A Ilha que vale mais que o Petróleo no Século 21
Taiwan, com apenas 160 km de distância da costa sudeste da China é sem dúvida mais importante do que outras fontes para a economia global. Não é exagero. Se essa ilha parasse de funcionar amanhã, a civilização moderna entraria em colapso em questão de semanas ou bem menos.
Com uma população de 23 milhões de habitantes, a ilha controla a produção de 90% dos semicondutores avançados do mundo através de uma única empresa: a TSMC, Taiwan Semiconductor Manufacturing Company.

Esses minúsculos chips de silício alimentam literalmente tudo na vida moderna, de iPhones a jatos militares, de veículos elétricos a supercomputadores de inteligência artificial, dentre outros produtos.
A ação dos EUA na Venezuela abre precedentes, poisa probabilidade da China querer invadir Taiwan aumenta, já que abre margem para as suas alegações .
Segundo informações do jornal New York Post, os Estados Unidos publicaram um relatório afirmando que a China pode atacar Taiwan até o final de 2027. O relatório ainda afirma que é esperado que Pequim alcance a capacidade de lutar e vencer uma guerra contra Taiwan até o final do ano que vem.
Estamos falando de menos de dois anos a partir de agora. A China realizou recentemente uma das maiores operações militares de sua história ao redor da ilha, mobilizando 207 aeronaves, 31 navios de guerra e 16 embarcações da Guarda Costeira em apenas dois dias.
O presidente chinês Xi Jinping declarou que a tendência histórica em direção à reunificação nacional é irrefreável e que ninguém deve subestimar a firme determinação da China. Enquanto isso, os Estados Unidos aprovaram um pacote recorde de 11 bilhões de dólares em vendas de armas para Taiwan e estão construindo freneticamente fábricas de semicondutores no Arizona, numa corrida desesperada para reduzir a dependência da ilha asiática.
Esta não é apenas mais uma disputa territorial. É a questão geopolítica que vai definir o século 21. E para entender completamente o que está em jogo, precisamos entender o que pode acontecer com a ilha daqui pra frente com a recente operação dos EUA na Venezuela.
Recapitulando: Como Taiwan se tornou a Capital Mundial dos Semicondutores
A história começa em 1987, quando o governo taiwanês tomou uma decisão que mudaria o destino da ilha para sempre. Eles recrutaram Morris Chang, um executivo experiente da indústria de chips que havia trabalhado nos Estados Unidos, e o orientaram a abrir uma empresa completamente nova com um modelo de negócios revolucionário.
A ideia era simples, mas poderosa: em vez de projetar e fabricar seus próprios chips como faziam gigantes americanas e japonesas, a TSMC seria uma fundição pura, fabricando designs de outras empresas. Qualquer companhia no mundo poderia trazer seus projetos de chips para a TSMC, que os transformaria em silício real usando as melhores tecnologias e processos disponíveis.

Esse modelo de fundição permitiu que startups do Vale do Silício competissem com gigantes estabelecidas sem precisar investir bilhões em suas próprias fábricas. Empresas como Apple, Qualcomm, Nvidia e AMD podiam focar em um design inovador enquanto terceirizavam a manufatura complexa para Taiwan. Foi uma parceria perfeita que impulsionou toda a revolução tecnológica das últimas três décadas.
Mas a TSMC não parou em simplesmente fabricar chips. A empresa se comprometeu com a inovação e a miniaturização. Enquanto competidores ficavam para trás, a TSMC continuava empurrando os limites da física, criando transistores cada vez menores, mais rápidos e mais eficientes.
Eles atraíram os melhores engenheiros, construíram a mão de obra mais qualificada e criaram uma cultura de compartilhamento de conhecimento que acelerou o progresso.
Taiwan levou décadas desenvolvendo esse ecossistema. Não é apenas a TSMC sozinha, mas toda uma cadeia de fornecedores, prestadores de serviços, universidades formando engenheiros especializados e governo apoiando ativamente a indústria. É como o Vale do Silício para o software, mas para o hardware: uma concentração única de talento, conhecimento e infraestrutura que não pode ser replicada facilmente.
Hoje, desde o chip do seu telefone até as GPUs da Nvidia que alimentam o ChatGPT, desde os processadores AMD no seu computador até os chips nos sistemas de armas mais avançados do Pentágono, praticamente tudo passa pela TSMC em Taiwan. A empresa atingiu receita de mais de 70 bilhões de dólares em 2024 e possui valor de mercado superior a 800 bilhões de dólares.
O Escudo de Silício: A Estratégia de Defesa mais Inteligente da História
Taiwan sempre soube que enfrentava uma ameaça existencial da China. O país vive sob a sombra de invasão do gigante asiático. Desde que o Partido Comunista assumiu o controle da China continental em 1949, força o governo nacionalista derrotado a se refugiar na ilha. Durante décadas, Pequim insiste que Taiwan é parte inalienável da China e deve ser reunificada, pela força se necessário.
Militarmente, Taiwan nunca teve chance real contra a China. O Exército de Libertação Popular chinês supera as forças taiwanesas em praticamente todos os aspectos: mais soldados, mais navios, mais aviões, mais mísseis, mais tudo. A China gasta mais em defesa do que qualquer país, exceto os Estados Unidos. Em um conflito direto, Taiwan poderia, na melhor das hipóteses, tentar retardar um ataque por tempo suficiente para uma ajuda externa chegar.
Mas Taiwan desenvolveu algo muito mais inteligente que a superioridade militar convencional: o Escudo de Silício. A estratégia era simples e brilhante: tornar-se absolutamente indispensável para a economia global através da manufatura de semicondutores. Se Taiwan controla a produção da tecnologia que alimenta literalmente tudo no mundo moderno, então o mundo inteiro tem interesse em proteger Taiwan de uma invasão.
Funciona assim: se a China invadir Taiwan e destruir ou danificar as fábricas da TSMC durante o conflito, a economia global entra em colapso imediato. Não haveria telefones novos. Não haveria carros novos, porque todos dependem de chips. Sistemas de armas modernos deixariam de ser produzidos. Data centers para inteligência artificial não poderiam expandir. A economia mundial voltaria décadas instantaneamente.
Mesmo se a China conseguisse capturar as fábricas intactas, não conseguiria operá-las. A TSMC possui segredos proprietários e dependências de fornecedores globais que seriam imediatamente cortadas. Os engenheiros taiwaneses cruciais provavelmente fugiriam ou se recusariam a cooperar.
As máquinas especializadas, fornecidas principalmente pela empresa holandesa ASML, deixariam de ser mantidas e atualizadas. Em meses, as fábricas capturadas se tornariam inúteis.
Portanto, mesmo que a China militarmente possa invadir Taiwan, o custo econômico seria catastrófico não apenas para o mundo, mas para a própria China, que também depende desses chips. É a dissuasão através de interdependência econômica: atacar Taiwan seria um suicídio econômico global, incluindo para o atacante.
Essa estratégia funcionou brilhantemente por décadas. Mas agora enfrenta seu maior teste.
A Vulnerabilidade do Escudo: Por que ele pode estar falhando
O Escudo de Silício tinha um pressuposto fundamental: que a dependência global de Taiwan permaneceria absoluta e que nenhuma alternativa existiria. Mas várias coisas mudaram nos últimos anos que estão corroendo essa proteção.
- Primeiro, a pandemia da COVID-19 expôs brutalmente os riscos de concentração geográfica extrema. Quando Taiwan teve surtos e fábricas precisaram reduzir as suas operações, a escassez global de chips resultante paralisou indústrias inteiras. Fabricantes de automóveis deixaram carros parcialmente montados em porque faltavam chips. Console de videogames ficaram impossíveis de encontrar. A vulnerabilidade ficou óbvia para todos.
- Segundo, os Estados Unidos perceberam tardiamente que haviam perdido completamente a capacidade de fabricar em seu território semicondutores avançados. Por décadas, empresas americanas terceirizaram manufatura para a Ásia buscando custos menores, focando apenas em design. Mas agora, em caso de conflito sobre Taiwan, os EUA ficariam sem acesso a chips críticos para tudo, desde smartphones até sistemas de defesa. Isso é um risco de segurança nacional inaceitável para os Americanos.
- Terceiro, a própria China está investindo centenas de bilhões tentando desenvolver capacidade doméstica de semicondutores avançados. Apesar das sanções americanas e restrições de exportação limitando acesso a tecnologias críticas, a China tem feito progressos. O chatbot DeepSeek demonstrou que a tecnologia chinesa pode competir com líderes ocidentais mesmo usando chips menos avançados. Se a China eventualmente conseguir produzir seus próprios chips de ponta, a dependência de Taiwan diminui.
- Quarto, e mais preocupante para Taiwan, tanto os Estados Unidos quanto os aliados estão ativamente trabalhando para diversificar a produção de chips para fora da ilha. Isso enfraquece diretamente o Escudo de Silício. Se o mundo desenvolver alternativas, Taiwan perde a sua proteção.
A Fábrica no Arizona: A América tenta recuperar a independência

Entre os cactos do deserto do Arizona, nos arredores de Phoenix, está sendo construído o que pode ser o complexo industrial mais importante dos Estados Unidos: uma fábrica da TSMC capaz de produzir os semicondutores mais avançados do mundo em solo americano.
Esta é uma das instalações mais vigiadas e secretas do país. Papel em branco e dispositivos pessoais não são permitidos dentro das instalações por precauções de segurança, para evitar vazamento de propriedade intelectual.
O complexo, conhecido como Fab 21, abriga alguns dos segredos industriais mais valiosos do planeta. Grandes clientes como a Apple e a Nvidia confiam na TSMC para proteger designs de futuros produtos, e agora esses segredos estão sendo parcialmente transferidos para o território americano.
A TSMC inicialmente se comprometeu com 40 bilhões de dólares para construir três fábricas no Arizona. Depois das ameaças tarifárias do presidente Donald Trump, a empresa anunciou um investimento adicional de 100 bilhões de dólares, elevando o total para mais de 165 bilhões. É um dos maiores investimentos estrangeiros diretos na história dos Estados Unidos.
A primeira fábrica já está produzindo chips de 4 nanômetros, os mais avançados jamais fabricados em solo americano. Para colocar isso em perspectiva, cada wafer de silício contém entre 10 e 14 trilhões de transistores microscópicos.
O processo completo envolve entre 3 mil e 4 mil etapas individuais ao longo de meses. Engenheiros da TSMC descrevem que se você pudesse encolher na mesma escala e entrar no wafer, as múltiplas camadas podem parecer ruas entre arranha-céus altíssimos.
Trump frequentemente menciona a fábrica do Arizona como exemplo de sua política “América Primeiro” e a vitória de suas ameaças tarifárias. A TSMC é diplomática sobre isso, mas a verdade é que grande parte do projeto já estava planejado e subsidiado pela Lei dos Chips do ex presidente anterior Joe Biden, que alocou 52 bilhões de dólares em subsídios e incentivos fiscais para atrair manufatura de semicondutores para os Estados Unidos.
Mas mesmo com todo esse investimento massivo, ainda existem problemas significativos.
Os Desafios intransponíveis de replicar Taiwan nos EUA

Construir fábricas é a parte fácil. Fazer elas funcionarem com eficiência e qualidade comparáveis a Taiwan é outra história completamente diferente. E tanto a TSMC quanto a Samsung, que também está construindo fábrica no Texas com subsídios americanos, enfrentaram desafios sérios.
1- O primeiro problema é a mão de obra qualificada. Fabricar chips avançados não é como montar carros ou produzir aço. Requer engenheiros extremamente especializados com anos de treinamento e experiência.
Taiwan tem décadas desenvolvendo esse talento através de universidades focadas, programas de treinamento corporativo e cultura de excelência técnica. Os Estados Unidos simplesmente não têm engenheiros suficientes com essas habilidades específicas.
A TSMC teve que trazer centenas de engenheiros de Taiwan para o Arizona para treinar trabalhadores americanos e supervisionar operações iniciais. Mas isso criou tensões culturais. Engenheiros taiwaneses estão acostumados com jornadas longas, dedicação extrema e hierarquia rígida.
Trabalhadores americanos têm expectativas diferentes sobre o equilíbrio entre a vida e o trabalho, além de sindicatos que resistem a certas práticas laborais.
2- O segundo problema é a complexidade da cadeia de suprimentos. Mesmo que a fábrica esteja no Arizona, ela depende de componentes e materiais do mundo inteiro.
Os wafers de silício vêm do Japão. As máquinas de litografia ultravioleta extrema, essenciais para criar chips de 4 nanômetros ou menores, são fabricadas exclusivamente pela empresa holandesa ASML e custam mais de 150 milhões de dólares cada. Os espelhos especializados dentro dessas máquinas vêm da Alemanha. Produtos químicos específicos vêm de múltiplos países.
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As tarifas de Trump sobre as importações complicam muito essa cadeia de suprimentos global e integrada. Rose Castanares, presidente da TSMC Arizona, foi clara: A cadeia de suprimentos de semicondutores é global. Não há um único país neste momento que seja capaz de fazer tudo, desde produtos químicos até a fabricação de wafers e embalagens, e por isso é muito difícil desfazer tudo isso tão rápido.
3- O terceiro problema é o atraso tecnológico. Chris Miller, autor do livro A Guerra dos Chips, observa que embora as fábricas da TSMC no Arizona produzam chips de alta qualidade, eles estão uma geração atrás da tecnologia de ponta de Taiwan.
Enquanto Arizona fabrica chips de 4 nanômetros, Taiwan já está produzindo em massa chips de 3 nanômetros e desenvolvendo tecnologia para 2 nanômetros. A TSMC confirmou que a maior parte de sua fabricação mais avançada permanecerá em Taiwan, especialmente os chips de computador mais avançados.
4- O quarto problema é a escala. Taiwan tem capacidade de produção construída ao longo de décadas. Mesmo com investimento de 165 bilhões de dólares, as fábricas no Arizona representam uma fração pequena da capacidade total da TSMC. Marc Einstein, diretor de pesquisa da Counterpoint, é cético: “Os EUA poderiam fabricar chips e criar empregos? Claro, mas será que eles vão conseguir fazer chips de até um nanômetro? Provavelmente, não”.
Elon Musk, forte apoiador de Trump, defendeu publicamente o programa de vistos H-1B para trabalhadores estrangeiros qualificados, reconhecendo que empresas americanas de tecnologia dependem crucialmente de engenheiros imigrantes. A Tesla de Musk enfrentou problemas de imigração tentando trazer engenheiros.
Bill Gates observou recentemente que as políticas de restrição tecnológica contra a China forçaram os chineses, em termos de fabricação de chips e tudo o mais, a avançar a toda velocidade. Em vez de manter superioridade americana, as restrições incentivaram a China a acelerar o desenvolvimento de suas capacidades domésticas, potencialmente criando um competidor mais forte a longo prazo.
A China pode realmente invadir Taiwan?

Militarmente, não há dúvida: a China possui capacidade de invadir Taiwan. O relatório recente do Departamento de Defesa dos Estados Unidos detalha a superioridade esmagadora do Exército de Libertação Popular em todos os domínios.
No mar, a China tem três porta-aviões, incluindo o recém-comissionado Fujian, tão moderno quanto o principal navio americano USS Gerald R. Ford. O porta-aviões é essencial porque uma formação de três porta-aviões é considerada mínimo para dar efetividade real à marinha em cenário de uma guerra naval.
Taiwan não tem porta-aviões. A China possui dezenas de destróieres e fragatas modernas, submarinos nucleares e convencionais, e uma frota extrema de embarcações anfíbias para desembarque de tropas.
No ar, a China opera centenas de caças modernos, incluindo os J-20 de quinta geração, bombardeiros de longo alcance e drones avançados. Taiwan tem força aérea respeitável mas numericamente muito inferior e tecnologicamente um passo atrás.

Em terra, a China poderia mobilizar milhões de soldados se necessário, armados com equipamento moderno e apoiados por artilharia de longo alcance e mísseis balísticos capazes de atingir qualquer ponto em Taiwan.
Os recentes exercícios militares chineses demonstraram a capacidade de criar um cerco completo ao redor da ilha. Delimitaram sete zonas aéreas e marítimas, mais do que em simulações anteriores, interrompendo vias de acesso por norte, sul e leste. Analistas militares chineses afirmaram que todas as instalações energéticas, principais portos e bases militares de Taiwan estão dentro do alcance do poder de fogo do Exército de Libertação Popular.
Mas a invasão anfíbia é uma das operações militares mais difíceis que existem. O Estreito de Taiwan tem apenas cerca de 160 quilômetros no ponto mais estreito, mas as águas são traiçoeiras, o clima é frequentemente adverso e as praias adequadas para desembarque são limitadas e bem defendidas. Taiwan teria vantagem do defensor, conhecendo o terreno e tendo posições preparadas.
A questão real não é se a China pode invadir, mas a que custo. Especialistas ocidentais estimam que a invasão bem-sucedida resultaria em centenas de milhares de mortes em ambos os lados, destruição em massa da infraestrutura de Taiwan incluindo as preciosas fábricas de chips, e o risco alto de escalar para um conflito mais amplo envolvendo os Estados Unidos e os aliados.
O que os Estados Unidos fariam?
Esta é uma questão de 11 bilhões de dólares, literalmente o valor do último pacote de armas aprovado para Taiwan. A política oficial americana é chamada de ambiguidade estratégica: deliberadamente não esclarecer se ou como defenderiam Taiwan militarmente em caso de ataque chinês.
Diplomaticamente, os Estados Unidos aderem à política de Uma Só China, que reconhece apenas um governo chinês em Pequim e mantém laços formais com a China, não Taiwan. Mas na prática, os EUA tratam Taiwan como aliado de fato, vendendo armas defensivas, mantendo a cooperação militar informal e deixando implícito que a interferência militar chinesa seria inaceitável.
O ex presidente Joe Biden afirmou em múltiplas ocasiões que os Estados Unidos defenderiam Taiwan militarmente se a China atacasse. Mas seu conselheiro de segurança nacional Jake Sullivan na época clarificou que isso não representava uma mudança de política oficial, apenas Biden sendo direto sobre as intenções dentro da estrutura de ambiguidade estratégica.
Sob Donald Trump, a postura é talvez ainda menos clara. Trump é transacional e imprevisível. Ele critica Taiwan por supostamente roubar a indústria americana de chips e ameaçou tarifas. Mas também intensificou as vendas de armas e mantém que Taiwan faz parte da primeira cadeia de ilhas crucial para conter o expansionismo chinês no Pacífico.
A realidade militar é que defender Taiwan seria extraordinariamente difícil e arriscado para os Estados Unidos. Implicaria em uma guerra direta com outra potência nuclear. Bases americanas no Japão, na Coreia do Sul e em Guam ficariam sob ameaça de mísseis chineses. Navios americanos operariam próximos à costa chinesa, vulneráveis a ataques concentrados. Seriam as maiores operações de combate desde a Segunda Guerra Mundial.
Mas permitir que a China tome Taiwan também seria inaceitável estrategicamente. Sinalizaria fim da credibilidade americana como aliado, incentivaria a agressão chinesa em toda região e entregaria a Pequim controle sobre a tecnologia crítica de semicondutores. Aliados asiáticos como Japão, Coreia do Sul e Filipinas perguntariam se podem realmente contar com a proteção americana.
Portanto, a ambiguidade estratégica persiste: deixar tanto Taiwan quanto China incertos sobre a resposta americana, desencorajando tanto a declaração precipitada de independência taiwanesa quanto a invasão chinesa.
O Prazo de 2027: Real ou Psicológico?
O relatório americano afirmando que a China pode atacar Taiwan até o final de 2027 não seria a primeira a vez que esse eprazo é mencionado. Em 2021, o almirante Philip Davidson, então comandante do Comando Indo-Pacífico dos EUA, disse que a China poderia invadir dentro de seis anos. Em 2022, a Marinha americana estimou um ataque antes de 2024. Nenhum aconteceu.
Então devemos levar 2027 a sério? Sim e não. Não é uma profecia inevitável, mas reflete uma análise sóbria das capacidades militares chinesas e o cronograma político de Xi Jinping. O ano de 2027 marca o centenário da fundação do Exército de Libertação Popular, ocasião simbólica significativa. Xi tem 71 anos e provavelmente vê uma janela limitada para alcançar os objetivos históricos do seu governo, sendo a reunificação com Taiwan o maior.
Militarmente, 2027 daria tempo para a China completar a modernização crucial para uma invasão. O porta-aviões Fujian estará completamente operacional e a tripulação treinada. Novos caças de quinta geração estarão em produção completa. As Capacidades de guerra cibernética e espacial, essenciais para o conflito moderno, estarão refinadas. A Indústria de defesa chinesa terá produzido estoques em massa de mísseis precisos de longo alcance.
Mas capacidade não significa intenção. Xi pode preferir conquistar Taiwan através da pressão econômica crescente, isolamento diplomático e erosão gradual da vontade de resistir, sem nunca disparar um tiro. Afinal, Hong Kong foi reintegrada à China em 1997 através de negociação, não invasão. Macau retornou em 1999 da mesma forma. Xi pode apostar que o tempo está do lado da China.
A economia de Taiwan está integrada à China continental. Milhares de empresas taiwanesas operam fábricas na China. O Comércio bilateral chega a centenas de bilhões anuais. Se a China pode lentamente tornar Taiwan economicamente dependente enquanto simultaneamente desenvolve alternativas para os semicondutores taiwaneses, a ilha eventualmente terá pouco escolha além de aceitar a reunificação nos termos chineses.
Portanto, 2027 é melhor entendido não como a data garantida de invasão, mas como um prazo dentro do qual a China quer ter capacidade de invadir se a decisão política for tomada. É uma dissuasão através da seguinte ameaça: Taiwan sabe que a resistência física seria eventualmente fútil, então melhor negociar enquanto ainda tem alguma vantagem.
O Futuro dos Semicondutores e do Mundo
O que acontecerá com Taiwan, a China e os semicondutores nas próximas décadas moldará fundamentalmente o século 21. Existem vários cenários possíveis, cada um com implicações profundas.
- Cenário um: Taiwan mantém independência de fato indefinidamente. A China continua modernizando militarmente e fazendo ameaças, mas nunca age porque os custos são altos demais. Os Estados Unidos e os aliados mantêm a capacidade de defender a ilha. Simultaneamente, a manufatura de semicondutores diversifica para os Estados Unidos, a Europa, o Japão e outros países, reduzindo mas não eliminando a importância de Taiwan. Este é essencialmente a continuação do status quo atual com ajustes incrementais.
- Cenário dois: China eventualmente invade Taiwan quando calcula que a vantagem militar é esmagadora e a vontade americana de intervir é fraca. A Invasão tem sucesso após a campanha militar custosa. As Fábricas de semicondutores são parcialmente destruídas ou capturadas mas não operam efetivamente sob o controle chinês. A Economia global sofre um choque, mas eventualmente se ajusta conforme a capacidade alternativa seja construída emergencialmente. A Ordem internacional pós-Segunda Guerra Mundial baseada em regras sofre um golpe fatal.
- Cenário três: A Reunificação pacífica acontece após décadas de integração econômica crescente e concessões políticas chinesas. Taiwan aceita o arranjo similar a Hong Kong, mantendo a autonomia substancial em troca de aceitar a soberania chinesa. As Fábricas de semicondutores continuam operando mas gradualmente perdem a vantagem tecnológica conforme a capacidade global se dispersa. Este cenário requer a China fazer concessões que historicamente tem sido relutante em fazer.
- Cenário quatro: Um Impasse prolongado onde Taiwan continua existindo em limbo legal indefinido, nem totalmente independente nem reunificado com a China. A Manufatura de semicondutores lentamente diversifica, reduzindo tanto a importância estratégica de Taiwan quanto a sua proteção do Escudo de Silício. Eventualmente Taiwan se torna menos central para a economia global mas mantém a democracia viva.
O mais provável é a combinação de elementos desses cenários. Com certeza a Tecnologia de semicondutores vai continuar diversificando geograficamente. Nenhum país ou região quer depender de uma fonte única para uma tecnologia tão crítica. Mas Taiwan manterá a vantagem técnica por muitos anos, porque desenvolver um ecossistema equivalente leva tempo e grandes investimentos.
O Precedente mais Perigoso: Venezuela e o sinal verde para a China
E então, no sábado 3 de janeiro de 2026, tudo mudou. Os Estados Unidos lançaram uma operação militar em larga escala contra a Venezuela, bombardeando instalações militares em Caracas e capturando o presidente Nicolás Maduro e sua esposa Cilia Flores. A operação, conduzida pela Delta Force, segundo os relatos, foi a primeira invasão militar direta americana na América Latina desde a invasão do Panamá em 1989.

Donald Trump anunciou que os Estados Unidos administrarão a Venezuela durante uma transição ainda sem prazo definido. “Vamos governar o país até que possamos fazer uma transição segura, adequada e sensata”, declarou Trump em Mar-a-Lago. O presidente também deixou claro que as petrolíferas americanas voltarão a operar na Venezuela, extraindo suas enormes reservas de petróleo.
A reação internacional foi imediata. Mas foi a reação da China que deveria realmente preocupar Taiwan. Oficialmente, Pequim condenou fortemente o uso flagrante da força contra um estado soberano. A agência Xinhua declarou que o ataque devolveu o mundo à era colonial de pilhagem bárbara e expôs a verdadeira face do imperialismo de recursos.
Porém, nas redes sociais chinesas, a resposta foi completamente diferente. A operação contra Maduro disparou para o topo do Weibo, plataforma similar ao Twitter, com o tópico ganhando impressionantes 440 milhões de visualizações. E os comentários eram reveladores: muitos usuários chineses celebravam a ação americana como um modelo de como Pequim deveria lidar com Taiwan.
A Bloomberg reportou que comentaristas chineses foram rápidos em fazer comparações entre o destino da Venezuela e o da democracia autogovernada que Pequim prometeu reivindicar. Se os Estados Unidos podem invadir um país soberano para capturar seu líder sob pretexto de combate ao narcotráfico, o que impede a China de fazer o mesmo com Taiwan sob pretexto de reunificação nacional?
Essa é a questão que agora assombra analistas geopolíticos. Leandro Dalalíbera Fonseca, mestre em ciência política pela UFPR e pesquisador de temas de segurança internacional, foi direto ao ponto em entrevista à Sputnik Brasil: “Nós vimos um precedente, que é muito perigoso e é grave, que é uma intervenção militar direta. Será que vivemos uma nova Guerra Fria? Isso abre um precedente extremamente perigoso no qual a lei do mais forte se sobrepõe ao multilateralismo”.
Sylvia Steiner, ex-juíza do Tribunal Penal Internacional e única brasileira a ocupar o cargo, foi ainda mais contundente em sua análise. “Não há absolutamente nenhuma justificativa para esse ataque sob todos os aspectos do direito internacional. É um ilícito internacional e é crime internacional tipificado. E crucialmente: Diante do atual quadro, nós estamos normalizando a invasão de um país por outro”.
Normalizar invasões. Deixe essa frase afundar por um momento. Quando grandes potências começam a invadir países soberanos abertamente, sem consequências reais, o precedente estabelecido é catastrófico para a ordem internacional. E a China está prestando muita atenção nisso.
A Lógica Perigosa: Se os Estados Unidos podem, porque a China não pode?
Para entender por que a invasão da Venezuela é tão perigosa para Taiwan, precisamos olhar através da perspectiva chinesa. Durante décadas, a China criticou os Estados Unidos por intervenções militares ao redor do mundo. Iraque, Líbia, Síria, Afeganistão, todas foram apresentadas pela propaganda chinesa como exemplos de imperialismo americano desrespeitando a soberania nacional.
Mas agora, com a Venezuela, os Estados Unidos deram à China exatamente o argumento moral que Pequim precisava. Lyle Morris, membro sênior do Asia Society Policy Institute, observou que para Xi Jinping, as ações de Trump podem ser vistas como consistentes com a intervenção de grandes potências em países vizinhos em nome da segurança nacional. Foi assim que Pequim percebeu a invasão da Ucrânia pela Rússia. Uma possível invasão chinesa de Taiwan poderia cair no mesmo saco.
Pense na lógica perversa que isso cria. Os Estados Unidos justificaram a invasão da Venezuela alegando combate ao narcotráfico e acusando Maduro de liderar o Cartel dos Sóis. A China pode facilmente criar justificativas paralelas para Taiwan: combate a separatistas, proteção de cidadãos chineses, reunificação nacional, contenção de interferência estrangeira.
Se Washington pode capturar um presidente eleito de outro país e declarar que vai administrar aquele país até uma transição adequada, o que impede Pequim de fazer exatamente o mesmo com os líderes de Taiwan? A resposta honesta é: nada, exceto capacidade militar e vontade política.
Neil Thomas, pesquisador de política chinesa na Asia Society, argumenta que a China vê Taiwan como um assunto interno e portanto é improvável que cite as ações dos EUA contra a Venezuela como precedente para ataques militares através do Estreito. Pequim desejará um contraste claro com Washington para alardear suas reivindicações de defender a paz, o desenvolvimento e a liderança moral.
Mas essa análise pode ser otimista demais. Sim, oficialmente a China condena a ação americana e se posiciona como defensora do direito internacional. Mas internamente, entre os estrategistas militares e líderes do Partido Comunista, a invasão da Venezuela é estudada não como exemplo a condenar, mas como tática a replicar.
Taiwan deve estar tirando conclusões sombrias dessa situação. Se a China não conseguiu ou não quis proteger Maduro, um aliado oficial, o que isso diz sobre a confiabilidade de parcerias chinesas? Mas inversamente, se os Estados Unidos podem invadir um aliado da China sem repercussões sérias, o que isso diz sobre os custos de invadir Taiwan?
Redes Sociais Chinesas celebram: Taiwan deve estar aterrorizada
As reações nas redes sociais chinesas oferecem uma janela reveladora para o pensamento popular em Pequim sobre Taiwan. Com 440 milhões de visualizações apenas no Weibo, o tópico da captura de Maduro dominou completamente a internet chinesa.
E os comentários não eram de condenação. Eram de celebração e inspiração. Usuários chineses escreviam abertamente que a operação oferecia um modelo, um template para como a China deveria lidar com Taiwan. Alguns comentários sugeriam que se os EUA podem remover um presidente que consideram ilegítimo, a China certamente pode fazer o mesmo com líderes taiwaneses que promovem o separatismo.
Essa resposta popular importa porque reflete e potencialmente influencia o pensamento oficial. O Partido Comunista Chinês mantém o controle rígido sobre as narrativas nas redes sociais, mas também presta atenção ao sentimento público, especialmente em questões nacionalistas sensíveis como Taiwan.
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Se milhões de chineses estão pedindo uma ação decisiva contra Taiwan inspirada pelo exemplo americano na Venezuela, isso cria uma pressão adicional sobre Xi Jinping para agir.
A agência oficial Xinhua, controlada pelo estado, publicou um comentário dizendo que a ação americana expôs a verdadeira face do imperialismo de recursos. Mas internamente, estrategistas chineses estão provavelmente fazendo cálculos diferentes: se o imperialismo de recursos funciona para os Estados Unidos, por que não funcionaria para a China?
Afinal, Taiwan possui algo muito mais valioso que o petróleo venezuelano: o controle sobre 90% da produção global de semicondutores avançados. Se os EUA podem invadir para controlar o petróleo, a lógica sugere que a China poderia invadir para controlar os chips. E diferente da Venezuela, a China genuinamente vê Taiwan como parte de seu território, tornando a justificativa moral ainda mais forte na perspectiva de Pequim.
O que Taiwan está fazendo agora
A resposta oficial de Taiwan à invasão da Venezuela foi cautelosa e diplomática. O Ministério das Relações Exteriores disse que está monitorando de perto a situação e trabalharia com os EUA e outras nações democráticas para contribuir conjuntamente para a segurança, estabilidade e prosperidade regional e global.
Mas nos corredores do poder em Taipei, o pânico deve ser palpável. Wang Ting-yu, importante legislador do partido no poder de Taiwan que faz parte da comissão de relações exteriores e defesa, tentou minimizar as preocupações:”A China nunca deixou de nutrir malícia em relação a Taiwan, mas o que realmente lhe falta é “capacidade viável”, publicou no Facebook.
Essa bravata pode não ser totalmente convincente. Como vimos anteriormente, a China tem amplos meios militares para invadir Taiwan. O que ela carecia até agora era justificativa moral internacional e vontade política para absorver os custos. A invasão da Venezuela potencialmente resolve o primeiro problema, mesmo que não resolva o segundo.
Taiwan está acelerando as aquisições de armas defensivas, fortalecendo reservas militares e preparando a população para uma possível invasão. Além disso, o presidente de Taiwan, Lai Ching-te, pediu recentemente que democracias como Japão e EUA desenvolvam cadeias de suprimentos não vermelhas para conter a China.
Mas essa estratégia de contenção econômica fica mais difícil. Fundamentalmente porque a segurança de Taiwan sempre dependeu de duas coisas: o Escudo de Silício tornando a ilha indispensável economicamente, e a proteção implícita americana. Ambos agora estão enfraquecendo simultaneamente.
O futuro da Ilha mais Importante do Mundo
Taiwan representa a convergência única da tecnologia, economia e geopolítica que raramente vemos na história. Uma ilha pequena, de 36 mil quilômetros quadrados, com população equivalente à Austrália, tornou-se absolutamente indispensável para a civilização moderna através de domínio de manufatura de semicondutores avançados.
O Escudo de Silício foi uma estratégia brilhante que protegeu Taiwan por décadas. Mas conforme o mundo trabalha para diversificar a produção de chips e a China desenvolve capacidades militares esmagadoras, essa proteção está enfraquecendo. Os próximos anos serão críticos.
Para os Estados Unidos, a questão de Taiwan representa um dilema estratégico sem soluções fáceis. Defender a ilha militarmente significaria uma guerra com uma potência nuclear. Não defender significaria um colapso da credibilidade americana na Ásia e a perda da tecnologia crítica. Construir a capacidade doméstica de semicondutores leva tempo, custa centenas de bilhões e enfrenta desafios técnicos e humanos significativos.
Para a China, Taiwan permanece como o objetivo político inegociável. Xi Jinping deixou claro que a reunificação acontecerá, pela força se necessário. Mas o timing importa. Invadir prematuramente pode falhar militarmente ou provocar sanções econômicas devastadoras. Esperar muito permite que Taiwan e aliados se fortaleçam. A janela percebida para a ação está se estreitando.
Para Taiwan, a situação é existencial. A ilha deve equilibrar delicadamente a manutenção de capacidades defensivas, a preservação de relações econômicas com a China que sustentam a prosperidade e a dependência de proteção americana que pode ou não se materializar quando necessário.
A população taiwanesa, especialmente gerações mais jovens, valoriza a democracia e a autonomia, mas também reconhece as realidades do poder militar desequilibrado.
E para o resto do mundo, Taiwan representa um lembrete sóbrio de como a globalização criou vulnerabilidades críticas através da concentração geográfica de capacidades essenciais. O fato de que a civilização moderna depende de semicondutores fabricados em uma ilha a 160 km de uma potência hostil é um risco sistêmico que governos e empresas finalmente reconhecem e tentam mitigar.
A história de Taiwan e dos semicondutores demonstra a verdade fundamental sobre a tecnologia moderna: ela é simultaneamente globalizadora e fragmentadora. A fabricação de chips mais avançados requer uma colaboração internacional intensa, mas o controle dessa fabricação confere um poder geopolítico imenso. É uma tecnologia que conecta o mundo e as economias, mas também divide quando se torna uma arma em disputas entre grandes potências.
Enquanto isso, em algum lugar do Arizona, entre cactos e deserto, engenheiros trabalham em turnos para trazer a manufatura de chips de última geração para o solo americano. Em Taiwan, fábricas da TSMC continuam produzindo trilhões de transistores que alimentam tudo, de iPhones a data centers de IA. E no Estreito de Taiwan, navios de guerra chineses patrulham águas enquanto aeronaves militares testam as suas defesas.
O mundo observa, torcendo para que a razão econômica prevaleça sobre a ambição territorial, para que o Escudo de Silício continue protegendo a ilha que se tornou inesperadamente a mais importante do planeta. Mas preparando-se, caso não prevaleça, para um futuro onde a ordem tecnológica e a geopolítica global será fundamentalmente transformada.








