cobertura fraca ou quando os dados móveis acabaram. Com a IA no dispositivo, todos os recursos inteligentes continuam funcionando perfeitamente independente da conectividade.
O Gemini Nano foi especificamente otimizado para executar de forma eficiente em hardware móvel com recursos limitados. Ele obviamente não é tão poderoso quanto os modelos gigantescos que rodam em data centers, mas para muitos casos de uso práticos, oferece capacidade mais que suficiente enquanto mantém consumo razoável de bateria e memória.
Acesso aos modelos em nuvem via Firebase
Para casos onde mais poder computacional é necessário, o Google também está disponibilizando acesso a modelos maiores hospedados na nuvem através do Firebase. Isso inclui não apenas modelos de texto como versões mais avançadas do Gemini, mas também modelos especializados como o Imagen para geração e manipulação de imagens.
Essa abordagem híbrida oferece o melhor de ambos os mundos. Para tarefas simples e rápidas que exigem privacidade máxima ou funcionamento offline, use o Gemini Nano localmente. Para tarefas complexas que se beneficiam de modelos muito maiores e mais capazes, faça chamadas para a nuvem quando a conexão estiver disponível.
Desenvolvedores podem criar experiências que adaptam-se às circunstâncias. Por exemplo, um aplicativo de edição de fotos pode usar a IA local para ajustes básicos e remoção de olhos vermelhos, mas chamar modelos em nuvem para tarefas mais pesadas como transformar fotos em pinturas artísticas ou remover objetos complexos do background.
Mudanças forçadas após a derrota para a Epic Games
Enquanto as ferramentas de IA representam uma inovação voluntária e estratégica do Google, um conjunto igualmente significativo de mudanças está chegando por motivos muito diferentes: imposição legal. Segundo o site The Verge, após anos de batalha judicial com a Epic Games, culminando em derrota no Tribunal de Apelações dos EUA, o Google passou a oferecer muito mais liberdade para os desenvolvedores na Play Store.
Fim da obrigatoriedade do sistema de pagamentos

A mudança mais impactante é que partir do dia 29 de outubro de 2025, os desenvolvedores podem usar outras formas de faturamento além do sistema de pagamento padrão da Play Store. Isso significa que podem integrar processamento de pagamentos alternativos direto via cartão de crédito, débito, PayPal, PIX ou qualquer outro método que preferirem, sem serem forçados a passar pela infraestrutura do Google.
Historicamente, o Google cobrava comissão de 15% a 30% sobre todas as transações processadas através do sistema de pagamento da Play Store. Para aplicativos e jogos que geram receita significativa, essa comissão representa um custo operacional enorme. Um jogo que fatura um milhão de dólares por mês paga até trezentos mil dólares ao Google apenas em taxas de processamento.
Desenvolvedores podem oferecer preços menores
Outra mudança crucial é que o Google não exigirá mais que desenvolvedores definam preços para seus aplicativos com base no uso do método de pagamento padrão da Play Store. Anteriormente, mesmo que você oferecesse seu próprio sistema de pagamento, era obrigado a manter preços idênticos ou superiores aos praticados através do sistema do Google. Isso efetivamente negava qualquer vantagem de usar pagamento alternativo.
Agora, desenvolvedores podem legitimamente oferecer preços mais baixos para compras feitas através de métodos alternativos, repassando aos consumidores a economia das taxas que não estão pagando ao Google. Isso cria competição genuína e incentiva usuários a usar os sistemas de pagamento preferidos dos desenvolvedores.
Avisos sobre ofertas externas são permitidos
Talvez ainda mais significativo, desenvolvedores agora podem incluir avisos dentro de seus aplicativos indicando que as ofertas e os preços melhores estão disponíveis fora da Google Play Store. Isso era estritamente proibido, com o Google argumentando que criava experiência confusa para usuários e minava a confiança no ecossistema.
Desenvolvedores também poderão adicionar links diretos para o download de seus aplicativos fora da Google Play, sem necessidade de vincular qualquer meio de pagamento. Isso essencialmente permite que usem a Play Store como plataforma de descoberta e marketing, mas depois direcionem usuários para seus próprios sites ou lojas alternativas para instalação e monetização.
Duração limitada e Restrição geográfica
Importante notar que essas mudanças não são permanentes nem globais. O Google deixou claro que essas políticas somente permanecerão ativas enquanto a ordem do Tribunal Distrital dos EUA estiver em vigor, especificamente até 1º de novembro de 2027. Isso dá aos desenvolvedores cerca de dois anos para experimentar com maior liberdade.
Benefícios limitados aos Estados Unidos
Infelizmente para desenvolvedores e usuários em outros países, incluindo o Brasil, esses benefícios se aplicam apenas nos Estados Unidos onde a decisão judicial tem jurisdição. A menos que processos similares sejam movidos e vencidos em outras jurisdições, ou que o Google decida voluntariamente estender as mudanças globalmente, o resto do mundo continuará operando sob as regras antigas mais restritivas.
Essa fragmentação cria uma situação estranha onde aplicativos podem funcionar de forma fundamentalmente diferente dependendo da localização geográfica do usuário. Um desenvolvedor brasileiro pode oferecer preços mais baixos e métodos de pagamento alternativos para usuários americanos, mas continuar sendo forçado a usar exclusivamente o sistema do Google e pagar comissões completas para usuários no Brasil.
Além disso, vale mencionar que o Google ainda não desistiu completamente. Segundo informações disponíveis, a empresa planejava apresentar petição de revisão à Suprema Corte dos EUA em 27 de outubro de 2025. Se a Suprema Corte concordar em revisar o caso, a decisão poderá ser temporariamente suspensa enquanto o processo tramita, potencialmente revertendo ou modificando algumas das mudanças obrigatórias.
No entanto, mesmo que a Suprema Corte eventualmente reverta parte da decisão, o precedente foi estabelecido e outros países podem seguir o exemplo dos tribunais americanos. A União Europeia já tem regulamentações similares através do Digital Markets Act. É provável que vejamos pressão crescente globalmente para a abertura dos ecossistemas de aplicativos.
Desafios
Nem tudo são flores com essas mudanças. Maior abertura inevitavelmente traz novos desafios e riscos tanto para desenvolvedores quanto para usuários. O Google tem argumentado consistentemente que suas políticas restritivas existem para proteger usuários e manter a qualidade do ecossistema.
Permitir múltiplos sistemas de pagamento diferentes cria uma potencial fragmentação confusa na experiência do usuário. Em vez de um fluxo de pagamento consistente e familiar, usuários podem encontrar dezenas de interfaces diferentes dependendo do aplicativo. Alguns podem ser seguros e bem implementados. Outros podem ser mal projetados ou até mesmo maliciosos.
Desenvolvedores menos experientes podem implementar sistemas de pagamento que inadvertidamente violam regulamentações de proteção de dados ou processamento de cartões de crédito, expondo-se a responsabilidade legal e expondo usuários a riscos de segurança. O sistema unificado do Google, apesar de suas taxas altas, pelo menos garante um nível básico de segurança e conformidade.
A capacidade de direcionar usuários para downloads fora da Play Store pode abrir portas para distribuição mais fácil de malware. A Play Store tem seus problemas e certamente não é perfeita em bloquear aplicativos maliciosos, mas pelo menos existe algum processo de revisão e verificação. Lojas alternativas ou downloads diretos de sites podem ter controle de qualidade muito menor ou inexistente.
Usuários podem ser facilmente enganados a baixar versões falsas ou com malwares de aplicativos populares através de links que parecem legítimos mas levam a sites maliciosos. Sem a proteção relativa da Play Store, a superfície de ataque para ameaças móveis aumenta significativamente.
A Responsabilidade recai sobre os Desenvolvedores
Com maior liberdade vem maior responsabilidade. Desenvolvedores agora precisam pensar cuidadosamente sobre como implementar sistemas de pagamentos alternativos, como comunicar opções aos usuários, como garantir a segurança dos dados sensíveis e como lidar com o suporte para os múltiplos métodos de transação.
Implementar processamento de pagamento próprio não é trivial. Você precisa de infraestrutura de servidor confiável, integração com gateways de pagamento, sistemas de prevenção de fraude, conformidade e outras regulamentações financeiras, e suporte ao cliente para lidar com problemas de transação. Isso representa investimento significativo de tempo e dinheiro que muitos desenvolvedores menores podem não ter.
Serviços como o PayPal facilitam parte dessa complexidade, mas ainda assim há trabalho substancial de integração e manutenção. E você precisa estar preparado para lidar com disputas de cartão de crédito, estornos fraudulentos e outros problemas que o sistema da Play Store anteriormente tratava automaticamente.
Desenvolvedores agora enfrentam decisões estratégicas complexas sobre como precificar e monetizar. Você oferece desconto para pagamentos alternativos? Se sim, quanto? Isso compensa considerando os custos adicionais de implementação e suporte? Você direciona usuários ativamente para seu site externo ou apenas menciona casualmente que existem opções? Como você equilibra maximizar receita com manter boa relação com o Google?
Não há respostas óbvias para essas perguntas, e diferentes desenvolvedores provavelmente chegarão a conclusões diferentes baseadas em suas circunstâncias específicas. Essa complexidade é o preço da maior flexibilidade.








