Fabricação de semicondutores no espaço: Empresa quer fabricar chips no espaço usando o vácuo

Startup fecha acordo com a SpaceX para enviar 24 Fabships ao espaço aproveitando o vácuo natural da órbita terrestre. Primeiro lançamento pode acontecer ainda em 2025

Semicondutores no espaço

A corrida espacial acaba de ganhar um novo capítulo. Enquanto a maioria das empresas espaciais foca no turismo, mineração de asteroides ou construção de satélites, uma startup de Washington DC chamada Besxar Space Industries surgiu do anonimato com uma proposta que parece ficção científica: fabricar semicondutores no espaço.

E não, não é pelos motivos que você provavelmente está imaginando. Não tem nada a ver com a gravidade zero ou recursos extraterrestres. O segredo está no vácuo.

A empresa anunciou um acordo substancial com a SpaceX para enviar 24 cargas úteis de fabricação ao espaço a bordo de 12 lançamentos futuros do foguete Falcon 9. O primeiro lançamento pode acontecer ainda este ano, marcando o início de uma era completamente nova na manufatura de semicondutores.

Se o plano funcionar, a Besxar não estará apenas adicionando um novo local de produção. Estará fundamentalmente transformando o que é possível na qualidade e desempenho dos chips de computador.

A proposta parece absurda à primeira vista. Enviar qualquer coisa ao espaço é extremamente caro. Lançamentos custam milhões de dólares. Por que alguém investiria todo esse dinheiro para fazer algo que já fazemos perfeitamente bem na Terra?

A resposta, segundo Ashley Pilipiszyn, fundadora e CEO da Besxar, está nas limitações físicas fundamentais da fabricação terrestre que simplesmente não podem ser superadas, não importa quanto dinheiro ou engenharia você jogue no problema.

O Problema com Semicondutores terrestres

Para entender por que alguém consideraria fabricar chips no espaço, primeiro precisamos entender os desafios da fabricação terrestre atual. Semicondutores são alguns dos objetos mais complexos e precisos que a humanidade já criou. Um chip moderno contém bilhões de transistores microscópicos, cada um menor que um vírus, organizados em padrões intrincados através de camadas múltiplas de materiais diferentes.

Contaminação é o Inimigo Mortal

O processo de fabricação exige ambientes extraordinariamente limpos. Uma única partícula de poeira pousando no lugar errado durante a produção pode arruinar completamente um chip inteiro. É por isso que fábricas de semicondutores, chamadas de fabs, operam em salas limpas onde o ar é filtrado milhares de vezes por hora e técnicos usam trajes especiais que cobrem completamente seus corpos.

Técnicos usando trajes na fábrica da TSMC (Foto: Divulgação/Valor Econômico)

Mesmo com todos esses cuidados extremos, a contaminação ainda acontece. Moléculas de água na atmosfera, oxigênio reagindo com materiais sensíveis, partículas microscópicas que inevitavelmente existem mesmo nos ambientes mais limpos. Esses contaminantes limitam a qualidade final dos semicondutores produzidos na Terra.

O Vácuo imperfeito apesar de bilhões investidos

Os fabricantes terrestres já reconhecem esse problema e investem pesadamente em tecnologia de vácuo para criar ambientes de produção mais limpos possíveis. Câmaras de vácuo removem o máximo de ar e contaminantes antes que processos críticos de deposição e gravação aconteçam. Mas criar vácuo perfeito na Terra é extremamente difícil e caro.

Pilipiszyn aponta que no planeta, o mais próximo que alguém já chegou de um vácuo semelhante ao encontrado no espaço foi no CERN, o laboratório europeu de física de partículas na Suíça. O CERN abriga o Grande Colisor de Hádrons, uma máquina projetada para recriar condições que existiram frações de segundo após o Big Bang. A construção custou bilhões de dólares e décadas de trabalho.

LHC (Large Hadron Collider – Grande Colisor de Hádrons (Foto: Divulgação: CERN)

Por que fabricar semicondutores no espaço?

Aqui está onde a proposta da Besxar começa a fazer sentido econômico. No espaço, o vácuo é naturalmente perfeito e existe em estado constante e estável. Você não precisa construir câmaras herméticas massivas. Não precisa bombear ar constantemente. Não precisa gastar energia mantendo condições específicas. O vácuo simplesmente está lá, de graça, esperando para ser usado.

Estabilidade impossível de replicar

Além da pureza absoluta, o vácuo espacial oferece estabilidade que simplesmente não pode ser replicada na Terra. Não há flutuações de pressão. Não há vibrações de maquinário industrial ou tráfego. Não há variações de temperatura causadas por mudanças climáticas. O ambiente é consistente de forma que permite processos de fabricação extraordinariamente precisos e repetíveis.

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Essa estabilidade se torna cada vez mais importante conforme semicondutores continuam encolhendo em escala. Quando você está trabalhando com características medidas em nanômetros, até vibrações microscópicas ou flutuações mínimas de temperatura podem introduzir defeitos. No vácuo estável do espaço, esses problemas simplesmente desaparecem.

A Crise no desempenho dos chips modernos

A motivação da Besxar para resolver esse problema vem da experiência direta de Pilipiszyn trabalhando na OpenAI, empresa líder em inteligência artificial. Ela testemunhou em primeira mão a discrepância crescente entre as capacidades dos semicondutores atuais e as demandas das novas tecnologias sendo desenvolvidas.

Em entrevista ao Payload, Pilipiszyn no último dia 29, foi direta sobre a gravidade do problema. “Estamos em um mundo onde há limitação de desempenho 24 horas por dia, 7 dias por semana, e os chips atuais, de verdade, as GPUs estão derretendo”, explicou ela. “Na verdade, tudo se resume a ter materiais de última geração que possam suportar essa limitação constante, porque, no fim das contas, os data centers se tornaram o novo ambiente extremo.”

Isso não é exagero retórico. GPUs modernas usadas para treinar grandes modelos de inteligência artificial consomem centenas de watts de energia e operam em temperaturas que exigem sistemas de resfriamento extremamente sofisticados. Alguns data centers usam resfriamento líquido imergindo servidores inteiros em fluidos especiais. Outros estão experimentando o resfriamento criogênico.

O problema é que não importa quão sofisticado seja o sistema de resfriamento, você ainda está limitado pelas propriedades físicas fundamentais dos materiais semicondutores. Silício, o material tradicional usado em chips, tem limites térmicos e elétricos que simplesmente não podem ser superados com design inteligente ou uma melhor engenharia.

Data centers de IA representam apenas uma das aplicações extremas. Armas de energia direcionada, sistemas de radar avançados, computação quântica, todos esses domínios exigem semicondutores que podem operar em condições muito além do que dispositivos comerciais atuais conseguem lidar. E conforme mais setores adotam inteligência artificial e computação de ponta, a demanda por chips melhores só vai aumentar.

Como funcionam as Fabships

A solução da Besxar para esse problema são as Fabships, cargas úteis reutilizáveis aproximadamente do tamanho de um forno de micro-ondas projetadas especificamente para fabricação de semicondutores em órbita. O conceito é simples: lance a Fabship ao espaço, execute o processo de fabricação aproveitando o vácuo natural, e depois retorne à Terra com wafers semicondutores de qualidade superior.

Primeira carga reutilizável no Falcon 9

fabricar semicondutores no espaço
O foguete Falcon 9 lança a cápsula Dragon rumo à Estação Espacial Internacional a partir do Complexo de Lançamento 39A (Foto: Divulgação/ spacex.com)

As Fabships serão integradas ao primeiro estágio do foguete Falcon 9 da SpaceX. Isso as torna a primeira carga útil reutilizável a voar nessa configuração específica. Tradicionalmente, cargas úteis são colocadas no segundo estágio e permanecem no espaço, seja como satélites permanentes ou eventualmente queimando na reentrada como lixo espacial.

A abordagem da Besxar é fundamentalmente diferente. As Fabships lançam, executam seu processo de manufatura durante o tempo em órbita, e depois retornam junto com o primeiro estágio recuperável do Falcon 9. Isso permite iteração rápida na tecnologia, com a empresa aprendendo e melhorando a cada voo sem precisar construir dispositivos completamente novos todo lançamento.

Projetadas para sobreviver às forças extremas

Um dos maiores desafios técnicos é garantir que processos delicados de fabricação de semicondutores possam sobreviver às forças brutais de lançamento e reentrada. Foguetes experimentam acelerações durante a subida. A reentrada atmosférica submete veículos a desacelerações intensas e aquecimento extremo.

A Besxar está projetando as Fabships especificamente para proteger o processo de fabricação contra esses impactos. Isso provavelmente envolve montagens suspensas para absorver vibrações, isolamento térmico sofisticado e talvez até sistemas ativos de estabilização. Os detalhes técnicos exatos permanecem protegidos por direitos de propriedade, mas é um problema de engenharia solucionável, como evidenciado pela confiança da empresa em assinar acordos para 12 lançamentos.

Cronograma ambicioso de desenvolvimento

O acordo com a SpaceX prevê o lançamento de 24 Fabships ao longo de 12 missões Falcon 9, com duas unidades enviadas por vez. O primeiro lançamento pode acontecer ainda em 2025, marcando o início de um programa de desenvolvimento e demonstração progressivo.

A estratégia da Besxar depende fortemente de iteração rápida. Em vez de gastar anos desenvolvendo um sistema perfeito antes do primeiro lançamento, a empresa planeja voar cedo e frequentemente, aprendendo com cada missão e incorporando melhorias na próxima geração de Fabships.

Essa abordagem, popularizada por empresas como SpaceX no desenvolvimento de foguetes, permite progresso muito mais rápido que metodologias tradicionais aeroespaciais. Você descobre problemas reais que só aparecem em condições reais de voo, em vez de tentar prever tudo em simulações e testes terrestres.

Os primeiros voos provavelmente focarão em validar que o hardware sobrevive ao lançamento e reentrada, que os processos de fabricação funcionam em microgravidade e vácuo, e que os wafers produzidos realmente demonstram qualidade superior. Conforme confiança aumenta, voos posteriores expandirão a capacidade e a eficiência.

Embora o acordo inicial seja com a SpaceX, a Besxar está projetando as Fabships para serem independentes do veículo de lançamento. Isso significa que no futuro, conforme mais opções de lançamento se tornam disponíveis, a empresa pode voar em diferentes foguetes dependendo de disponibilidade, preço e requisitos de missão.

O mercado de lançamentos está ficando cada vez mais competitivo, com empresas como Rocket Lab, Relativity Space e Blue Origin desenvolvendo capacidades que podem eventualmente rivalizar ou até superar o Falcon 9 em certas métricas. Não ficar preso a um único fornecedor protege o modelo de negócios da Besxar contra interrupções ou aumentos de preço.

Economia favorável

A pergunta óbvia que todos fazem quando ouvem sobre manufatura espacial é: como isso pode ser econômico? Lançamentos custam milhões de dólares. Semicondutores podem ser caros, mas são relativamente pequenos e leves. Como os custos de ida e volta ao espaço se justificam?

A resposta, segundo Pilipiszyn, está no valor premium que semicondutores de qualidade superior comandam. Chips para aplicações extremas como data centers de IA de ponta, sistemas militares avançados ou equipamento científico especializado já custam milhares ou até dezenas de milhares de dólares por unidade. Fabricantes que podem fornecer desempenho genuinamente superior podem cobrar preços proporcionalmente mais altos.

Além disso, não estamos falando sobre fabricar chips de smartphones comuns ou processadores de laptop. Essas aplicações commodity nunca farão sentido econômico para produção espacial. Mas nichos de mercado onde o desempenho extremo justifica custos extremos definitivamente existem e estão crescendo rapidamente.

Outro fator crucial é que custos de lançamento continuam caindo dramaticamente. Uma década atrás, enviar um quilograma ao espaço custava dezenas de milhares de dólares. Hoje, com foguetes reutilizáveis como o Falcon 9, esse custo caiu para alguns milhares de dólares por quilograma. E vai continuar caindo conforme o Starship da SpaceX e outros veículos de próxima geração entram em operação.

Conforme denominador de custo diminui, cada vez mais atividades se tornam economicamente viáveis no espaço. Manufatura de semicondutores pode ser uma das primeiras, mas certamente não será a última. Outros materiais avançados, produtos farmacêuticos, cristais especializados, todos podem eventualmente se beneficiar de produção em ambiente espacial único.

Alternativa mais barata que o CERN

Pilipiszyn argumenta que mesmo considerando todos os custos de ida e volta ao espaço, ainda sai mais barato que tentar replicar vácuo equivalente na Terra. Construir e operar instalação terrestre com vácuo comparável ao CERN para produção comercial de semicondutores custaria bilhões em infraestrutura e consumiria energia massiva.

Por comparação, o custo de lançamento pode ser alto por quilograma, mas você só paga uma vez por missão. E com Fabships reutilizáveis, você amortiza investimento em hardware através de múltiplas missões. A matemática começa a fazer sentido quando você olha os custos totais ao longo do tempo em vez de apenas etiqueta de preço de um único lançamento.

Planos de escala futura

A Besxar está começando pequeno com Fabships do tamanho de micro-ondas, mas tem planos ambiciosos de escalar conforme a tecnologia amadurece e a demanda aumenta. Existem várias alavancas que a empresa pode puxar para expandir a sua capacidade de produção.

A opção mais óbvia é simplesmente construir Fabships maiores que podem processar mais wafers por missão. Conforme a empresa ganha experiência e confiança, faz sentido desenvolver versões de próxima geração com volumes internos maiores e equipamento de fabricação mais sofisticado.

Eventualmente, você pode imaginar instalações do tamanho de um ônibus espacial inteiro dedicadas à manufatura de semicondutores, ou até mesmo habitats infláveis semelhantes a módulos espaciais comerciais sendo desenvolvidos por outras empresas. A tecnologia para estruturas grandes em órbita já existe, apenas precisa ser adaptada para propósitos industriais em vez de habitacionais.

Permanência orbital estendida

Outra alavanca é simplesmente permanecer em órbita por períodos mais longos. Os primeiros voos podem durar apenas algumas horas ou dias, tempo suficiente para executar processos básicos de fabricação. Mas conforme sistemas se tornam mais robustos, missões poderiam estender-se para semanas ou meses, permitindo produção contínua em larga escala.

Permanência mais longa exige resolver desafios adicionais como gerenciamento térmico de longo prazo, fornecimento de energia sustentável através de painéis solares, e sistemas de manuseio de materiais mais sofisticados. Mas são todos problemas já resolvidos por satélites comerciais, apenas precisam ser adaptados para aplicações de manufatura.

Frequência Aumentada de Voos

Finalmente, a empresa pode simplesmente voar com mais frequência. Em vez de dois Fabships por mês, talvez eventualmente lance dois por semana. Conforme custos de lançamento continuam caindo e demanda por semicondutores premium aumenta, a frequência de missões pode escalar dramaticamente.

A SpaceX já demonstrou capacidade de lançar Falcon 9 com cadência extremamente alta, às vezes vários lançamentos por semana de diferentes locais. Não há limitação fundamental que impeça a Besxar de eventualmente operar sua própria mini-constelação de Fabships continuamente circulando entre Terra e órbita.

Implicações para a indústria de semicondutores

Se a Besxar for bem-sucedida, as implicações para a indústria de semicondutores serão profundas. Não estamos falando sobre melhorias incrementais, mas potencialmente um salto quântico em capacidades que abre portas para tecnologias atualmente impossíveis.

Países e empresas que dominam produção de semicondutores avançados exercem enorme poder geopolítico e econômico. Taiwan, através da TSMC, essencialmente tem um monopólio em chips de ponta mais avançados. Os Estados Unidos, a China, a Europa e outros gastam bilhões tentando desenvolver capacidades domésticas equivalentes.

A Manufatura espacial adiciona uma dimensão completamente nova a essa competição. De repente, acesso ao espaço torna-se tão estrategicamente importante quanto acesso a instalações de litografia EUV de última geração. Empresas e nações com capacidades de lançamento ganham vantagem em produzir os melhores semicondutores.

Para fabricantes as demais fabricantes, a Besxar representa tanto ameaça quanto oportunidade. Por um lado, se manufatura espacial realmente produz chips dramaticamente superiores a custos competitivos, esses fabricantes terrestres perdem vantagem em segmentos premium do mercado.

Por outro lado, gigantes da indústria têm recursos para desenvolver suas próprias capacidades de manufatura espacial se decidirem que é o caminho do futuro. TSMC, Samsung, Intel, todas têm bolsos fundos e expertise técnica para iniciar programas espaciais se virem necessidade estratégica.

Apesar do potencial empolgante, é crucial reconhecer os desafios e riscos substanciais que a Besxar enfrenta. Manufatura espacial não é um novo conceito, e tentativas anteriores de comercializar produção no espaço tiveram resultados mistos na melhor das hipóteses.

Operar processos industriais delicados em ambiente espacial hostil é extraordinariamente difícil. Você está lidando com vácuo, radiação, temperaturas extremas, microgravidade e distância da Terra que torna manutenção e reparo praticamente impossíveis. Qualquer falha de equipamento significa missão perdida e meses de trabalho desperdiçados.

Semicondutores em particular exigem precisão absurda em cada etapa de fabricação. Deposição de camadas atômicas, fotolitografia com comprimentos de onda ultravioleta extremos, dopagem controlada de materiais. Fazer tudo isso funcionar de forma confiável e repetidamente em espaço vai exigir inovação enorme em robótica, automação e sistemas de controle.

A Besxar Space Industries representa aposta ousada de que o futuro da manufatura avançada está além da atmosfera terrestre. É uma visão que desafia décadas de pressupostos sobre onde e como produzimos os componentes mais críticos da civilização tecnológica moderna.

Foto de Rodrigo dos Anjos

Rodrigo dos Anjos

Rodrigo é redator do ClicaTech e formado em Ciências da Computação com Especialização em Segurança da Informação. Amante declarado da tecnologia, dedica-se não apenas a acompanhar as tendências do setor, mas também a compreender, aplicar, proteger e explorar soluções que unam inovação, segurança e eficiência.

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Conteúdo elaborado e revisado pela redação do ClicaTech.  Pode conter tradução com auxílio de Inteligência Artificial.

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