A Pequena ilha que o Mundo não pode perder
Taiwan é uma ilha de 23 milhões de pessoas a apenas 130 quilômetros da costa chinesa. Geograficamente minúscula, representa menos de 0,4% da população mundial. No entanto, essa pequena democracia insular se tornou o ponto focal da maior rivalidade geopolítica do século 21 entre os Estados Unidos e a China.
O motivo? A disputa por Taiwan, que fabrica atualmente mais da metade dos chips semicondutores que alimentam nossas vidas digitais. De iPhones a aviões, de carros a mísseis, de inteligência artificial a equipamentos médicos, praticamente toda a tecnologia moderna depende dos minúsculos pedaços de silício produzidos nessa ilha.
E quase todos os chips mais avançados do mundo, mais de 90% deles, saem de uma única empresa: a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company, conhecida como TSMC. Essa empresa atingiu capitalização de mercado de 1 trilhão de dólares em julho de 2025, tornando-se a nona mais valiosa do mundo.
A China reivindica Taiwan como parte de seu território e já declarou publicamente que pretende retomar a ilha, até mesmo com uso da força se necessário. O presidente chinês Xi Jinping afirma que a reunificação com Taiwan deve ser cumprida e não descarta possível uso militar para conseguir isso.
Mas Taiwan se vê como país independente, com sua própria Constituição, governo democraticamente eleito e identidade nacional distinta. E o mundo desenvolvido depende profundamente de sua capacidade de fabricar semicondutores para manter a economia global funcionando.
Bem-vindo uma das tensões mais perigosas e consequentes do mundo contemporâneo.
Da Guerra civil à separação: Como Taiwan se tornou Taiwan
Para entender como chegamos aqui, precisamos voltar ao século 20. A história de Taiwan moderna começa com uma guerra civil e termina com uma das economias mais avançadas do planeta.
1945-1949: O Nascimento de duas Chinas
Após a Segunda Guerra Mundial, a China passou por brutal guerra civil entre as forças comunistas de Mao Tse Tung e as tropas nacionalistas de Chiang Kai-Shek. Em 1949, as forças comunistas tomaram o poder em Pequim depois de derrotar os nacionalistas.
Chiang Kai-Shek, que havia governado a China desde 1927, refugiou-se com seu estado-maior e cerca de 2 milhões de chineses na ilha de Taiwan, então recentemente devolvida à China pelo Japão após décadas de ocupação. Ali, ele formou um governo autônomo com o apoio dos Estados Unidos e interrompeu completamente as relações com a China continental.
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Surgiram então duas Chinas: a República Popular da China no continente, sob controle comunista de Mao, e a República da China em Taiwan, mantendo o governo nacionalista. Ambas reivindicavam ser o governo legítimo de toda a China.
Anos 1950: Aliança com os Estado Unidos
Em 1950, com a Guerra da Coreia como pano de fundo, Taiwan se aliou formalmente aos Estados Unidos. Os americanos usaram o território taiwanês para suas estratégias militares na península coreana, estabelecendo uma presença que perdura até hoje.
Entre 1954 e 1958, Pequim atacou várias ilhas controladas por Taiwan. Algumas foram tomadas pelos chineses, outras Taiwan conseguiu manter com auxílio de armas americanas. Essas escaramuças estabeleceram o padrão de tensão militar que continua décadas depois.
1979: O Reconhecimento de uma só China
Um ponto de virada crucial ocorreu em 1979, quando os Estados Unidos mudaram oficialmente sua política e passaram a apoiar o conceito de uma só China. Isso implicou o reconhecimento de Pequim como o governo legítimo da China, retomando relações diplomáticas com o país comunista.
No entanto, por lei americana, os EUA são obrigados a ajudar Taiwan a se defender militarmente. É uma posição ambígua que Washington mantém até hoje: reconhece diplomaticamente Pequim mas fornece armas e apoio implícito a Taipei.
O líder chinês da época, Deng Xiaoping, adotou o conceito de um país, dois sistemas para Taiwan, passando a buscar a unificação pacífica com o arquipélago em vez da tomada pela força. Esse modelo seria posteriormente aplicado a Hong Kong quando a cidade retornou ao controle chinês em 1997.
Anos 1990-2000: Democratização e Tensões
Em 1996, Taiwan realizou sua primeira votação presidencial direta, marco histórico da democratização. Em reação, o governo chinês lançou mísseis em águas próximas a Taiwan em demonstração de força. Os americanos despacharam aviões para a região, sinalizando que não abandonariam a ilha.
Em 2000, Chen Shui-bian foi eleito presidente, marcando a primeira vez no poder pelo Partido Democrático Progressista (DPP), que apoia a soberania e a independência formal de Taiwan. A China reagiu mal, vendo isso como um movimento perigoso em direção à secessão.
Em 2005, o governo chinês adotou um projeto de lei anti-independência que tornou a secessão de Taiwan ilegal. A mensagem era clara: Pequim nunca aceitaria a independência formal taiwanesa e estava disposta a usar a força para evitá-la.
2016-Presente: Xi Jinping e a pressão crescente
Em 2016, Tsai Ing-wen venceu as eleições presidenciais com a proposta de enfrentar a China. Em junho do mesmo ano, Pequim suspendeu as comunicações oficiais com Taiwan, iniciando um período de relações geladas que persiste até hoje.
Sob Xi Jinping, que consolidou mais poder do que qualquer líder chinês desde Mao, a pressão sobre Taiwan intensificou dramaticamente. Exercícios militares perto da ilha tornaram-se rotineiros. Aviões de guerra chineses cruzam regularmente a linha mediana do Estreito de Taiwan, testando defesas e enviando mensagens.
Em 2022, quando Nancy Pelosi, presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, visitou Taiwan, a China respondeu com exercícios militares massivos que simularam um bloqueio completo da ilha. Aeronaves chinesas cruzaram repetidamente a linha que delimita o espaço aéreo, em demonstração de força sem precedentes.
Em 2025, as tensões continuaram escalando. A China realizou novos exercícios militares de dois dias com fogo real, simulando o bloqueio à ilha e ataques aos principais portos. Taipei denunciou como altamente provocativo e imprudente, mas reconheceu que não conseguiram bloquear efetivamente a ilha.
(Fonte: BBC Brasil)
Como jovens Engenheiros transformaram Taiwan em uma potência de Semicondutores
A história econômica de Taiwan é tão fascinante quanto a sua trajetória política. No final dos anos 1960, era uma ilha pobre que exportava principalmente açúcar e camisetas. Hoje, é uma das economias mais avançadas e ricas do mundo, e isso se deve em grande parte a um grupo de jovens engenheiros visionários.

O Retorno dos Engenheiros Taiwaneses dos EUA
Quando Shih Chin-tay embarcou aos 23 anos em um avião para os Estados Unidos no verão de 1969, ele voou para um mundo completamente diferente. Criado em uma vila de pescadores cercada por canaviais, viu pela primeira vez uma superpotência tecnológica. Os EUA tinham acabado de enviar o homem à Lua e lançado o Boeing 747.
“Quando pousei, fiquei chocado”, recorda Shih em entrevista à BBC, hoje com 77 anos. “Eu disse a mim mesmo: Taiwan é tão pobre que preciso fazer algo para tentar ajudar a melhorar a situação”.

na década de 1970 (Fonte: BBC)
E conseguiu. Shih e um grupo de jovens ambiciosos engenheiros transformaram a ilha que exportava açúcar e camisetas em uma potência eletrônica. Taipei hoje é rica, desenvolvida e moderna. Trens de alta velocidade percorrem a costa oeste da ilha a 350 km/h. Taipei 101, um dos edifícios mais altos do mundo, ergue-se sobre a cidade como o emblema da prosperidade local.

Os Anos 1970: Nascimento de Uma Indústria
Quando Shih chegou a Princeton, a América estava apenas começando a revolução dos semicondutores. Apenas uma década o circuito integrado monolítico foi criado por Robert Noyce, reunindo componentes eletrônicos em uma única placa de silício que iniciou a revolução dos computadores pessoais e que determinou uma trajetória de inovação até os dias de hoje.
Nos dois anos após a formatura, Shih projetou chips de memória na Burroughs Corporation. Na época, Taiwan buscava uma nova indústria nacional após a crise do petróleo atingir suas exportações. O silício parecia uma possibilidade promissora.
“Pensei que era hora de ir para casa”, disse Shih à BBC. No final da década de 1970, ele se juntou aos melhores e mais brilhantes engenheiros eletrônicos de Taiwan em um novo laboratório: o Instituto de Pesquisa de Tecnologia Industrial, que desempenharia papel enorme na reformulação da economia da ilha.
O trabalho começou em Hsinchu, pequena cidade ao sul de Taipei, hoje o centro mundial de eletrônicos, dominado pelas enormes fábricas da TSMC. Essas fábricas de chips, cada uma do tamanho de vários campos de futebol, estão entre os lugares mais limpos do planeta.
Eles abriram uma fábrica experimental na década de 1970 com autorização para produzir tecnologia para um grande fabricante americano de eletrônicos. Para surpresa de todos, a fábrica taiwanesa superou a empresa-mãe.
A produção era melhor do que a planta original da RCA, com custos mais baixos. “Isso deu ao governo confiança de que talvez pudéssemos fazer algo de verdade”, lembra Shih.
1987: O Nascimento da TSMC e o Modelo Revolucionário
O governo taiwanês forneceu recurso inicial, primeiro para a United Micro-Electronics Corporation e, depois, em 1987, para o que se tornaria a maior fábrica de chips do mundo: a TSMC. Para dirigi-la, recrutaram Morris Chang, engenheiro sino-americano e ex-executivo da gigante Texas Instruments.
Foi um golpe de sorte, genialidade ou ambos. O homem, hoje com 93 anos, é conhecido como o pai da indústria de semicondutores de Taiwan.

Chang rapidamente percebeu que enfrentar gigantes americanos e japoneses em seu próprio jogo era uma aposta perdida. Em vez disso, a TSMC só fabricaria chips para outros e não projetaria seus próprios equipamentos de informática.
Esse modelo, inédito em 1987, mudou completamente o cenário da indústria. A regra número um na TSMC é não competir com seus clientes, explica Shih.
O momento não poderia ter sido melhor. A nova geração de startups do Vale do Silício, incluindo a Apple, a Qualcomm e a Nvidia, não tinha fundos para construir fábricas próprias. Ao mesmo tempo, tinha dificuldade de encontrar fabricantes de chips confiáveis.
As empresas sem fábrica da Califórnia puderam fazer parcerias com os fabricantes taiwaneses, que não tinham interesse em roubar seus projetos ou competir com eles. Foi uma simbiose perfeita que impulsionaria décadas de crescimento exponencial.
A Receita Secreta: Por que Taiwan é tão boa nisso?
O mundo produz mais de um bilhão de chips por ano. Um carro moderno tem entre 1.500 e 3.000 chips. Só o iPhone 12 tem cerca de 1.400 semicondutores. O déficit de 2022, impulsionado pelo aumento da demanda durante a pandemia, afetou tanto as vendas de máquinas de lavar quanto os carros da gigante BMW.
O extraordinário sucesso de Taiwan foi alimentado por seu domínio de volume e eficiência. Mas por que as empresas taiwanesas são tão boas nisso? Ninguém parece saber ao certo a receita por trás.
Rendimento Superior
Na década de 1970, empresas americanas tinham retornos tão baixos quanto 10%, na melhor das hipóteses chegando a 50%. Na década de 1980, os japoneses tinham uma média de 60%. A TSMC superou todos com rendimento em torno de 80% da placa de silício utilizável.
Ao longo do tempo, fabricantes taiwaneses conseguiram espremer cada vez mais circuitos em espaços incrivelmente pequenos. Usando as mais recentes máquinas de litografia de luz ultravioleta extrema, a TSMC pode gravar 100 bilhões de circuitos em único microprocessador, ou mais de 100 milhões de circuitos por milímetro quadrado.
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Em dezembro de 2025, a TSMC anunciou o início da produção em massa de chips de 2 nanômetros, a tecnologia mais avançada da indústria de semicondutores em termos de densidade e eficiência energética.
Trabalho Árduo e a Cultura da melhoria contínua
Para Shih, a resposta é relativamente simples: “Tínhamos instalações totalmente novas, com equipamentos mais modernos. Contratamos os melhores engenheiros. Mesmo operadores de máquinas eram altamente qualificados. E não apenas importamos tecnologia, mas absorvemos lições de nossos professores americanos e aplicamos melhorias contínuas”.
Fazer microchips é engenharia, mas também é mais que isso. Alguns compararam o processo à culinária, como um jantar gourmet. Se você der a dois chefs a mesma receita e os mesmos ingredientes, o melhor cozinheiro vai preparar o melhor prato.
O Custo Humano
Mas há outro fator raramente discutido: as condições de trabalho. “Em comparação com engenheiros de software nos EUA, mesmo nas melhores empresas, os engenheiros aqui são muito mal pagos”, disse um jovem engenheiro. “Mas em comparação com outras indústrias de Taiwan, o salário é bom”.
“Se as pessoas não estivessem dispostas a fazer o trabalho, a empresa estaria acabada. Essas empresas têm sucesso porque as pessoas estão dispostas a aguentar as dificuldades”, explica.
É uma cultura de trabalho que seria impensável em muitos países ocidentais, mas que se tornou fundamental e uma grande vantagem competitiva e significativa para Taiwan.
O Escudo de Silício: Proteção ou Alvo?

A dominância de Taiwan na fabricação de semicondutores criou o que muitos chamam de escudo de silício. A ideia é que líderes mundiais, particularmente os Estados Unidos, cientes do papel crítico da ilha na cadeia de suprimentos de semicondutores, retaliariam economicamente e talvez militarmente caso a China atacasse Taiwan.
A Bloomberg Economics estima que o bloqueio de Taiwan custaria à economia global, incluindo a da China, 5 trilhões de dólares no primeiro ano. É uma dissuasão econômica poderosa.
Taiwan produz a maioria dos semicondutores do mundo e mais de 90% dos chips mais avançados necessários para as aplicações de Inteligência Artificial. Gastos relacionados com IA devem atingir aproximadamente 2 trilhões de dólares até 2026, segundo a Gartner.
A Vulnerabilidade do Escudo
Mas o escudo de silício pode estar enfraquecendo, paradoxalmente devido aos esforços da diversificação e da mudança no posicionamento do atual Governo Americano. Sob pressão política crescente, especialmente dos Estados Unidos, a TSMC está expandindo a sua produção para fora de Taiwan.
Em dezembro de 2024, estava previsto que a TSMC inauguraria uma fábrica de 40 bilhões de dólares no Arizona e chegou a ser comemorada pelo presidente Joe Biden como sinal de que a manufatura de alta tecnologia estava retornando ao solo americano.
No entanto, as manchetes desde então têm sido menos positivas. A inauguração foi adiada para 2017/2028, segundo informações do Wall Street Journal, já que a fábrica não estaria focada na fabricação de chips de 3 nanômtros, segundo a declaração do CEO da empresa taiwanesa, Mark Liu.
Morris Chang, ex-presidente da TSMC, mostrou-se profundamente cético desde o início, descrevendo a expansão como um exercício inútil, caro e perdulário, porque fabricar chips nos EUA seria 50% mais caro que em Taiwan.
Em março de 2025, o CEO da TSMC, C.C. Wei, anunciou da Casa Branca investimento de 100 bilhões de dólares nos EUA para construir três novas fábricas, duas instalações avançadas de embalagem de chips e centro de P&D. Juntam-se aos 65 bilhões já investidos em Phoenix, no Arizona.
A China acusou Taiwan de entregar a TSMC de bandeja aos Estados Unidos. O porta-voz do Gabinete do Conselho de Estado para Assuntos de Taiwan, Chen Binhua, lamentou que a TSMC tenha se tornado um pedaço de carne suculenta na tábua de cortar, pronta a ser desfeita em pedaços.
A Impossibilidade da Transferência Completa
Mas transferir completamente a produção de Taiwan é impossível, como a própria TSMC admitiu. C.C. Wei revelou que mantiveram conversações sobre transferir fábricas para fora da ilha, mas perceberam que seria impossível, pois 80% a 90% da capacidade de produção se encontra em Taiwan.
Mesmo que quisessem, a complexa cadeia de suprimentos necessária não pode ser facilmente replicada. Grande parte do silício bruto vem da China. A Alemanha e o Japão dominam os produtos químicos necessários para processar as placas. A Carl Zeiss alemã produz dispositivos ópticos usados em máquinas de litografia fabricadas pela holandesa ASML.
Sem assistência técnica e peças de substituição da ASML e outros fornecimentos exteriores, as máquinas litográficas de fabricação de chips avançados poderiam parar em pouco tempo. Um senador americano chegou a sugerir que os EUA explodiriam as fábricas da TSMC em caso de invasão chinesa para impedir que caíssem nas mãos de Pequim.
A Guerra dos Chips: EUA vs China com Taiwan no meio
Taiwan se tornou peça central na guerra tecnológica entre EUA e China, com consequências potencialmente catastróficas.
Washington quer impedir Taiwan de fornecer à China os chips mais avançados, temendo que Pequim possa usá-los para acelerar programas de armas e avançar na inteligência artificial. Em agosto de 2025, a TSMC eliminou o uso de equipamentos chineses em suas linhas de produção de chips de 2 nanômetros para evitar possíveis restrições impostas pelos EUA.
Donald Trump anunciou em setembro de 2025 tarifas sobre semicondutores fabricados no exterior, visando forçar a realocação da produção para os EUA. O principal afetado seria Taiwan, principal fornecedor de chips americanos.
A Ambição Chinesa
A China, temendo ficar sem os chips mais avançados, está gastando bilhões para roubar o posto de Taiwan. Empresas como a Huawei e SMIC (Semiconductor Manufacturing International Corporation) já estão fabricando chips avançados, e Pequim acelerou programas para reduzir a dependência de Taiwan e dos EUA.
Paradoxalmente, tarifas americanas sobre chips taiwaneses podem beneficiar a China de várias maneiras. Com tarifas elevadas, produtos da TSMC ficariam mais caros no mercado americano, tornando chips chineses mais competitivos em preço. Políticas protecionistas dos EUA podem servir como catalisador para a China intensificar os esforços em alcançar a autossuficiência.
Taiwan na Encruzilhada
Já o povo taiwanês se incomoda com a ideia de que tenha que se sentir culpado pelo próprio sucesso e que Taiwan tenha que enfraquecer voluntariamente seu escudo de silício, enquanto o resto do mundo questiona se vale a pena proteger a ilha e a sociedade democrática local da agressão chinesa.
Mark Liu, presidente da TSMC, alertou em outubro de 2022 que o conflito comercial EUA-China e a escalada das tensões entre os dois países trouxeram desafios ainda mais sérios a todas as indústrias, incluindo a indústria de semicondutores.
O que está em jogo para o Mundo
Uma invasão ou bloqueio de Taiwan teria consequências catastróficas globalmente:
Econômicas: O colapso imediato da cadeia de suprimentos de semicondutores paralisaria indústrias inteiras. Fabricantes de automóveis não poderiam produzir carros. A Apple não poderia fabricar iPhones. A Nvidia não teria chips para IA. O impacto seria de trilhões de dólares além das décadas para se recuperar.
Tecnológicas: O desenvolvimento de inteligência artificial, computação quântica, 6G e praticamente todas as tecnologias emergentes seria severamente comprometido. A economia digital global entraria em colapso.
Militares: Sistemas de armas modernos dependem de semicondutores avançados. Mísseis, aviões, navios, drones, satélites – tudo requer chips sofisticados. Um conflito por Taiwan poderia se tornar uma Terceira Guerra Mundial.
Humanitárias: 23 milhões de pessoas vivem em Taiwan. Uma invasão militar ou bloqueio causaria um sofrimento humano imenso, potencialmente milhões de refugiados e mortes. Uma tragédia humanitária.
A questão não é mais se Taiwan será invadida, mas quando e como o mundo responderá. E a resposta a essa pergunta determinará muito mais do que o destino de 23 milhões de taiwaneses. Determinará a estrutura da ordem global, o equilíbrio de poder entre Estados Unidos e China, e quem controlará as tecnologias que definirão o século 21.
Taiwan pode ser pequena no mapa, mas é gigante em importância. E todos nós, querendo ou não, temos interesse no que acontece com essa ilha. Porque os chips fabricados lá estão no dispositivo que você está usando para ler este texto. E estão em praticamente tudo mais que torna a vida moderna possível.
A tensão entre China e Taiwan não mostra sinais de diminuir. Xi Jinping consolidou poder suficiente para tomar decisões unilaterais, incluindo potencialmente invadir Taiwan. A retórica em Pequim ficou mais beligerante. Os exercícios militares se intensificaram.
Ao mesmo tempo, Taiwan continua se afastando politicamente da China, com a maioria da população se identificando como taiwanesa, não chinesa. A geração jovem nunca conheceu nada além da democracia e não tem interesse na reunificação.
Os Estados Unidos estão comprometidos a defender Taiwan. Mas até que ponto permanece a questão em aberto? Palavras são uma coisa, mas arriscar uma guerra com uma potência nuclear por uma ilha distante é outra completamente diferente.
O escudo de silício ainda oferece proteção, mas também torna Taiwan alvo. Quanto mais indispensável a ilha se torna, maior o incentivo para as grandes potências intervirem de uma forma ou outra.
“Quando olho para trás, sinto-me afortunado por ter testemunhado o extraordinário crescimento da economia de Taiwan e deste longo período de paz. Agora vejo os conflitos em outras partes do mundo e me preocupa que isso possa chegar à Ásia”, diz Shih Chin-tay. “Espero que as pessoas apreciem o valioso esforço que fizemos e não o destruam”.








