Por que o Trump quer a Groenlândia? Ilha é Rica em Terras Raras essenciais para Chips e Semicondutores

Trump quer anexar a ilha dinamarquesa rica em minerais estratégicos para semicondutores e inteligência artificial, mas a realidade geológica pode ser um obstáculo maior que a geopolítica

Por que o Trump quer a Groenlândia? a Ilha Rica em Terras Raras essenciais para Chips e Semicondutores se tornou o Tesouro mais disputado do Século 21

A geopolítica do século XXI acaba de encontrar um novo e gélido epicentro. Logo após a captura controversa de Nicolás Maduro na Venezuela, Trump e a Europa entram em mais um capítulo de disputa pela ilha. O governo de Donald Trump voltou a sua pressão diplomática para o norte. O objetivo é um antigo desejo que ganhou contornos muito mais sérios agora: controlar a Groenlândia, território que a Casa Branca define como um verdadeiro lingote de recursos estratégicos.

Mas o que realmente existe sob aquela imensa camada de gelo? Por que o Trump quer a Groenlândia? Por que uma ilha com apenas 56 mil habitantes está provocando um cabo de guerra entre as maiores potências mundiais? E o que o Vale do Silício tem a ver com tudo isso?

A resposta está enterrada a centenas de metros de profundidade, sob uma geologia complexa e hostil: terras raras. Esses 17 elementos químicos com nomes quase impossíveis de pronunciar se tornaram o petróleo do século XXI. Sem eles, não existem smartphones, carros elétricos, turbinas eólicas, sistemas de defesa militar e, principalmente, a próxima geração de inteligência artificial que está moldando o futuro da humanidade.

Estimativas apontam que a Groenlândia pode concentrar até 25% de todas as reservas mundiais de terras raras. Estamos falando de aproximadamente 1,5 milhão de toneladas de materiais como neodímio, praseodímio e disprósio. Para você ter uma ideia, isso equivale a cerca de 36 milhões de toneladas de minerais críticos no total.

O problema é que entre esse tesouro geológico e a realidade da extração comercial existe um abismo. E não é apenas figurativo. A Groenlândia é três vezes maior que o Texas, mas possui apenas 150 quilômetros de estradas pavimentadas no total. Não existem ferrovias. Os assentamentos são isolados uns dos outros. A infraestrutura é praticamente inexistente.

Mesmo assim, Trump insiste. E agora você vai entender exatamente por quê.

O que são Terras Raras e por que viraram o Centro da Guerra Tecnológica

Por que o Trump quer a Groenlândia? a Ilha Rica em Terras Raras essenciais para Chips e Semicondutores se tornou o Tesouro mais disputado do Século 21
Imagem: Getty Images

Antes de mergulharmos na disputa geopolítica, precisamos entender o que são essas terras raras que todo mundo está perseguindo como se fossem o Santo Graal da tecnologia moderna.

Apesar do nome sugestivo, terras raras não são exatamente raras. Esse grupo de 17 elementos químicos pode ser encontrado em diversos lugares da crosta terrestre. O termo raro se refere na verdade ao processo de separação e refino desses materiais, que é extremamente complexo, altamente poluente e incrivelmente caro.

Os principais elementos incluem lantânio, cério, praseodímio, neodímio, samário, európio, gadolínio, térbio, disprósio, hólmio, érbio, túlio, itérbio, lutécio, escândio e ítrio. Cada um possui propriedades magnéticas, luminescentes ou catalíticas únicas que os tornam insubstituíveis em aplicações tecnológicas específicas.

O neodímio, por exemplo, é essencial para criar ímãs permanentes ultrapotentes usados em motores de veículos elétricos, turbinas eólicas e discos rígidos de computadores. O disprósio aumenta a resistência desses ímãs a altas temperaturas, tornando-os ideais para aplicações em condições extremas. O európio é responsável pela coloração vermelha e azul em telas de LED e displays.

Esses minerais estão literalmente em tudo ao seu redor neste momento. No smartphone que você está usando para ler este texto. No computador do seu trabalho. No carro que você dirige. Nos painéis solares que geram energia limpa. Nos sistemas de defesa militar que protegem países inteiros.

Mas o que realmente transformou as terras raras em tema de segurança nacional foi o avanço explosivo da inteligência artificial. E aqui a história fica ainda mais interessante.

A Conexão escondida entre as Terras Raras e a Inteligência Artificial

Quando você pensa em inteligência artificial, provavelmente imagina algoritmos sofisticados, redes neurais e modelos de linguagem como o ChatGPT. Mas existe uma camada física absolutamente crítica que torna tudo isso possível: os data centers de altíssima performance que processam quantidades astronômicas de dados.

Esses centros de dados para IA são verdadeiros monstros consumidores de energia. Segundo estimativas da Agência Internacional de Energia, os data centers já consomem entre 1% e 1,5% de toda a eletricidade global. Com o crescimento acelerado da inteligência artificial generativa, esse número pode explodir nos próximos anos.

E aqui entra a primeira conexão com as terras raras: o resfriamento. Chips especializados em IA, como GPUs da Nvidia e TPUs do Google, são extremamente propensos ao superaquecimento devido ao imenso esforço computacional que realizam. Aproximadamente 60% das despesas operacionais de um data center de hiperescala são com energia, sendo uma parcela significativa destinada exclusivamente ao resfriamento dos equipamentos.

As densidades energéticas por rack nos data centers voltados para cargas de trabalho de IA ultrapassam facilmente 30 kW, podendo atingir até 50 kW. Para você ter uma noção, isso é energia suficiente para alimentar dezenas de residências. E estamos falando de um único rack de servidores.

Para lidar com esse calor extremo, a indústria está migrando para sistemas de refrigeração líquida direta no chip. E adivinha quais elementos químicos são essenciais nesses sistemas avançados de refrigeração? Isso mesmo: neodímio e disprósio, que proporcionam refrigeração, isolamento e durabilidade excepcionais.

Mas a dependência vai muito além do resfriamento.

O Papel Crucial das Terras Raras na Fabricação de Semicondutores

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A indústria de semicondutores, o verdadeiro cérebro da economia digital moderna, depende absolutamente de terras raras em múltiplas etapas do processo de fabricação.

O gálio e o germânio, por exemplo, são usados em semicondutores compostos, vitais para radares, satélites e telecomunicações 5G. Esses elementos permitem criar chips que operam em frequências muito mais altas e com maior eficiência energética do que os semicondutores tradicionais de silício.

O grafite, outro mineral crítico abundante na Groenlândia, é essencial para baterias de alta performance e substratos condutores usados na fabricação de chips avançados. Sem o grafite ultrapuro, não existe a litografia de última geração, o processo que grava circuitos microscópicos nos wafers de silício em processadores, por exemplo.

As terras raras também são fundamentais nos processos de dopagem, etching e deposição de filmes finos, técnicas essenciais na fabricação de transistores nanométricos. Os chips mais avançados atualmente em produção têm apenas 3 nanômetros de largura. Para você ter uma ideia, isso equivale a aproximadamente 15 átomos de silício enfileirados.

Nessa escala quase atômica, cada impureza química, cada variação de temperatura, cada contaminante no processo pode arruinar completamente um wafer que custou milhões de dólares para produzir. As propriedades únicas das terras raras permitem alcançar a precisão absurda necessária para manufaturar esses componentes.

E quem domina absolutamente esse mercado hoje? A China. E esse é exatamente o ponto onde a geopolítica entra de forma dramática na história.

O Domínio quase absoluto da China sobre as Terras Raras

Aqui está o dado que tira o sono de estrategistas militares e CEOs do Vale do Silício: a China controla aproximadamente 60% da extração global de terras raras e os impressionantes 85% a 90% de todo o processamento e refinamento desses materiais no mundo.

Esse domínio não foi acidental. Foi resultado de décadas de planejamento estratégico meticuloso. Nos anos 1980 e 1990, quando os Estados Unidos e a Europa abandonaram a mineração de terras raras devido aos custos ambientais proibitórios, a China viu uma oportunidade geopolítica de ouro.

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O governo chinês flexibilizou regulamentações ambientais, subsidiou pesadamente empresas de mineração e refino, investiu bilhões em pesquisa e desenvolvimento, e construiu um ecossistema integrado que vai desde a extração do minério bruto até a manufatura de componentes acabados.

O resultado? Pequim hoje possui uma arma econômica devastadora. A China pode literalmente paralisar a indústria tecnológica ocidental cortando o fornecimento de terras raras. E já demonstrou essa capacidade múltiplas vezes.

Em abril de 2025, após o controvertido Dia da Libertação de Trump, quando ele anunciou tarifas massivas sobre produtos chineses, a resposta de Pequim veio rápida e certeira. A China introduziu controles rigorosos de exportação sobre sete elementos de terras raras pesados, exigindo licenciamento para todos os exportadores.

Os exportadores precisavam fornecer informações detalhadas sobre os usuários finais dos elementos. Mas o processo de licenciamento era propositalmente opaco, seletivo e deliberadamente lento. Muitas empresas ocidentais simplesmente ficaram sem acesso aos materiais críticos.

A segunda onda de restrições, anunciada em outubro de 2025, foi ainda mais severa. A China ampliou o escopo para além de bens físicos, buscando controlar o próprio conhecimento tecnológico. Empresas estrangeiras passaram a precisar de aprovação para exportar ímãs que contivessem até mesmo traços minúsculos de terras raras de origem chinesa, mesmo que produzidos fora da China usando tecnologias chinesas.

Imagine o impacto. Praticamente todos os ímãs de alta performance usados globalmente contêm pelo menos algum traço de terras raras processadas na China. Essa medida poderia ter paralisado cadeias produtivas inteiras.

A restrição foi suspensa temporariamente devido à retomada de negociações comerciais, mas a mensagem estava clara: a China possui um trunfo estrutural que pode usar a qualquer momento. E Washington sabe disso.

Trump e Groenlândia: A Doutrina Donroe redesenhando o Hemisfério Americano

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Donald Trump não está exatamente sendo sutil sobre suas ambições territoriais. Nas últimas semanas, o presidente eleito ventilou intenções expansionistas contra múltiplos alvos de uma forma que não se via desde o século XIX.

Ele sugeriu que o Canadá deveria se tornar o 51º estado dos Estados Unidos. Chamou o Canal do Panamá de Canal dos Estados Unidos. Propôs rebatizar o Golfo do México de Golfo da América. Mas nenhum território recebeu tanta atenção quanto a Groenlândia.

Em coletiva de imprensa em sua residência de Mar-a-Lago, Trump chegou a dizer textualmente que não poderia descartar o uso de força militar para obter o controle da Groenlândia ou do Canal do Panamá. “Precisamos de ambos por razões econômicas”, declarou.

Mas no caso da Groenlândia, Trump foi além das justificativas econômicas. “Precisamos da Groenlândia para fins de segurança nacional”, afirmou categoricamente.

Alguns analistas já batizaram essa postura de Doutrina Donroe, uma referência à Doutrina Monroe do século XIX, que declarava que o hemisfério ocidental era uma esfera de influência exclusiva dos Estados Unidos. Trump parece estar ressuscitando essa mentalidade imperialista, agora com foco em conter quebra-gelos russos e a expansão chinesa no Ártico.

A retórica também ecoa outro conceito histórico americano: o Destino Manifesto. Essa ideologia do século XIX enunciava que, dado seu excepcionalismo, os Estados Unidos tinham o dever e o direito de avançar sobre territórios estrangeiros para garantir recursos e segurança.

Foi o Destino Manifesto que justificou a expansão americana das 13 colônias originais em direção ao Oeste, um movimento que resultou no deslocamento forçado e no genocídio de populações nativo-americanas.

O Vale do Silício e o Interesse oculto na Groenlândia

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Enquanto Trump fala em segurança nacional, existe um interesse econômico gigantesco que não pode ser ignorado: o Vale do Silício precisa desesperadamente da Groenlândia.

Nenhum outro setor acumulou tanto poder financeiro em toda a história dos Estados Unidos. Apenas sete empresas, conhecidas como As Sete Magníficas (Apple, Microsoft, Google, Amazon, Nvidia, Meta e Tesla), representam mais de um terço de toda a capitalização do S&P 500, o principal índice do mercado de ações americano.

Essa potência econômica é construída sobre recursos nos quais a Groenlândia desempenha um papel absolutamente fundamental. De acordo com um estudo do Serviço Geológico da Dinamarca e da Groenlândia publicado em 2023, 25 dos 34 minerais considerados essenciais para semicondutores, defesa e eletrônica avançada são encontrados na ilha.

O fato de que Elon Musk, CEO da Tesla (uma das maiores fabricantes de carros elétricos do mundo, completamente dependente de terras raras para motores e baterias), esteja profundamente envolvido na formação do segundo governo Trump não deve ser ignorado.

A Tesla precisa da disponibilidade mundial de elementos de terras raras, além de lítio, cobre, níquel e grafite. Existe um conflito de interesses óbvio quando o CEO de uma empresa que depende criticamente de minerais raros está em posição política de autoridade para tomar decisões que podem impactar a disponibilidade global desses minerais.

Mas os interesses do Vale do Silício vão muito além dos carros elétricos da Tesla.

Data Centers na Groenlândia: O Clima Frio como Ativo Estratégico

As temperaturas permanentemente congelantes da Groenlândia representam um ativo estratégico valiosíssimo para a indústria de data centers, especialmente na era da inteligência artificial.

Como vimos anteriormente, o resfriamento de chips especializados em IA consome muita energia. Aproximadamente 60% das despesas operacionais de um data center de hiperescala são com energia, com grande parte destinada ao resfriamento.

O clima subártico da Groenlândia reduz essa despesa recorrente. A temperatura média anual fica entre -10°C e 5°C, dependendo da região. Isso torna a ilha um local particularmente atraente para estabelecer fazendas de treinamento de IA, o processo que mais consome energia em toda a cadeia da inteligência artificial.

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Leia Mais: A disputa por Taiwan: Da Guerra civil Chinesa ao Escudo de silício

Imagine poder construir um data center gigantesco onde o ar ambiente já está naturalmente a temperaturas próximas de zero grau. O custo de resfriamento cai vertiginosamente. A eficiência energética dispara. O retorno sobre o investimento melhora.

Além do clima favorável, a Groenlândia possui abundantes recursos energéticos inexplorados. O território tem vastos potenciais hidrelétricos ainda não desenvolvidos, condições excepcionais para energia eólica e litorais que poderiam viabilizar projetos experimentais de energia das marés, uma tecnologia ainda incipiente, mas promissora.

O acesso direto a fontes de energia limpa é um desafio enorme para as grandes empresas de tecnologia. Companhias como Microsoft e Google estão até reativando antigas usinas nucleares para garantir fornecimento suficiente de energia para seus data centers de IA. Na Groenlândia, a energia renovável abundante poderia estar disponível praticamente na porta de casa.

E tem outro fator crítico: espaço vazio.

O Problema do “Não no Meu Quintal” e a Solução Groenlândesa

Os data centers de última geração são estruturas massivas que ocupam áreas imensas. Um único data center de hiperescala pode ter mais de 100 mil metros quadrados, consumir centenas de megawatts de eletricidade e processar volumes de dados equivalentes a bilhões de livros simultaneamente.

Nos Estados Unidos, essas instalações estão enfrentando oposição crescente das comunidades locais. Os centros de dados criam relativamente poucos empregos diretos, levantam preocupações sobre o impacto nas contas de luz residenciais, consomem volumes assustadores de água para resfriamento e geram poluição sonora constante dos sistemas de ventilação.

Essa oposição reacendeu o antigo movimento do “Não no Meu Quintal”, similar ao que aconteceu com usinas nucleares e grandes fábricas no século passado. A organização Data Center Watch estima que pelo menos 64 bilhões de dólares em projetos de data centers nos Estados Unidos foram bloqueados ou atrasados desde 2023 devido à pressão de comunidades locais.

Somente em 2025, cerca de 25 projetos de data centers foram completamente cancelados por resistência pública. Isso representa uma limitação concreta e crescente para a expansão da infraestrutura de IA americana.

A Groenlândia oferece uma solução elegante para esse problema. A ilha tem espaço vazio em abundância. A densidade populacional é ridiculamente baixa, menos de 0,1 habitante por quilômetro quadrado. Existem regiões inteiras onde você pode dirigir por centenas de quilômetros sem ver uma única pessoa.

Claro, isso também traz desafios logísticos monumentais, como veremos a seguir.

A Barreira da Infraestrutura: 150 Quilômetros de Estradas e nada mais

Aqui chegamos ao elefante na sala, ou melhor, ao iceberg gigante bloqueando o caminho. A obsessão geopolítica de Trump entra em conflito direto com a realidade da engenharia e da logística.

A Groenlândia é três vezes maior que o Texas, mas possui apenas 150 quilômetros de estradas pavimentadas no total. Leia essa frase de novo e deixe a magnitude do problema afundar. Cento e cinquenta quilômetros. Isso é menos que a distância entre São Paulo e Campinas.

Não existem ferrovias. Nenhuma. Zero. Os assentamentos humanos são completamente isolados uns dos outros por terra. O transporte entre cidades acontece exclusivamente por barco ou avião. Durante o inverno rigoroso, muitos lugares ficam completamente inacessíveis por meses.

Diogo Rosa, pesquisador do Serviço Geológico da Dinamarca e da Groenlândia, alertou em um artigo na revista Fortune que qualquer projeto de mineração comercialmente viável precisa criar uma infraestrutura de acesso completamente do zero.

Isso inclui construir portos capazes de lidar com volumes industriais. Atualmente, o porto de Narsaq, uma das principais cidades, movimenta apenas cerca de 50 mil toneladas por ano. Para você ter uma ideia, um único navio graneleiro moderno pode transportar mais de 100 mil toneladas. O porto inteiro da Groenlândia não conseguiria carregar um único navio grande.

Também seria necessário construir usinas de energia locais. A rede elétrica atual da Groenlândia mal consegue atender às necessidades da pequena população existente. Uma operação de mineração em escala industrial precisaria de centenas de megawatts de potência. Simplesmente não existe infraestrutura para isso.

E tem mais um problema técnico que pode ser ainda mais desafiador que a falta de estradas.

O Enigma da Eudialita: O Mineral que Resiste à Extração

Mesmo que magicamente construíssem todas as estradas, portos e usinas necessárias, ainda existiria um obstáculo técnico sem precedentes: as terras raras da Groenlândia geralmente estão encapsuladas em um tipo extremamente complexo de rocha chamada eudialita.

A eudialita é um silicato de sódio, cálcio e zircônio que forma cristais avermelhados bonitos, mas absolutamente desafiadores para processar industrialmente. As terras raras ficam literalmente aprisionadas na estrutura cristalina da rocha de uma forma que torna a extração comercial é extremamente difícil.

Em outras partes do mundo, as terras raras são encontradas principalmente em carbonatitas, um tipo de rocha sedimentar que pode ser processada com métodos bem estabelecidos e economicamente viáveis. Existem décadas de experiência operacional com carbonatitas.

Com a eudialita? Praticamente ninguém desenvolveu um processo industrial comprovado e economicamente viável para extrair terras raras dela em escala comercial. É um problema técnico ainda não resolvido pela engenharia química moderna.

Javier Blas, analista especializado em commodities da Bloomberg, descreveu o entusiasmo do governo Trump pela mineração na Groenlândia como um PowerPoint otimista. Segundo ele, a ilha não é nenhum paraíso de matérias-primas pronto para exploração. Se, após décadas de tentativas de exploração geológica, nenhuma grande mineradora conseguiu operar com sucesso comercial, é porque os custos de processamento, que ultrapassariam facilmente 1 bilhão de dólares por projeto, consomem qualquer margem de lucro potencial.

E tem um agravante adicional: muitos dos depósitos mais promissores, como o de Kvanefjeld, estão localizados próximos a concentrações significativas de urânio radioativo. Isso gerou forte rejeição social e levou à aprovação de leis ambientais que bloqueiam projetos de mineração em áreas com presença de urânio.

Enquanto Washington elabora planos grandiosos de longo prazo para o Ártico, empresas como a Noveon Magnetics já produzem ímãs de alta performance no Texas usando materiais reciclados e fontes de terras raras provenientes de fora da China. Isso comprova que a solução para reduzir a dependência chinesa pode estar mais perto de casa do que nas profundezas congeladas do Círculo Polar Ártico.

A China já está lá: O Proprietário Silencioso da Groenlândia

O grande obstáculo estratégico à Doutrina Donroe de Trump não é apenas o gelo ou a geologia hostil. É o fato de que Pequim já estabeleceu presença econômica e legal na Groenlândia.

A empresa Energy Transition Minerals (ETM), com participação significativa de capital chinês, mantém uma arbitragem internacional contra o governo da Groenlândia, reivindicando uma indenização histórica de 11,5 bilhões de dólares. Para você ter noção da magnitude, isso representa aproximadamente quatro vezes o PIB inteiro da ilha.

A disputa surgiu após a proibição da mineração de urânio pela Groenlândia em 2021, decisão que afetou projetos nos quais a ETM tinha direitos de exploração anteriormente concedidos. A empresa argumenta que teve seus direitos legítimos violados e busca uma compensação astronômica.

Essa situação coloca a região numa armadilha geopolítica delicada. Washington quer assumir controle para expulsar a influência chinesa, mas Pequim já bloqueou os depósitos mais ricos através de ações corporativas, direitos de exploração adquiridos anteriormente e litígios internacionais que podem se arrastar por décadas.

A China tentou há anos aprofundar sua presença física na Groenlândia. O presidente Xi Jinping definiu que a China deve ser um país próximo ao Ártico, uma declaração geopolítica ousada considerando que o território chinês está a quase 1,5 mil quilômetros da região ártica.

Pequim lançou projetos culturais, tecnológicos e de infraestrutura batizados coletivamente de Rota da Seda Polar, um braço do massivo programa de investimentos globais “Cinturão e Rota” de Xi Jinping.

No âmbito desse programa, construtoras chinesas tentaram erguer pelo menos dois aeroportos na Groenlândia. Mas acabaram preteridas por empresas dinamarquesas após a pressão diplomática intensa de Washington. Foi uma pequena vitória americana, mas a guerra econômica pela Groenlândia está longe de terminar.

A Posição da Dinamarca e da própria Groenlândia

A Groenlândia é oficialmente um território autônomo da Dinamarca desde 1979, com ampla autoridade sobre assuntos internos, incluindo recursos naturais. A Dinamarca mantém controle sobre a política externa, defesa e questões monetárias.

A reação dinamarquesa às ameaças de Trump tem sido categórica. O governo de Copenhague reafirma repetidamente que a Groenlândia não está à venda, ponto final. A 12 dias de deixar o cargo, o secretário de Estado americano Antony Blinken declarou que os planos de Trump sobre a Groenlândia não vão se concretizar e que seria desperdício de tempo discutir o assunto.

Mas a posição da própria Groenlândia é mais nuançada e interessante. Múte Egede, primeiro-ministro da Groenlândia, afirmou que chegou a hora de a ilha romper com as algemas da era colonial, em referência clara à Dinamarca.

No entanto, Egede também deixou claro que a população de menos de 60 mil habitantes luta pela independência, não por trocar uma metrópole por outra. A maioria dos groelandeses aparentemente não deseja se tornar território americano. O que buscam é soberania plena sobre seu próprio destino.

Essa dinâmica cria uma situação geopolítica fascinante. Se a Groenlândia eventualmente conquistar independência da Dinamarca, o território se tornaria uma nação soberana minúscula, mas imensamente rica em recursos, perfeitamente posicionada para jogar grandes potências umas contra as outras em busca do melhor acordo possível.

A Demanda Global Explodindo: 4.500% de aumento desde 1960

Para entender completamente a urgência dessa disputa geopolítica, precisamos olhar para os números de demanda global.

Em 2024, a humanidade utilizou aproximadamente 4.500% mais elementos de terras raras do que usava em 1960. Leia isso de novo. Quatro mil e quinhentos por cento de aumento em pouco mais de seis décadas.

Segundo a Agência Internacional de Energia, a demanda global por terras raras deve crescer sete vezes até 2040, impulsionada pela transição energética e pela corrida tecnológica, especialmente em inteligência artificial.

A transição para energia limpa e renovável, essencial para conter as mudanças climáticas, depende absolutamente de terras raras. Uma única turbina eólica offshore de grande porte pode conter mais de 600 quilogramas de neodímio e outras terras raras em seu gerador. Um carro elétrico usa de 1 a 2 quilogramas desses elementos em seus motores.

Mesmo que as extrações na Groenlândia se tornem viáveis em curto período de tempo, o que é extremamente improvável, ainda precisaremos de muito mais reservas de terras raras para dar conta da demanda atual e futura do mercado global.

Essa lacuna entre oferta e demanda explica por que países estão dispostos a arriscar crises diplomáticas e até considerar ações militares para garantir acesso a esses recursos.

O Horizonte de Tempo Realista: 10 Anos no Mínimo

Para temperar o entusiasmo excessivo, precisamos falar sobre cronogramas realistas.

No estágio atual de exploração das jazidas groelandesas, “é altamente improvável que tenhamos mineradoras capazes de uma produção comercial consistente na Groenlândia em menos de 10 anos”, afirmou à BBC News Brasil o geólogo Adam Simon, professor da Universidade de Michigan.

Enquanto governos atuam com horizontes de quatro anos (o ciclo eleitoral padrão), grandes mineradoras planejam seus negócios com vistas a 40 anos. Existe um descompasso fundamental de escalas de tempo entre a política e a mineração industrial.

Mesmo acelerando todos os processos, um segundo desafio seria escoar a produção com grandes navios em uma região relativamente remota, crivada de icebergs e outros perigos náuticos que tornam a navegação extremamente arriscada e cara.

É improvável que Trump possa se orgulhar de extrair terras raras em escala comercial da Groenlândia mesmo que supere todos os enormes desafios geopolíticos da tarefa. O segundo mandato termina em janeiro de 2029. Dez anos a partir de agora seria 2036.

A menos, claro, que estejamos subestimando a determinação americana de fazer isso acontecer a qualquer custo. O que nos leva de volta ao interesse do Vale do Silício.

O Conflito de Interesses de Elon Musk e as Sete Magníficas

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A influência profunda de Elon Musk na formação do segundo governo Trump representa um conflito de interesses potencial que não pode ser ignorado.

A Tesla de Musk precisa desesperadamente de disponibilidade estável e previsível de terras raras, lítio, cobre, níquel e grafite. A empresa fabrica milhões de veículos elétricos por ano, cada um dependente criticamente desses materiais para motores, baterias e eletrônica embarcada.

Ter o CEO de uma companhia tão dependente de minerais críticos em posição de influenciar decisões governamentais sobre disponibilidade global desses mesmos minerais levanta questões éticas sérias.

Mas Musk não está sozinho. Como mencionado anteriormente, as Sete Magníficas do Vale do Silício (Apple, Microsoft, Google, Amazon, Nvidia, Meta e Tesla) representam coletivamente mais de um terço de toda a capitalização do S&P 500. Esse nível de concentração de poder econômico é sem precedentes na história americana.

Todas essas empresas dependem absolutamente de terras raras para seus produtos e serviços. iPhones da Apple usam terras raras em telas, câmeras, alto-falantes. As GPUs da Nvidia para inteligência artificial dependem de processos de fabricação que utilizam elementos raros. Os data centers da Amazon, Microsoft e Google precisam de sistemas de resfriamento avançados que empregam esses materiais.

O poder de lobby dessas empresas combinadas é astronômico. Se o Vale do Silício decidir que a Groenlândia é essencial para seus interesses estratégicos, a pressão política sobre qualquer administração americana será tremenda.

Alternativas à Groenlândia: Brasil, Austrália e Reciclagem

Enquanto Trump foca obsessivamente na Groenlândia, outras alternativas estão sendo desenvolvidas ao redor do mundo.

O Brasil possui a segunda maior reserva mundial de terras raras, dependendo da fonte, com aproximadamente 21 a 22 milhões de toneladas. Mais importante, as reservas brasileiras em argilas iônicas, especialmente na região de Poços de Caldas em Minas Gerais, oferecem vantagens decisivas sobre reservas em rocha dura.

A viabilidade econômica é superior. O processo de extração e separação de terras raras de argilas iônicas é mais simples, exige menos reagentes químicos e reduz significativamente custos operacionais. A sustentabilidade ambiental também é melhor.

José Marques Braga Júnior, diretor executivo da mineradora Viridis, destaca que o projeto Colossus em Minas Gerais não utiliza barragens nem gera pilhas definitivas de rejeito, representando um avanço tecnológico significativo em relação à mineração convencional.

A Austrália também está investindo pesadamente. A mineradora australiana Viridis Mining & Minerals anunciou a construção de um centro de pesquisa e processamento de terras raras em Poços de Caldas, totalmente livre de tecnologia ou componentes chineses. O objetivo é consolidar uma alternativa ocidental na cadeia global de minerais críticos.

A reciclagem de terras raras de produtos eletrônicos descartados é outra fronteira promissora. Empresas estão desenvolvendo processos para extrair esses elementos de smartphones, computadores e outros dispositivos antigos. Embora ainda em escala relativamente pequena, a reciclagem urbana pode fornecer uma porcentagem crescente da demanda futura.

Lições Para o Resto do Mundo

A saga da Groenlândia oferece lições importantes para países como o Brasil que possuem reservas significativas de minerais críticos.

  • Primeiro, recursos naturais não se transformam automaticamente em prosperidade econômica. É necessário infraestrutura, tecnologia, capital, expertise e vontade política para converter um potencial geológico em ativo econômico.
  • Segundo, o domínio chinês sobre o processamento de terras raras mostra o que décadas de planejamento estratégico consistente podem alcançar. A China não tinha vantagens naturais particulares quando começou, mas construiu metodicamente todo o ecossistema necessário.
  • Terceiro, a fragmentação geopolítica atual cria janelas de oportunidade para países neutros ou alinhados de forma flexível. Brasil, Austrália, Canadá e outros podem se posicionar como fornecedores confiáveis alternativos à China.
  • Quarto, sustentabilidade ambiental se tornou um diferencial competitivo, não apenas obrigação moral. Projetos de mineração que demonstram práticas ambientais superiores atraem investimento e apoio público de forma muito mais efetiva.
  • Quinto, conhecimento tecnológico é tão valioso quanto os próprios minerais. Controlar processos de refinamento e beneficiamento gera muito mais valor agregado que simplesmente exportar minério bruto.

O Futuro ainda está sob o Gelo

A tentativa de assumir o controle da Groenlândia por parte do governo Trump esbarra em barreiras de leis ambientais rigorosas, geologia extraordinariamente hostil e, acima de tudo, ausência completa de infraestrutura básica.

O governo americano já investiu centenas de milhões em empreendimentos relacionados à mineração ártica, mas os resultados práticos continuam enterrados sob camadas de permafrost e gelo.

Como resumiu perfeitamente Anthony Marchese em um artigo na Fortune: “Se você for à Groenlândia em busca de minerais, está falando de bilhões de dólares e um tempo extremamente longo”.

Embora a Casa Branca queira comprar a ilha como o troféu máximo da nova Guerra Fria tecnológica, a realidade técnica de 2026 dita uma afirmação mais simples e poderosa: o maior tesouro da Groenlândia ainda está protegido não por armas ou tratados diplomáticos, mas pela ausência de uma estrada que leve até ele.

As terras raras continuarão sendo o petróleo do século XXI. A inteligência artificial continuará demandando quantidades crescentes desses materiais. A transição energética para fontes renováveis acelerará o consumo global. E a China manterá seu domínio esmagador sobre o processamento e o refino em um futuro previsível.

A Groenlândia representa uma aposta geopolítica de longuíssimo prazo. Talvez em 2050, quando o aquecimento global tiver derretido significativamente mais gelo, quando novas tecnologias de extração de eudialita forem desenvolvidas, quando bilhões tiverem sido investidos em infraestrutura, a ilha finalmente se torne o El Dorado de minerais estratégicos que Trump e outros imaginam.

Até lá, a maior ilha do mundo permanece como um lembrete poderoso de que nem todos os tesouros enterrados no solo podem ser facilmente alcançados, não importa quão desesperadamente sejam desejados ou quão valiosos sejam em teoria.

E talvez, só talvez, essa dificuldade de acesso seja exatamente o que protegerá a Groenlândia e seu povo de se tornarem apenas mais um campo de batalha na guerra tecnológica e econômica do século XXI.

Foto de Rodrigo dos Anjos

Rodrigo dos Anjos

Rodrigo é redator do ClicaTech e formado em Ciências da Computação com Especialização em Segurança da Informação. Amante declarado da tecnologia, dedica-se não apenas a acompanhar as tendências do setor, mas também a compreender, aplicar, proteger e explorar soluções que unam inovação, segurança e eficiência.

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