O mercado de videogames está passando por uma das fases mais turbulentas das últimas décadas. Consoles ficando mais caros, estúdios fechando, demissões em série, o mercado de jogos como serviço em colapso e a inteligência artificial se infiltrando nos processos criativos de formas que nem sempre são bem recebidas. Encontrar uma empresa que navega bem nessa tempestade é raro.
A Nintendo Resiste e Reduz Preços no Brasil, ao menos por enquanto. Mas o mês de março e abril de 2026 trouxeram três movimentações relevantes que, juntas, pintam um quadro mais matizado do que a narrativa de “Nintendo sempre acerta” sugere: o Switch 2 mostra sinais de desaceleração depois de um início histórico, os preços dos jogos digitais no Brasil foram revisados para baixo em uma raridade para o mercado de consoles, e o Escritório de Patentes dos Estados Unidos deu uma rasteira jurídica considerável na empresa ao rejeitar uma patente central em sua batalha contra Palworld.

Cada um desses três eventos diz algo diferente sobre a Nintendo. E nenhum deles, isoladamente, conta a história completa.
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Por que a Nintendo Ainda está de Pé Enquanto os Outros Tropeçam?

O Switch 2 chegou ao mercado em junho de 2025 quebrando recordes. Foram 3,5 milhões de unidades vendidas no primeiro mês, superando em 1 milhão o desempenho do Switch original no mesmo período.
Com nove meses de mercado, a base instalada estava 45% acima da registrada pelo primeiro Switch no mesmo intervalo de tempo após o lançamento, conforme dados da consultoria Circana nos Estados Unidos.
Mas o fim de 2025 trouxe uma desaceleração que forçou a Nintendo a rever seus planos. Segundo a Bloomberg, a empresa decidiu reduzir sua meta de produção trimestral de 6 milhões para 4 milhões de unidades, um corte de 33%, em resposta a vendas abaixo do esperado no mercado americano durante a temporada de festas. As ações da empresa na Bolsa de Tóquio chegaram a cair mais de 6% com a notícia.
Mesmo assim, o Switch 2 acumulou 17,37 milhões de unidades vendidas desde o lançamento, o melhor início de hardware da história da Nintendo. O Japão, em particular, segue com desempenho robusto, com o console dominando as listas semanais de vendas de forma expressiva.
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O que Diferencia a Nintendo dos Concorrentes
Enquanto Sony e Microsoft disputam o mercado com modelos cada vez mais voltados a serviços por assinatura e ao sucesso de jogos como serviço, no estilo Fortnite, a Nintendo seguiu apostando no que funcionou para ela historicamente: desenvolver bons jogos e vendê-los.
Mario Kart World vendeu mais de 14 milhões de cópias desde o lançamento. Donkey Kong Bananza chegou forte. E o spin-off de Pokémon Pokopia vendeu mais de 2 milhões de cópias nos primeiros quatro dias.
Essa consistência não surgiu do nada. É fruto de uma filosofia declarada que o próprio presidente da Nintendo, Shuntaro Furukawa, resumiu em palavras simples durante a apresentação de resultados do início de 2026:
“Não é uma abordagem apropriada ser excessivamente influenciado por tendências de curto prazo.”Shuntaro Furukawa, presidente da Nintendo, em apresentação de resultados, fevereiro de 2026
É essa mentalidade que explica por que a Nintendo não apostou tudo em jogos como serviço quando Fortnite dominava o noticiário, por que não tentou replicar o modelo de hardware de alta potência da Sony e da Microsoft, e por que o Switch 2 é, acima de tudo, uma evolução segura do Switch original, sem rupturas radicais.
Contexto do mercado: Enquanto a Nintendo reporta resultados sólidos, a indústria ao redor enfrenta um cenário difícil. A Sony registrou queda de 15,7% nas vendas do PS5 no trimestre de festas de 2025, e aumentou os preços do console em 2026. A Microsoft continua consolidando estúdios e demitindo funcionários. A Ubisoft cancela projetos. Nesse cenário, a estabilidade relativa da Nintendo se destaca — mesmo que ela também enfrente pressões reais.
As Pressões que a Nintendo Não Consegue Ignorar
Nem tudo são boas notícias para a Nintendo, no entanto. O aumento global no custo dos chips de memória, impulsionado pela corrida da inteligência artificial por componentes de alto desempenho, afeta diretamente o custo de produção de qualquer hardware, incluindo o Switch 2.
A desvalorização do iene japonês em relação ao dólar agrava esse cenário: a Nintendo compra componentes em dólares, mas reporta seus resultados em ienes.
O Switch 2 foi lançado em um momento particularmente complicado: a revelação inicial aconteceu no mesmo dia em que o presidente Donald Trump anunciou a primeira rodada de tarifas sobre importações, o que forçou a Nintendo a atrasar as pré-vendas e encarecer acessórios.
A empresa chegou a aumentar os preços de consoles mais antigos e passou a cobrar mais por jogos físicos. A situação se tornou tão relevante que a Nintendo está até processando o governo dos Estados Unidos pelo impacto dessas tarifas.
O presidente Furukawa foi honesto na apresentação de resultados: “se esse aumento nos preços dos componentes durar mais do que o esperado e se estender pelo próximo ano fiscal e além, poderá pressionar a lucratividade.”
É uma admissão importante para uma empresa que até agora tem conseguido absorver boa parte desses custos sem repassá-los ao consumidor final de hardware.
O que a Nintendo ainda tem na manga: A empresa ainda não lançou nem anunciou um novo Super Mario principal ou um novo Legend of Zelda para o Switch 2. Os próximos dois títulos da linha principal de Pokémon também estão a pelo menos um ano de distância. Para uma empresa que vende hardware principalmente a partir de seus softwares exclusivos, esses lançamentos representam uma reserva considerável de potencial de vendas.
Nintendo Reduz Preços de Jogos Digitais na eShop Brasileira
Em meio a um cenário geral de aumento de preços na indústria de games, uma notícia positiva chegou para os jogadores brasileiros: a Nintendo atualizou sua conversão interna do dólar, o que resultou em uma queda nos preços dos principais jogos da empresa na eShop, a loja digital da Nintendo para Switch e Switch 2.
A mudança vem logo depois de um anúncio que causou certa confusão: a Nintendo havia divulgado que passaria a praticar preços diferentes para jogos digitais e físicos, alegando que os custos de distribuição de cada formato justificam valores distintos.
Enquanto as edições físicas envolvem fabricação, embalagem e logística, as versões digitais dependem de infraestrutura online. A diferenciação em si é comum no mercado, mas o timing da novidade, junto com o aumento de preços em outras regiões, gerou dúvidas sobre o impacto no Brasil.
A atualização da taxa de conversão acabou sendo uma surpresa positiva. Os valores aplicados na eShop refletem agora uma taxa mais favorável ao consumidor, tornando os títulos first-party da Nintendo, ou seja, os jogos desenvolvidos pela própria empresa, mais acessíveis do que estavam.

O impacto mais evidente é em Donkey Kong Bananza, que segue o padrão de US$ 69,99 nos EUA e que teve seu preço no Brasil reduzido de R$ 439,90 para R$ 389,90. Para jogos na faixa de US$ 29,99, a redução foi proporcionalmente maior, passando de R$ 199,00 para R$ 164,90.

É raro, em qualquer plataforma, ver preços de jogos caindo sem que seja dentro de uma promoção temporária. O reajuste da taxa de conversão da Nintendo, ao afetar toda a tabela de preços de forma permanente, representa uma das poucas movimentações positivas para o consumidor de games no Brasil em meses recentes.
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Nintendo Perde Patente Central no Caso Contra Palworld nos EUA
Em 1º de abril de 2026, o Escritório de Patentes e Marcas Registradas dos Estados Unidos, conhecido pela sigla USPTO (United States Patent and Trademark Office), rejeitou todos os 26 pontos da polêmica patente registrada pela Nintendo em setembro de 2025.
O registro, de número 12.403.397, descrevia um sistema por meio do qual personagens podem ser convocados para lutar ao lado do jogador durante combates — mecânica central da franquia Pokémon e alvo direto no processo judicial movido contra a Pocketpair, desenvolvedora do jogo Palworld.
A decisão foi classificada como “não definitiva”, o que significa que a Nintendo tem dois meses para apresentar uma resposta, podendo solicitar prorrogação de prazo.
Mas o alcance da rejeição é significativo: o USPTO invalidou todas as reivindicações da patente sem necessidade de comparar a mecânica descrita com Palworld ou com qualquer jogo em específico. A conclusão foi mais direta: a mecânica simplesmente não é uma invenção original.
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Como o USPTO Chegou a Essa Conclusão
Para chegar à rejeição, o examinador do USPTO analisou quatro patentes anteriores que, combinadas, cobrem todos os 26 pontos reivindicados pela Nintendo. Nenhum deles foi considerado suficientemente novo ou não óbvio para justificar a concessão de um registro exclusivo.

Um detalhe que não passou despercebido pelos especialistas: duas das quatro patentes utilizadas como “arte prévia” para invalidar o registro da Nintendo são da própria Nintendo.
Ou seja, o USPTO usou patentes antigas da empresa para provar que ela estava, em essência, tentando patentear conceitos que ela mesma já havia descrito antes.

O Que Essa Decisão Significa Para o Caso Palworld
A decisão do USPTO nos Estados Unidos não afeta diretamente o processo judicial em andamento no Japão. São jurisdições diferentes, com sistemas de patentes independentes.
O processo japonês, movido no Tribunal Distrital de Tóquio, continua ativo e envolve três patentes distintas, duas relacionadas à captura e liberação de criaturas e uma relacionada a personagens montados.
Mas o impacto simbólico é relevante. A patente americana havia sido concedida em setembro de 2025 com velocidade incomum e sem contestação formal, o que levou o próprio diretor do USPTO, John A. Squires, a ordenar pessoalmente uma revisão do registro em novembro — algo tão raro que a última vez que um diretor havia tomado essa iniciativa foi em 2012. A rejeição agora confirma que a preocupação com a amplitude da patente era justificada.
O advogado especializado em propriedade intelectual de videogames Kirk Sigmon havia chamado a concessão original de “uma falha vergonhosa do sistema de patentes dos EUA.” A reviravolta do USPTO parece confirmar esse diagnóstico.

Por que a Patente Preocupava a Indústria
O alcance potencial da patente 12.403.397 ia muito além de Palworld. Por sua descrição ampla, o registro poderia, em tese, ser usado para processar qualquer jogo que utilizasse a mecânica de convocar personagens em combate.
Isso colocaria em risco franquias como Persona, Final Fantasy, Pikmin, e até jogos independentes que usam mecânicas similares há décadas.
Quando a patente foi concedida, o ex-especialista jurídico da The Pokémon Company, Don McGowan, disse que imaginava que as empresas simplesmente a ignorariam dado seu histórico de ampla utilização no setor.
O juízo do USPTO parece endossar essa intuição: a mecânica de invocar criaturas para batalhar não é nova, não foi inventada pela Nintendo e não deveria jamais ter sido concedida como exclusividade.
O Que os Três Eventos Dizem Sobre a Nintendo em 2026
Juntos, a desaceleração do Switch 2, a redução de preços na eShop brasileira e a derrota na patente americana formam um retrato mais humano da Nintendo do que a narrativa de empresa infalível que a mídia especializada às vezes constrói.
A Nintendo tem mais de 130 anos de existência e sobreviveu a produtos que foram, em algumas ocasiões, fracassos retumbantes. O Virtual Boy foi um desastre. O Wii U quase comprometeu a credibilidade da empresa. Mas a lição aprendida dessas experiências não foi paralisante — foi que existe diferença entre tomar riscos calculados e apostar o futuro em tendências passageiras.
A redução de preços na eShop brasileira, mesmo que modesta, é um sinal de que a empresa está atenta à dinâmica de cada mercado.
O Brasil tem uma das maiores cargas tributárias sobre eletrônicos do mundo, e qualquer ajuste que torne o catálogo mais acessível é bem-vindo.
A derrota na patente americana, por outro lado, revela os limites de uma estratégia jurídica agressiva que, por vezes, beira o uso questionável do sistema de patentes.
O que permanece é que, em um mercado de games em crise, a Nintendo continua sendo a empresa que mais acerta quando o assunto é entender o que seus consumidores querem.
Não é pouca coisa. Mas o cenário externo, com custos de componentes em alta, tarifas comerciais e uma concorrência que, mesmo tropeçando, segue presente, vai continuar testando essa consistência nos próximos meses.




