Uma nova e explosiva controvérsia envolvendo corrupção e criptomoedas atingiu a presidência de Donald Trump.
A revelação veio à tona após a reportagem do Wall Street Journal revelar que uma empresa de investimentos ligada ao Conselheiro de Segurança Nacional dos Emirados Árabes Unidos fez um investimento de 500 milhões de dólares (equivalente a aproximadamente R$ 2,9 bilhões) na World Liberty Financial, empreendimento de criptomoedas associado à família Trump, apenas quatro dias antes da posse presidencial em janeiro de 2025.
Posteriormente o governo Trump aprovou a venda de chips avançados de inteligência artificial aos Emirados, tecnologia que havia sido restringida durante a administração Biden por preocupações de segurança nacional.
O senador democrata Chris Murphy, de Connecticut, classificou o suposto acordo como “corrupção estarrecedora” e “conduta potencialmente criminosa”, estabelecendo uma conexão direta entre o Investimento de US$ 500 Milhões dos Emirados Árabes e a posterior decisão do governo Trump de autorizar a venda de centenas de milhares de chips avançados de inteligência artificial da Nvidia aos Emirados Árabes Unidos, tecnologia que havia sido bloqueada pela administração Biden por razões de segurança nacional.
Os Detalhes do Acordo Revelado pelo Wall Street Journal
Segundo a reportagem do The Wall Street Journal, a Aryam Investment, uma empresa de investimentos ligada ao Conselheiro de Segurança Nacional dos Emirados Árabes Unidos, Sheikh Tahnoon bin Zayed Al Nahyan, assinou um contrato para adquirir uma participação de 49% na World Liberty Financial por US$ 500 milhões. O acordo foi firmado em 16 de janeiro de 2025, apenas quatro dias antes da posse de Trump como presidente em 20 de janeiro.
A estrutura do acordo previa que metade do valor total, ou seja, US$ 250 milhões, fosse paga antecipadamente. Dessa quantia inicial, aproximadamente US$ 187 milhões foram destinados a entidades controladas pela família Trump, enquanto pelo menos US$ 31 milhões foram direcionados a entidades afiliadas à família de Steve Witkoff, cofundador da World Liberty Financial e posteriormente nomeado enviado especial dos Estados Unidos para o Oriente Médio.
Leia também: O que é Criptomoeda: Um Guia Completo para iniciantes
Steve Witkoff é uma figura particularmente interessante nessa história. Ele aparece como cofundador emérito da World Liberty Financial ao lado de Donald Trump, mas também foi posteriormente nomeado enviado especial dos Estados Unidos para o Oriente Médio pelo presidente Trump. Essa dupla função levanta questões óbvias sobre conflitos de interesse e possível influência indevida em decisões da política externa.
Eric Trump, filho do presidente, teria assinado o contrato em nome da família. Até o momento da divulgação das informações, US$ 187 milhões já haviam sido efetivamente recebidos por entidades ligadas à família Trump, representando um influxo substancial de capital estrangeiro poucos dias antes de Donald Trump assumir a presidência.
A World Liberty Financial, embora oficialmente afirme que Trump e seus familiares não ocupam cargos formais como diretor, executivo ou funcionário da empresa, está claramente ligada à família presidencial tanto em termos de fundação quanto de benefícios financeiros diretos.
As Acusações do Senador Chris Murphy
O senador Chris Murphy, democrata por Connecticut, liderou as críticas ao acordo, utilizando termos extremamente duros para descrever a situação. Em publicações nas redes sociais e em discurso no plenário do Senado, ele descreveu os eventos como “corrupção descarada e aberta” e alertou que aqueles envolvidos podem enfrentar consequências criminais. Além do discurso no plenário do Senado, Murphy delineou o que considera ser um padrão claro de corrupção.
Trump gets $500 million in cash then approves deal sending advanced AI chips to UAE. Blatant corruption.
— Congressman Greg Landsman (@RepGregLandsman) February 2, 2026
He gets richer every day. You get poorer. That’s his presidency.
America needs new leaders, and massive anti-corruption reforms. https://t.co/pLLzXeuMBL
Em uma de suas declarações mais contundentes, Murphy afirmou: “Um investidor dos Emirados Árabes Unidos deu secretamente 187 milhões de dólares a Trump e 31 milhões de dólares ao seu principal enviado para o Oriente Médio. E então Trump deu a esse investidor acesso a tecnologia de defesa sensível, o que quebrou décadas de precedentes de segurança nacional. Corrupção descarada e aberta. E não devemos fingir que isso é normal.”, escreveu Murphy.
Em seu discurso no Senado, Murphy foi ainda mais enfático, classificando a situação como “conduta potencialmente criminosa”. Ele resumiu a suposta sequência de eventos como transferências secretas de milhões de dólares para famílias ligadas a Trump e enviados diplomáticos, seguidas pelo compartilhamento de tecnologia de segurança americana restrita com os Emirados Árabes Unidos.
Ele afirmou que os elementos descritos poderiam caracterizar suborno segundo a legislação americana. “Isso é corrupção. Esses são os elementos de um suborno. Isso é uma conduta potencialmente criminosa.”, declarou Murphy. Ele advertiu que embora a responsabilização possa ser adiada enquanto Trump permanecer no cargo, as consequências são inevitáveis, afirmando que “o Estado de Direito está voltando” e que aqueles que trocaram favores oficiais por dinheiro “vão para a cadeia”.
Murphy também acrescentou que Trump reverteu décadas de objeções de segurança nacional à venda de chips avançados de IA para os Emirados Árabes Unidos, uma decisão que especialistas em segurança nacional consideraram alarmante dado o risco de transferência tecnológica para a China.
As acusações de Murphy são particularmente graves porque ele está efetivamente alegando que o presidente dos Estados Unidos pode ter aceitado um suborno na forma de um investimento em uma empresa familiar em troca de mudar a política de segurança nacional para beneficiar o pagador.
A senadora Elizabeth Warren, democrata por Massachusetts e membro sênior do Comitê Bancário, Habitacional e de Assuntos Urbanos do Senado, também se manifestou de forma contundente. Warren, que há muito tempo é crítica vocal dos envolvimentos da família Trump com criptomoedas, classificou a situação como “corrupção pura e simples”.
“Trump recebe US$ 500 milhões em dinheiro vivo e depois aprova um acordo para enviar chips avançados de IA para os Emirados Árabes Unidos. Corrupção descarada. Ele fica mais rico a cada dia. Você fica mais pobre. Essa é a presidência dele”, declarou Warren em comunicado público.
A senadora exigiu que o governo Trump revertesse imediatamente sua decisão de vender chips de IA sensíveis aos Emirados Árabes Unidos, argumentando que a venda representa um risco inaceitável à segurança nacional americana. Warren também instou o Senado a não aprovar legislação que facilitasse operações de criptomoedas ligadas a investimentos “duvidosos” dos Emirados.
Desde o ano passado, Warren vem alertando continuamente sobre os laços da família Trump com os Emirados Árabes Unidos no mercado de criptomoedas. Ela já havia manifestado preocupações sobre um investimento de US$ 2 bilhões da empresa emiradense MGX na Binance, que utilizaria a stablecoin USD1 da World Liberty Financial como moeda de liquidação, gerando dezenas de milhões de dólares em receita anual para a empresa Trump.
Se comprovadas, tais alegações constituiriam crimes federais graves, potencialmente incluindo suborno, corrupção, violação de deveres fiduciários e comprometimento de segurança nacional.
A Conexão com a aprovação de Chips de Inteligência Artificial
O que transformou esse investimento de uma transação comercial questionável em potencial escândalo de corrupção foi a sequência temporal de eventos que se seguiram. Poucos meses após o investimento de Sheikh Tahnoon na World Liberty Financial, o governo Trump aprovou a venda de centenas de milhares de chips avançados de inteligência artificial da Nvidia para os Emirados Árabes Unidos.

A administração Biden havia impedido a venda desses chips por temer que a tecnologia acabasse nas mãos da China, seja através de transferência direta ou engenharia reversa. Chips avançados de IA são considerados uma tecnologia de defesa sensível porque podem ser utilizados em aplicações militares, desenvolvimento de armas autônomas, sistemas de vigilância em massa e outras capacidades estratégicas.
Essa decisão reverteu décadas de objeções de segurança nacional e contrariou diretamente essa política, que havia bloqueado tal acordo por temer que os chips acabassem na China.
Segundo informações da CNBC, a própria empresa de inteligência artificial de Tahnoon, a G42, teria adquirido 20% dos chips autorizados para venda.
A G42 é uma gigante tecnológica dos Emirados com ambições de se tornar líder regional em inteligência artificial, mas que levanta preocupações entre analistas de segurança devido aos seus vínculos com a China e potencial uso de tecnologia americana em projetos que poderiam beneficiar adversários estratégicos.
Isso significa que o mesmo indivíduo cujo veículo de investimento pagou 187 milhões de dólares à família Trump também se beneficia diretamente da decisão da política de segurança nacional tomada meses depois.
A proximidade temporal entre o investimento na World Liberty Financial e a aprovação da venda de chips criou a aparência de uma relação de quid pro quo, onde o governo americano teria favorecido os Emirados em troca de investimentos financeiros direcionados à família do presidente.
Implicações para a Segurança Nacional dos Estados Unidos
Além das questões legais e éticas sobre corrupção, o caso levanta preocupações sérias sobre a segurança nacional dos Estados Unidos. Chips avançados de inteligência artificial representam uma tecnologia de ponta com aplicações tanto civis quanto militares. Sistemas de armas autônomas, análise de inteligência, cibersegurança e guerra eletrônica moderna dependem do processamento de uma IA de alto desempenho.
A China tem trabalhado agressivamente para desenvolver capacidades de inteligência artificial de ponta, mas enfrenta restrições significativas em acessar os chips mais avançados devido aos controles de exportação americanos.
A decisão de autorizar a venda desses chips aos Emirados Árabes Unidos, revertendo a política estabelecida pela administração anterior especificamente para prevenir a transferência da tecnologia sensível, cria riscos de que a tecnologia possa eventualmente chegar aos adversários americanos como a China, a Rússia ou o Irã através de transferência, espionagem ou engenharia reversa.
Embora os Emirados Árabes Unidos sejam tecnicamente um aliado dos Estados Unidos, o país mantém relacionamentos complexos com outros atores regionais e globais, e não há garantias absolutas de que a tecnologia transferida para Abu Dhabi permanecerá exclusivamente sob controle dos Emirados.
A preocupação é amplificada pelo fato de que a empresa de IA de Tahnoon, a G42, que recebeu 20% dos chips autorizados, opera em um ecossistema tecnológico global onde as fronteiras entre mercados civil e militar, e entre aliados e adversários, são frequentemente nebulosas.
Se os chips vendidos aos Emirados acabarem sendo reexportados para a China ou se tecnologia derivada deles for compartilhada com empresas ou instituições chinesas, isso minaria fundamentalmente a estratégia de segurança tecnológica dos Estados Unidos.
O acordo de 500 milhões de dólares entre uma entidade ligada aos Emirados Árabes Unidos e a World Liberty Financial da família Trump, seguido pela autorização de venda de chips avançados de IA, representaria um dos episódios mais preocupantes de potencial corrupção envolvendo um presidente americano em exercício da história recente.
A questão central que investigadores precisarão responder é se houve um acordo implícito ou explícito onde o investimento dos Emirados na World Liberty Financial foi feito com a expectativa de receber tratamento favorável em questões de política, particularmente a aprovação de venda de chips de inteligência artificial.
A Resposta de Trump: “Meus Filhos estão lidando com isso”
Questionado sobre as ligações de sua empresa com o fundo árabe durante uma coletiva de imprensa realizada na Casa Branca, Trump adotou uma postura de distanciamento, alegando desconhecer detalhes do investimento de US$ 500 milhões feito pela entidade de Abu Dhabi na World Liberty Financial.

“Meus filhos estão lidando com isso, minha família está lidando com isso… eu já tenho com o que me ocupar agora com o Irã e com a Rússia e a Ucrânia”, declarou Trump aos jornalistas. A resposta foi amplamente criticada por observadores políticos como evasiva e insuficiente, especialmente considerando a magnitude do investimento e suas implicações para política externa americana.
A defesa de Trump essencialmente argumenta que ele mantém a separação entre seus negócios familiares e suas decisões como presidente, confiando que seus filhos administram os empreendimentos comerciais de forma independente. No entanto, críticos apontam que essa separação é ilusória quando decisões presidenciais diretamente beneficiam investidores em empresas das quais a família presidencial lucra.
Vale notar que Trump e Steve Witkoff aparecem oficialmente listados como “cofundadores eméritos” da World Liberty Financial, e a empresa sustenta publicamente que o presidente e seus familiares não ocupam cargos formais de direção ou gestão.
No entanto, essa distinção legal não elimina as preocupações sobre influência indevida e a aparência de que decisões de política externa possam estar sendo moldadas por interesses financeiros da família presidencial.
Até o momento da publicação deste artigo, nem a Casa Branca nem a World Liberty Financial responderam formalmente aos pedidos de comentário feitos por diversos veículos da imprensa internacional, mantendo silêncio sobre os detalhes específicos do acordo e sua relação com decisões de política externa.
O Contexto mais Amplo: Trump e as Criptomoedas
Esta não é a primeira vez que alegações de corrupção relacionadas a criptomoedas são feitas contra Trump ou especificamente contra a World Liberty Financial. O presidente tem se envolvido extensivamente no setor de criptomoedas desde sua campanha eleitoral, prometendo tornar os Estados Unidos a “capital cripto do mundo” e implementar regulamentações favoráveis ao setor.
O presidente tem cultivado relacionamentos próximos com figuras proeminentes da indústria cripto, muitas das quais têm passados controversos ou enfrentaram problemas legais.
Um exemplo notório envolve Changpeng “CZ” Zhao, cofundador e ex-CEO da Binance, a maior exchange de criptomoedas do mundo. Segundo a reportagem do The Wall Street Journal, CZ havia sido condenado por violações de leis de combate à lavagem de dinheiro e concordou em pagar uma multa recorde de 4,3 bilhões de dólares como parte de um acordo com o Departamento de Justiça.
Trump concedeu um indulto presidencial a CZ após um acordo envolvendo a stablecoin USD1 da World Liberty Financial, que deve gerar dezenas de milhões de dólares em receita anual para a empresa. O indulto presidencial eliminou as consequências criminais dessa condenação, gerando críticas de que Trump estava recompensando um aliado comercial.
Notavelmente, esse acordo envolvendo CZ e a Binance também incluiu outra empresa liderada por Tahnoon bin Zayed, a MGX, já que se tratava de um investimento de 2 bilhões de dólares na Binance feito através da stablecoin USD1.
Esse padrão de conexões entrelaçadas entre Trump, Tahnoon, empresas de criptomoedas e decisões políticas favoráveis levanta questões sobre a extensão da influência que esses relacionamentos financeiros exercem sobre as decisões presidenciais.
A concessão de clemência presidencial a alguém que posteriormente beneficiaria financeiramente empresas da família Trump levantou questões éticas óbvias sobre se o poder de indulto estava sendo utilizado para favorecer parceiros comerciais.
O Caso Justin Sun e as alegações de “Pagamento por Influência”
O token WLFI da World Liberty Financial, que é distinto da stablecoin USD1 e das ações da empresa, também esteve recentemente no centro de alegações de “pagamento por influência” feitas contra a Comissão de Valores Mobiliários, conhecida pela sigla SEC, sob a gestão de Trump.
O episódio controverso envolve o empresário de criptomoedas Justin Sun. Segundo a reportagem da Reuters, Sun teria comprado dezenas de milhões de dólares em tokens WLFI, a criptomoeda nativa da World Liberty Financial, pouco antes de ter seu caso regulatório arquivado pela Securities and Exchange Commission, a SEC, sob a administração Trump.
Sun estava sendo investigado pela SEC por supostas violações de leis de valores mobiliários relacionadas a suas atividades no mercado cripto.
Justin Sun também afirmou ser o maior detentor da criptomoeda de Trump, referindo-se ao token $TRUMP lançado pela família presidencial, e participou de um jantar exclusivo para grandes detentores do token realizado no ano passado, do qual o próprio presidente Trump compareceu.
O timing novamente levantou suspeitas de “pagamento por influência”, com críticos alegando que Sun comprou os tokens como forma de ganhar favor com a administração, resultando no arquivamento de investigações regulatórias contra ele e suas empresas.
A proximidade entre investimentos substanciais em projetos da família Trump e resoluções favoráveis de casos regulatórios cria um padrão preocupante que sugere acesso privilegiado e tratamento preferencial para aqueles dispostos a enriquecer financeiramente a família presidencial.
Esses eventos criam a aparência de acesso preferencial para aqueles dispostos a investir nos empreendimentos financeiros da família Trump.
A “Presidência Cripto” e seus Beneficiários
Desde que assumiu o cargo, Trump tem trabalhado ativamente para implementar um ambiente regulatório extremamente favorável às criptomoedas em nível federal, uma guinada radical em relação à postura mais cautelosa adotada pela administração Biden.
No ano passado, a assinatura da Lei GENIUS trouxe clareza regulatória para as stablecoins nos Estados Unidos, facilitando sua emissão e uso. A criação de uma reserva nacional de bitcoin também está em andamento, através de uma ordem executiva que instituiu a Reserva Estratégica de Bitcoin, marcando a primeira vez que o governo americano oficialmente reconhece criptomoedas como ativo estratégico nacional.
Essas políticas pró-cripto têm beneficiado enormemente a família Trump. Estimativas sugerem que a fortuna da família aumentou em US$ 1,4 bilhão, aproximadamente R$ 8,12 bilhões, no ano passado apenas com seus empreendimentos relacionados a criptomoedas. Esse enriquecimento substancial aconteceu precisamente enquanto o presidente implementava políticas que favoreciam o setor.
A maior parte da atividade durante a chamada “presidência cripto” de Trump tem se concentrado em stablecoins centralizadas como a USD1 e nas chamadas “shitcoins”, termo pejorativo usado no mercado cripto para descrever criptomoedas de valor questionável criadas principalmente para especulação.
Ironicamente, segundo e-mails recentemente divulgados relacionados ao caso Jeffrey Epstein, até mesmo o falecido financista considerava investimentos em shitcoins como antiéticos, embora essa avaliação moral seja particularmente irônica vinda de alguém condenado por crimes graves.
Confira Também
Preocupações da Comunidade Bitcoin
Enquanto Trump tem se apresentado como um presidente pró-cripto, implementando um ambiente regulatório favorável às criptomoedas em nível federal, nem todos na comunidade cripto estão satisfeitos com a direção que essa abordagem tem tomado.

No ano passado, a aprovação da Lei GENIUS trouxe clareza regulatória para stablecoins nos Estados Unidos, e a criação de uma reserva nacional de bitcoin ainda está em andamento. Superficialmente, essas parecem ser políticas positivas para o setor.
No entanto, a Coinbase, maior exchange de criptomoedas dos Estados Unidos, retirou recentemente o apoio a uma versão preliminar do CLARITY Act, legislação que visava oferecer proteções mais robustas para desenvolvedores de criptomoedas e potencialmente criar isenções fiscais para pequenos pagamentos em Bitcoin.
A retirada de apoio da Coinbase gerou preocupações de que não haverá mudanças significativas do ponto de vista regulatório em termos de proteção para desenvolvedores e benefícios fiscais que realmente facilitariam o uso cotidiano de Bitcoin como meio de pagamento.
Essa mudança gerou preocupações entre usuários de Bitcoin de que não haverá mudanças regulatórias significativas em termos de proteção para desenvolvedores e tributação favorável para uso prático de criptomoedas como meio de pagamento.
Em vez disso, a administração Trump parece estar focando em promover stablecoins centralizadas e tokens especulativos que geram receita para empresas conectadas à família presidencial.
Além disso, os desenvolvedores da carteira de Bitcoin focada em privacidade, Samourai Wallet, estão atualmente cumprindo penas de prisão por condenações relacionadas a facilitação de lavagem de dinheiro, crimes não muito diferentes daqueles pelos quais CZ da Binance foi condenado. A diferença é que CZ recebeu um indulto presidencial após estabelecer laços comerciais com a família Trump, enquanto os desenvolvedores do Samourai permanecem presos.
O Caso Samourai Wallet
Adicionando combustível a essas preocupações, o cofundador da Samourai Wallet, uma carteira de Bitcoin focada em privacidade, está atualmente cumprindo penas de prisão por condenações relacionadas a facilitação de lavagem de dinheiro.
A diferença gritante no tratamento, com CZ recebendo um indulto presidencial enquanto os desenvolvedores da Samourai permanecem presos, cria a aparência de preferência para aqueles que têm laços comerciais com Trump. Essa percepção corrói a confiança na imparcialidade da aplicação da lei e alimenta narrativas de corrupção e favoritismo.
Para defensores da privacidade e da descentralização, princípios fundamentais que motivaram a criação do Bitcoin, o contraste é particularmente perturbador. A mensagem implícita parece ser que se você desenvolve tecnologia de privacidade sem conexões políticas, enfrenta um processo criminal, mas se você opera uma exchange centralizada e investe nos negócios do presidente, recebe clemência.
Os Limites da Clemência: O Caso Sam Bankman-Fried
Bankman-Fried foi condenado a 25 anos de prisão por fraude e conspiração relacionadas ao colapso catastrófico da FTX, que causou perdas de bilhões de dólares a investidores ao redor do mundo. Apesar de suas tentativas de cultivar favor com Trump através de declarações públicas de apoio, o presidente dos EUA aparentemente não está disposto a conceder clemência neste caso.
A recusa em perdoar Bankman-Fried pode refletir o fato de que o escândalo da FTX foi tão público e prejudicial que conceder indulto seria politicamente insustentável, ou pode indicar que não existe relacionamento comercial suficientemente lucrativo entre Bankman-Fried e a família Trump para justificar assumir o risco político.
A linha divisória parece ser a magnitude e notoriedade pública do crime. Enquanto violações técnicas de regulamentações de lavagem de dinheiro como as de CZ podem ser perdoadas, especialmente quando há benefícios financeiros para a família Trump, fraudes flagrantes e amplamente publicizadas como a de Bankman-Fried aparentemente ultrapassam o limiar do que é politicamente viável perdoar.
Dito isso, há indícios de que até mesmo Trump tem seus limites quando se trata de supostos negócios corruptos com criptomoedas. As tentativas do ex-CEO da FTX, Sam Bankman-Fried, de elogiar o presidente nas redes sociais em busca de um indulto não parecem estar surtindo efeito.
Bitcoin despenca em meio às Controvérsias
Enquanto as controvérsias políticas se desenrolam, o próprio mercado de criptomoedas enfrenta turbulências significativas. O preço do bitcoin sofreu quedas acentuadas e chegou ao nível mais baixo desde os dias posteriores à vitória de Trump na eleição de 2024.
A criptomoeda atingiu a máxima de US$ 76,9 mil, equivalente a aproximadamente R$ 446,02 mil, mas rapidamente despencou para US$ 72,2 mil, cerca de R$ 418,76 mil. O movimento apagou os ganhos impulsionados pela vitória eleitoral de Trump e pelo otimismo inicial em torno de uma regulação mais flexível e supervisão favorável aos ativos digitais.
A queda continuou nos dias seguintes, com o bitcoin sendo cotado a US$ 66,5 mil, aproximadamente R$ 385,70 mil, representando uma queda de quase 9% em um único dia. Trata-se de uma liquidação expressiva considerando que o bitcoin chegou a ser negociado a até US$ 126,2 mil, cerca de R$ 731,96 mil, em seu pico em outubro de 2025.
Por que o Bitcoin está Caindo?
Segundo Rob Hadick, sócio da gestora Dragonfly Capital, a venda não pode ser atribuída a um único fator isolado. Em entrevista à CNBC, ele afirmou manter uma visão otimista para o desempenho do ativo no médio e longo prazo, apesar da volatilidade de curto prazo.
No entanto, outros analistas demonstram menos confiança. O investidor Michael Burry, famoso por prever corretamente a crise imobiliária de 2008, alertou em uma publicação no Substack que a queda do bitcoin pode desencadear uma “espiral da morte”, capaz de prejudicar empresas que fizeram apostas pesadas na moeda.
“Não há um caso de uso orgânico que justifique uma desaceleração ou interrupção dessa queda”, escreveu Burry, segundo reportagem da Bloomberg, adotando um tom significativamente mais pessimista do que a maioria dos analistas de criptomoedas.
Especialistas apontam que a indicação de Kevin Warsh por Trump para a presidência do Federal Reserve pode ter contribuído para parte da recente liquidação, já que Warsh é conhecido por suas posições relativamente conservadoras em política monetária, o que poderia significar a manutenção de juros elevados por mais tempo.
Analistas do Deutsche Bank, Marion Laboure e Camilla Siazon, disseram ao Investing.com que a “queda mais ampla é impulsionada principalmente por retiradas maciças de ETFs institucionais”. Fundos negociados em bolsa de bitcoin, aprovados no início de 2024, trouxeram bilhões de dólares em investimentos institucionais, mas agora estão experimentando saídas substanciais de capital.
Outras criptomoedas populares, como Ethereum, BNB e Solana, também registraram perdas significativas, à medida que investidores reduziram exposição a ativos de maior risco em meio ao aumento da volatilidade geral do mercado.
A Volatilidade Estrutural do Bitcoin
A primeira coisa a entender sobre as quedas do bitcoin é que o ativo é, por definição, estruturalmente muito mais volátil do que as ações, moedas e commodities tradicionais. Isso não é um defeito ou sinal de fragilidade, é uma característica intrínseca do mercado.
O mercado de criptomoedas ainda é relativamente pequeno quando comparado a outros mercados globais como ações, títulos ou câmbio. Isso significa que entradas e saídas relativamente modestas de capital conseguem provocar movimentos de preço muito mais intensos do que ocorreria em mercados maiores e mais líquidos.
Além disso, o uso de alavancagem é extremamente comum no mercado cripto, com traders frequentemente operando com alavancagens de 10x, 20x ou até 100x. Quando o preço começa a cair rapidamente, posições alavancadas são forçadas a ser encerradas automaticamente para evitar que os traders acumulem dívidas além de seus depósitos iniciais.
Essas vendas automáticas, conhecidas como liquidações, empurram o preço ainda mais para baixo, criando o que o mercado chama de efeito cascata ou liquidação em cascata. É a mecânica pura de mercado, não um pânico irracional como alguns alarmistas gostam de rotular.
O Ambiente Macroeconômico Global mudou
A queda atual do bitcoin não está acontecendo no vácuo, mas sim intimamente ligada ao cenário macroeconômico global. Juros elevados nos Estados Unidos aumentam o custo de oportunidade de se manter em ativos de risco.
Quando investidores conseguem retorno alto e relativamente seguro em títulos públicos americanos, pagando atualmente entre 4% e 5% ao ano sem risco, eles naturalmente tendem a reduzir exposição a ativos mais voláteis como tecnologia e criptomoedas.
Não por acaso, o bitcoin segue cada vez mais correlacionado com ações de empresas de tecnologia de crescimento, especialmente as chamadas “Big Tech”. Em momentos de aperto monetário, quando o Federal Reserve mantém ou eleva juros para combater a inflação, ambos costumam sofrer juntos.
Isso frustra particularmente aqueles que ainda insistem na narrativa de que o bitcoin se comporta como ouro digital no curto prazo, servindo como proteção contra instabilidade financeira. No longo prazo, a tese de reserva de valor pode se provar verdadeira, mas no curto prazo o bitcoin claramente se comporta como ativo de risco especulativo.
O Impacto dos ETFs de Bitcoin
A aprovação dos ETFs de bitcoin no início de 2024 foi celebrada como um marco importante para o mercado, pois abriu as portas para investidores institucionais e ampliou enormemente o acesso ao ativo para investidores tradicionais que preferem veículos de investimento regulamentados.
No entanto, essa democratização do acesso também trouxe consequências não planejadas. Quando grandes fundos entram no mercado de bitcoin através de ETFs (Leia sobre ETFs aqui), eles entram com muito dinheiro. Quando decidem sair, também saem com muito dinheiro. O fluxo de capital institucional passou a importar mais do que nunca para os movimentos de preço de curto prazo.
Nos últimos dias e semanas, parte significativa da queda está associada justamente a movimentos de saída desses fundos. Isso não necessariamente significa abandono da tese de longo prazo sobre o bitcoin, mas ajuste de posição em um ambiente mais adverso para ativos de risco de forma geral.
É fundamental entender que fundos institucionais não pensam como investidores de varejo individuais. Eles têm regras rigorosas de gestão de risco, mandatos de investimento específicos, limites regulatórios de exposição a determinadas classes de ativos e horizontes de investimento que podem variar dramaticamente. O preço do bitcoin reflete esse complexo jogo de fluxos institucionais.
Bitcoin não é Proteção de Curto Prazo
Um erro extremamente comum entre investidores novatos em criptomoedas é confundir tese de longo prazo com comportamento de curto prazo. No curto prazo, especialmente em períodos de dias, semanas ou meses, o bitcoin se comporta inequivocamente como um ativo de risco especulativo. Ele cai quando o mercado mais amplo foge de risco e sobe quando a liquidez global aumenta e investidores buscam retornos mais altos.
No longo prazo, a tese é completamente diferente e envolve argumentos sobre escassez programática com apenas 21 milhões de bitcoins que jamais existirão, preocupações sobre política monetária expansionista de bancos centrais que continuam imprimindo dinheiro, erosão de confiança no sistema financeiro tradicional após crises como a de 2008, e potencial como reserva de valor ao longo de décadas.
Misturar essas duas perspectivas temporais completamente diferentes é algo extremamente comum entre pequenos investidores e acaba levando a decisões ruins e perdas financeiras evitáveis. Se você comprou bitcoin esperando estabilidade e proteção de portfólio no meio de um ciclo de aperto monetário global, lamento informar, mas provavelmente você entrou no ativo pelos motivos errados e com expectativas desalinhadas da realidade.
Por que Grandes Investidores continuam comprando?
Mesmo com o bitcoin em queda acentuada, muitos grandes gestores profissionais seguem acumulando posição sistematicamente. Isso não acontece porque eles têm uma bola de cristal e sabem exatamente onde está o fundo do mercado, mas porque operam com horizontes de investimento muito mais longos do que investidores de varejo.
Grandes fundos trabalham construindo preço médio de aquisição ao longo do tempo, não com tentativas de acertar o timing perfeito de mercado. Para eles, movimentos de queda representam oportunidades de compra para construir posição em um ativo que ainda consideram dramaticamente subalocado no sistema financeiro global.
Essa é uma lição crítica que o pequeno investidor precisa entender e internalizar profundamente: a visão de longo prazo sobre um ativo não muda com a volatilidade de curto prazo. São coisas fundamentalmente diferentes operando em escalas de tempo distintas.
Enquanto você não tiver clareza absoluta sobre qual horizonte temporal está operando e se está preparado emocionalmente e financeiramente para a volatilidade associada, talvez não deva estar investindo parcelas significativas de seu capital em ativos de alto risco.
As Controvérsias Políticas afetam o preço?
Uma questão natural é se as controvérsias políticas envolvendo Trump, os Emirados Árabes Unidos e alegações de corrupção estão contribuindo diretamente para a queda do bitcoin. A resposta é complexa e provavelmente multifacetada.
Por um lado, as alegações de corrupção envolvendo a World Liberty Financial e possível uso de política de segurança nacional para beneficiar investidores em negócios da família Trump certamente não ajudam a percepção pública sobre as criptomoedas. Críticos há muito argumentam que o setor atrai atividades ilícitas, lavagem de dinheiro e esquemas de enriquecimento rápido, e escândalos como este reforçam esses estereótipos negativos.
Por outro lado, o mercado de bitcoin é global e responde a múltiplos fatores simultaneamente. Condições macroeconômicas, fluxos de ETFs, alavancagem excessiva sendo liquidada e ciclos naturais de boom e bust provavelmente têm impacto muito maior no preço de curto prazo do que controvérsias políticas específicas, mesmo aquelas envolvendo o presidente dos Estados Unidos.
Vale notar também que parte do otimismo que impulsionou o bitcoin para níveis recordes após a eleição de Trump estava baseado justamente na expectativa de que a sua administração seria extremamente favorável a criptomoedas.
Agora que essa expectativa se materializou em políticas concretas, o mercado está reavaliando se essas políticas realmente beneficiam o ecossistema cripto de forma ampla ou principalmente stablecoins centralizadas e projetos conectados a insiders políticos.
O Futuro das Investigações
Até o momento, nem a Casa Branca nem a World Liberty Financial responderam aos pedidos de comentário feitos por veículos de imprensa internacional sobre as alegações. O silêncio oficial deixa muitas questões sem resposta e alimenta especulações sobre o que mais pode estar oculto.
O escândalo envolvendo Trump, os Emirados Árabes Unidos e a World Liberty Financial representa mais um capítulo na intersecção cada vez mais complexa entre criptomoedas, política e interesses financeiros.
Para o mercado de criptomoedas mais amplo, o episódio é profundamente prejudicial. Num momento em que o setor busca legitimidade e adoção mainstream, escândalos envolvendo corrupção em alto nível, conflitos de interesse reforçam todos os piores estereótipos sobre criptomoedas como ferramentas para enriquecimento ilícito e esquemas questionáveis.
A queda do bitcoin em meio a essas controvérsias pode ser parcialmente atribuída a fatores macroeconômicos mais amplos, mas é impossível ignorar que a confiança pública no setor está sendo minada por comportamentos que parecem confirmar as piores suspeitas dos céticos.
Para investidores, a lição fundamental é que as criptomoedas permanecem como ativos extremamente voláteis e especulativos, influenciados tanto por fundamentos tecnológicos quanto por narrativas políticas, escândalos e mudanças regulatórias. Qualquer pessoa investindo neste espaço precisa estar preparada para uma volatilidade extrema e ter o horizonte de investimento de longo prazo.
