Quando Larry Ellison completou 80 anos em 2024, parecia que o lendário cofundador da Oracle estava finalmente diminuindo o ritmo. As corridas de iates de luxo, os combates aéreos simulados com seu caça italiano e as conquistas empresariais estavam dando lugar a projetos filantrópicos e à construção de um legado. Afinal, até os titãs do Vale do Silício envelhecem.
Mas o que aconteceu nos últimos meses surpreendeu até os observadores mais atentos do mundo dos negócios. Em um movimento que poucos previram, Ellison não apenas desafiou as expectativas sobre a aposentadoria, mas iniciou um segundo ato em sua carreira que pode torná-lo o magnata de mídia mais poderoso da história dos Estados Unidos.
Com um patrimônio líquido estimado em US$ 227,7 bilhões, equivalente a cerca de R$ 1,2 trilhão, segundo a Forbes, Ellison está montando um império de comunicação que pode superar em alcance e influência os impérios construídos por lendas como William Randolph Hearst e Joseph Pulitzer. A diferença é que, na era digital, as barreiras geográficas e tecnológicas que antes limitavam o poder de magnatas da mídia simplesmente desapareceram.
A Aquisição do TikTok marca uma nova Era
O capítulo mais recente dessa transformação aconteceu em janeiro de 2026, quando a Oracle, empresa que Ellison cofundou há quase meio século, tornou-se um dos principais investidores na operação americana do TikTok.
O acordo, avaliado em aproximadamente US$ 14 bilhões, cerca de R$ 73,9 bilhões, estabeleceu uma joint venture, ou seja, uma empresa conjunta, que permite que grupos de investidores operem os ativos do aplicativo nos Estados Unidos.
A estrutura da joint venture é complexa, mas reveladora do poder que Ellison acumulou. A Oracle detém uma participação de 15% na nova entidade, compartilhando a gestão com a empresa de investimentos em capital privado Silver Lake e a MGX, companhia de investimentos estatal sediada em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. Cada uma dessas três investidoras gestoras controla exatamente 15% do negócio.
O que torna essa aquisição ainda mais significativa é o relacionamento próximo entre Ellison e o presidente Donald Trump. Durante uma conferência de imprensa logo após sua posse, Trump elogiou publicamente o bilionário, afirmando que ele é um homem extraordinário e um empresário incrível. Esse alinhamento político não é coincidência, mas parte de uma estratégia cuidadosamente construída.
Da Oracle ao Império de Mídia: Uma Trajetória Improvável
Quem é Larry Ellison? O Magnata que adquiriu o TikTok. Para entender como chegamos a este ponto, precisamos voltar às origens de Larry Ellison. Nascido em Nova York em 1944, ele foi criado por seus tios-avós em Chicago depois que sua mãe, uma jovem solteira de 19 anos, o entregou para adoção quando ele tinha apenas nove meses de idade. A relação com seu tio adotivo foi difícil, marcada por constantes previsões de que o jovem Larry nunca chegaria a lugar algum.

Como muitas histórias de sucesso no Vale do Silício, Ellison provou que os céticos estavam errados. Em 1977, aos 33 anos, ele e dois colegas fundaram a Software Development Laboratories, que anos depois seria renomeada Oracle, em homenagem ao seu principal produto: um sistema de gerenciamento de banco de dados.
Diferentemente de muitos gênios técnicos do setor de tecnologia, Ellison nunca foi primariamente um programador brilhante. Seu verdadeiro talento estava nas vendas e na capacidade de enxergar oportunidades de mercado antes dos concorrentes. Ele construiu a Oracle em uma época em que a maioria das empresas de software daquele período desapareceu, superando crises financeiras que quase levaram a companhia à falência nos anos 1990.
Hoje, a Oracle é uma gigante global de computação em nuvem e bancos de dados, atendendo clientes corporativos como DHL, Northwell Health e Fanatics. Ellison possui aproximadamente 40% das ações da empresa e atua como presidente do conselho e diretor de tecnologia, cargo que assumiu em 2014 após 37 anos como CEO.
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Mas foi somente na última década que Ellison começou a demonstrar interesse real pelo setor de mídia e entretenimento. Tudo começou de forma aparentemente modesta: apoiando financeiramente as empresas fundadas por seus dois filhos.
O Papel dos Filhos na Construção do Império
Megan Ellison fundou a Annapurna Pictures, um estúdio independente que rapidamente ganhou reputação por produzir filmes autorais e ousados. David Ellison, por sua vez, criou a Skydance Productions, responsável por franquias de sucesso como Top Gun, Missão Impossível e Jack Reacher.
Inicialmente, o envolvimento de Larry parecia se limitar ao papel de pai orgulhoso investindo nos sonhos dos filhos. Mas em 2018, quando a Annapurna se viu afundada em dívidas que chegavam a US$ 200 milhões, cerca de R$ 1,05 bilhão, Ellison interveio de forma decisiva. Ele liderou uma reorganização completa da empresa, intermediou um acordo para quitar as dívidas e mudou radicalmente a forma como o estúdio financiaria seus projetos futuros.
A transformação mais significativa veio em 2025, quando a Skydance Media se fundiu com a Paramount Global em uma operação avaliada em aproximadamente US$ 28 bilhões, cerca de R$ 147,8 bilhões. Embora David Ellison formalmente administre a nova entidade Paramount Skydance, analistas do mercado afirmam que é o pai quem realmente detém o controle, já que Larry possui quase 50% do conglomerado.
Esse acordo transformou Ellison no proprietário majoritário de um império que inclui a rede de televisão aberta CBS, a plataforma de streaming Paramount Plus, diversos estúdios de cinema em Hollywood, a divisão de notícias CBS News e canais de TV por assinatura extremamente populares como Nickelodeon, MTV, Comedy Central e Showtime.
Para colocar em perspectiva, imagine ter controle editorial sobre o que milhões de americanos assistem diariamente na televisão aberta, nos serviços de streaming e nos canais infantis. Esse é o nível de influência cultural que a família Ellison alcançou.
A Disputa Bilionária pela Warner Bros Discovery
Se você acha que o império de mídia dos Ellison já é impressionante, saiba que ele pode estar prestes a dobrar de tamanho. A Paramount Skydance está atualmente envolvida em uma batalha épica pela aquisição da Warner Bros Discovery, enfrentando a concorrência nada menos que da Netflix.
A disputa é tão intensa que Larry Ellison ofereceu uma garantia pessoal de US$ 40,4 bilhões, aproximadamente R$ 213,3 bilhões, para reforçar a oferta da Paramount. Esse montante equivale ao PIB de países inteiros e demonstra o quanto Ellison está comprometido com essa aquisição.
Se a transação for aprovada pelos órgãos reguladores, a família Ellison passará a controlar outro grande estúdio cinematográfico, outro importante serviço de streaming na forma da HBO Max, a rede de notícias CNN e muito mais. A magnitude dessa potencial fusão é sem precedentes na história da mídia americana.
Seth Shafer, principal analista da S&P Global, comentou que muitos acionistas da Warner Bros que estavam indecisos sobre a venda provavelmente foram convencidos pela garantia financeira oferecida por Ellison. A certeza de que há um bilionário com recursos praticamente ilimitados por trás da operação traz uma segurança que poucos compradores poderiam oferecer.
Mas o caminho não será fácil. A Paramount aumentou a taxa de rescisão reversa, que é a multa paga quando o comprador desiste ou não consegue concluir o negócio, de US$ 5 bilhões, cerca de R$ 26,4 bilhões, para US$ 5,8 bilhões, aproximadamente R$ 30,6 bilhões. Nos termos do acordo com a Netflix, a Warner Bros deverá pagar à gigante do streaming US$ 2,8 bilhões, cerca de R$ 14,8 bilhões, como taxa de cancelamento caso opte pela oferta da Paramount.
Parlamentares de ambos os partidos nos Estados Unidos já levantaram preocupações sobre essa concentração de poder no setor de mídia. Senadores democratas argumentam que uma fusão entre Paramount e Warner Bros daria a uma única empresa controle sobre quase tudo o que os americanos assistem na televisão.
O Significado da Consolidação de Mídia na Era Digital
Michael Socolow, historiador de mídia da Universidade do Maine, oferece uma perspectiva importante sobre o que torna o império dos Ellison diferente dos conglomerados de mídia do passado. Segundo ele, tudo está se consolidando de uma forma que nunca vimos antes na história.
No século passado, famílias poderosas controlaram grandes pedaços da mídia americana, mas seu alcance era frequentemente limitado por fatores geográficos. A família Chandler, dona do Los Angeles Times, dominou o sul da Califórnia por décadas, mas tinha pouco poder em outras regiões do país. Rupert Murdoch é dono da Fox e do Wall Street Journal, mas as missões editoriais dessas empresas não se sobrepõem completamente.
Na era digital, essas limitações estão desaparecendo rapidamente. Como Socolow observa, o que torna os negócios dos Ellison diferentes é que eles abrangem múltiplas plataformas. Ter a oportunidade de estabelecer uma linha editorial no TikTok, CBS News e potencialmente na CNN representa um mundo completamente novo em termos de influência cultural e política.
Pense nisso por um momento. O TikTok afirma ter 170 milhões de usuários nos Estados Unidos, muitos deles jovens que consomem informação principalmente através de vídeos curtos na plataforma. A CBS News é assistida por milhões de americanos mais velhos que ainda dependem da televisão tradicional. A CNN, se a aquisição se concretizar, seria outro veículo de notícias de alcance nacional.
Ter influência editorial sobre essa gama de plataformas significa poder moldar conversas públicas, definir agendas noticiosas e influenciar percepções políticas em uma escala que simplesmente não era possível para magnatas de mídia das gerações anteriores.
A Relação Próxima com Donald Trump e suas implicações
O alinhamento entre Larry Ellison e o presidente Donald Trump não é segredo. Em 2022, Ellison doou US$ 1 bilhão, cerca de R$ 5,28 bilhões, para ajudar Elon Musk a financiar a compra do Twitter, hoje conhecido como X. Trump, por sua vez, disse publicamente em janeiro que gostaria que Musk ou Ellison comprassem o TikTok.
Essa proximidade levanta questões importantes sobre a independência editorial dos veículos controlados pela família Ellison. Desde que David Ellison assumiu o controle da Paramount, já houve decisões editoriais controversas que parecem agradar a Casa Branca. O afastamento do ar de críticos proeminentes do governo, como Stephen Colbert, gerou debates acalorados sobre a interferência política na programação.
Há rumores de que David Ellison está em negociações para adquirir o The Free Press, publicação digital de Bari Weiss que se posiciona como oposição à mídia tradicional. Segundo o New York Times, o novo proprietário da CBS News está considerando dar a Weiss o cargo de editora-chefe ou copresidente da emissora.
Weiss, que trabalhou como editora da seção de opinião do próprio New York Times, se apresenta como uma provocadora centrista, embora o alvo mais frequente de seu antagonismo seja o que ela chama de grande mídia. Esse posicionamento se alinha perfeitamente aos interesses da Casa Branca e da retórica anti-establishment que caracteriza o movimento político de Trump.
Como parte dos compromissos regulatórios vinculados à fusão com a Paramount, a CBS News criou um cargo de ombudsman para revisar queixas de viés político e reduziu alguns de seus programas de diversidade, equidade e inclusão. Os movimentos foram amplamente vistos como sinalizações de uma direção editorial mais conservadora na CBS News, atraindo tanto apoio de executivos quanto preocupação entre a equipe.
O Homem por trás do Império: Quem é Larry Ellison?
Para além dos números impressionantes de riqueza e das aquisições bilionárias, quem é realmente Larry Ellison? Aqueles que conhecem o bilionário descrevem um homem complexo, muitas vezes contraditório.
Ao longo de sua carreira, Ellison desenvolveu uma reputação de comportamento implacável e, por vezes, eticamente questionável como chefe da Oracle. A biógrafa Karen Southwick chegou a chamá-lo de um Gengis Khan moderno em seu livro de 2003 intitulado Todos os Outros Devem Fracassar: A Verdade Nua e Crua Sobre a Oracle e Larry Ellison.
O livro descreve um homem que não hesita em usar qualquer meio para obter poder absoluto sobre sua empresa ou setor, expurgando executivos que ousam enfrentá-lo e realizando aquisições hostis de concorrentes. A equipe de iatismo da Oracle foi flagrada trapaceando na Copa América de 2013, e Ellison ficou famoso por contratar detetives particulares para investigar a Microsoft e Bill Gates durante os problemas de monopólio da empresa em 1999.
Ellison passou por seis casamentos ao longo de sua vida, refletindo uma vida pessoal tão turbulenta quanto sua trajetória empresarial. Ele possui grandes propriedades ao redor do mundo, incluindo quase a totalidade da ilha havaiana de Lanai, que comprou em 2012 por US$ 300 milhões, cerca de R$ 1,58 bilhão.
Além disso, é dono de um caça SIAI-Marchetti S.211 comprado da marinha italiana, que teria usado para combates simulados com seu filho David. Essa imagem de empresário aventureiro e extravagante contrasta com a persona mais discreta que ele mantém em comparação com outros bilionários da tecnologia como Elon Musk ou Jeff Bezos.
A Fortuna que flutua em Bilhões por dia
Uma das características mais impressionantes da riqueza de Larry Ellison é sua volatilidade. Como grande parte de seu patrimônio está vinculado às ações da Oracle, sua fortuna pode flutuar em até US$ 100 bilhões, cerca de R$ 528 bilhões, em um único dia. Esse valor é maior que o Produto Interno Bruto de aproximadamente dois terços dos países do mundo, segundo dados do Fundo Monetário Internacional.
Em setembro de 2025, Ellison viu o valor de suas ações na Oracle subir tanto que ele se tornou brevemente a pessoa mais rica do mundo, superando até mesmo Elon Musk. Seu patrimônio chegou a atingir impressionantes US$ 393 bilhões, cerca de R$ 2,07 trilhões, de acordo com o Financial Times. No entanto, com as oscilações do mercado de ações nas semanas seguintes, ele perdeu posições.
Atualmente, com um patrimônio estimado em US$ 227,7 bilhões, aproximadamente R$ 1,2 trilhão, Ellison ocupa o terceiro lugar no ranking dos mais ricos do mundo, segundo a Forbes. Ele está à frente de Jeff Bezos, cuja fortuna é estimada em US$ 239 bilhões, cerca de R$ 1,26 trilhão, e logo atrás de Larry Page, cofundador do Google, que tem patrimônio estimado em US$ 250,1 bilhões, aproximadamente R$ 1,32 trilhão. Elon Musk continua no topo com US$ 671,5 bilhões, cerca de R$ 3,54 trilhões.
O aumento recente no patrimônio de Ellison foi impulsionado pela forte valorização das ações da Oracle após o anúncio da participação na joint venture do TikTok. Em apenas um dia em janeiro de 2026, seu patrimônio líquido estimado aumentou em US$ 15 bilhões, aproximadamente R$ 79,2 bilhões. Esse tipo de ganho instantâneo ilustra a escala de riqueza que estamos discutindo.
O que torna esse império familiar ainda mais singular é que, se Ellison quiser continuar expandindo seu conglomerado de mídia, o dinheiro simplesmente não é um obstáculo. Enquanto outros empresários precisam preocupar-se com financiamento, aprovação de acionistas ou capacidade de pagamento, Ellison pode literalmente escrever cheques de dezenas de bilhões de dólares com sua fortuna pessoal.
A Oracle e os Dados Americanos: Um Poder Discreto
Embora o foco recente esteja nas aquisições de mídia, não podemos esquecer que Ellison já tinha acesso a uma quantidade significativa de dados médicos e financeiros americanos por meio da Oracle. A empresa fornece sistemas de gerenciamento de banco de dados para hospitais, instituições financeiras e agências governamentais em todo o país.
A Oracle também ajudou a construir alguns dos maiores centros de dados de inteligência artificial do mundo. Durante uma apresentação de resultados fiscais, Ellison descreveu sua visão para o que ele chama de Oracle AI Database e Oracle AI Data Platform.
Segundo ele, treinar modelos de inteligência artificial com dados públicos é o negócio que mais cresce na história, mas fazer com que modelos de IA raciocinem sobre dados privados será um negócio ainda maior e mais valioso.
Essa combinação de acesso a dados sensíveis, infraestrutura de IA de ponta e agora controle sobre grandes veículos de mídia cria um nível de poder concentrado que seria impensável em décadas anteriores. Ellison não apenas pode influenciar o que as pessoas assistem e leem, mas também tem acesso aos dados que moldam como algoritmos apresentam a informação.
No caso específico do TikTok, a Oracle já trabalhava em estreita colaboração com a divisão de Segurança de Dados dos EUA do aplicativo há anos, armazenando dados de usuários americanos em seus servidores. Kenneth Glueck, vice-presidente executivo da Oracle e assessor do CEO da empresa, foi nomeado para integrar o conselho administrativo da nova joint venture do TikTok.
Segundo um memorando interno enviado aos funcionários em dezembro, os novos proprietários americanos do TikTok planejam reconfigurar o algoritmo de recomendação de conteúdo com base exclusivamente em dados de usuários americanos para garantir que o feed de conteúdo esteja livre de manipulação externa.
Quem controlará esse algoritmo e quais critérios serão usados para definir o que é ou não é manipulação externa são perguntas que permanecem sem uma resposta clara.
Os Outros Investidores na Joint Venture do TikTok

(Fonte da imagem: Andrew Harnik/Getty; Anna Moneymaker/Getty Images; Andrew Caballero-Reynolds/AFP via Getty Images)
Embora a Oracle seja o nome mais conhecido entre os investidores do TikTok americano, vale a pena conhecer os outros players envolvidos nesta complexa estrutura empresarial.
A Silver Lake é uma empresa de investimentos em capital privado focada em tecnologia. Com uma participação de 15% na nova entidade do TikTok, a firma tem um histórico impressionante de investimentos em empresas como Klarna, Carta, Dell Technologies, Genies e Waymo.
Investimentos anteriores incluem Airbnb, Twitter e Tesla. Egon Durban e Greg Mondre atuam como co-CEOs e sócios-gerentes da empresa, e Durban integrará o conselho administrativo da joint venture.

A MGX é uma empresa de investimentos estatal sediada em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, focada em inteligência artificial. O xeque Tahnoon bin Zayed Al Nahyan, membro da família real governante de Abu Dhabi, é o presidente da empresa.
A MGX participou da rodada de investimentos de US$ 6,6 bilhões, cerca de R$ 34,8 bilhões, na OpenAI em 2024. David Scott, diretor de estratégia e segurança da MGX, fará parte do conselho administrativo e do comitê de segurança da joint venture.

O envolvimento de uma empresa estatal dos Emirados Árabes Unidos levanta questões interessantes sobre a segurança nacional. Afinal, a justificativa oficial para forçar a ByteDance a vender o TikTok era o receio de que o governo chinês pudesse acessar dados de americanos. Agora, uma empresa controlada por outro governo estrangeiro tem exatamente a mesma participação que a Oracle.
Além desses três investidores principais, há um consórcio que detém os 35,1% restantes da joint venture. Esse grupo inclui nomes interessantes como o escritório familiar de Michael Dell, a Vastmere Strategic Investments que é afiliada do Susquehanna International Group, a Revolution que é uma empresa de investimentos onde o vice-presidente JD Vance trabalhava anteriormente, e vários outros fundos vinculados a investidores atuais da ByteDance.


O que tudo isso significa para os usuários do TikTok?
Uma pergunta que muitos usuários do TikTok estão fazendo é: o que essa mudança de propriedade significa para mim? A resposta honesta é que ainda não sabemos completamente.
Adam Presser, executivo de confiança e segurança do TikTok, foi nomeado CEO da TikTok USDS Joint Venture LLC. O conselho administrativo de sete pessoas incluirá o atual CEO do TikTok, Shou Chew, além de representantes da Oracle, Silver Lake e MGX.
Segundo o memorando de dezembro de Chew aos funcionários, a ByteDance continuará supervisionando áreas comerciais importantes como a Loja TikTok, publicidade e marketing. A nova joint venture será responsável pela segurança dos dados dos usuários americanos, moderação de conteúdo e pelo algoritmo de recomendação.
As salvaguardas proporcionadas pela joint venture também abrangerão o CapCut, editor de vídeos, o Lemon8, rede social, e um portfólio de outros aplicativos e sites nos EUA, segundo anúncio oficial da empresa.
O objetivo declarado é garantir que o feed de conteúdo esteja livre de manipulação externa, mas quem define o que é manipulação externa? Se Larry Ellison tem uma relação próxima com o presidente Trump e controla uma parcela significativa da plataforma, existirá pressão para que um conteúdo crítico ao governo seja suprimido ou retirado pelo algoritmo?
Essas são preocupações legítimas que observadores independentes estão levantando. Clare Malone, em artigo recente na The New Yorker, argumenta que é improvável que o acordo faça muito para resolver as supostas preocupações de segurança nacional em torno do TikTok. Em vez disso, o impacto mais imediato seria fortalecer um conglomerado de mídia sob os auspícios da família Ellison que é assíduamente amigável a Trump.
Os Desafios Regulatórios pela frente
Em qualquer outra época, os obstáculos regulatórios para que uma única família controlasse TikTok, CBS, CNN e uma grande fatia de Hollywood seriam praticamente intransponíveis. Leis antitruste foram criadas especificamente para evitar esse tipo de concentração de poder no setor de mídia.
Mas este é um momento diferente na história americana. Estar nas boas graças do presidente Trump parece contar muito quando se trata de aprovação regulatória. O próprio presidente deixou claro que gostaria que aliados como Ellison ou Musk controlassem o TikTok, em vez de permitir que permanecesse sob controle chinês ou fosse banido completamente.
Ainda assim, parlamentares de ambos os partidos levantaram preocupações sobre a consolidação no setor de mídia. Uma combinação entre Paramount e Warner Bros criaria um estúdio maior que a líder do setor Disney e combinaria duas grandes operadoras de televisão. Senadores democratas argumentam que isso daria a uma única empresa o controle sobre quase tudo o que os norte-americanos assistem na TV.
Ambos os acordos, tanto a aquisição do TikTok quanto a potencial fusão Paramount-Warner, enfrentarão intenso escrutínio antitruste nos Estados Unidos e na Europa. Trump disse que planeja avaliar pessoalmente as transações, o que adiciona outro nível de incerteza política ao processo.
Se levarmos em conta o controle da Paramount Skydance sobre a quarta maior audiência de TV e o interesse significativo no aplicativo de mídia social mais popular, os Ellisons merecem seu próprio exame regulatório separado, argumentam alguns analistas. A concentração de poder em mídia tradicional, streaming e redes sociais em uma única família simplesmente não tem precedentes.
Comparações Históricas e o que elas revelam
Para colocar o império dos Ellison em uma comparação histórica, vale rever a história de outros magnatas de mídia do passado e do presente.
William Randolph Hearst, no auge de seu poder no início do século XX, controlou dezenas de jornais e revistas em todo o país. Sua influência era tão grande que ele foi acusado de ter provocado a Guerra Hispano-Americana de 1898 através de sua cobertura sensacionalista. Mas seu alcance era limitado à mídia impressa e concentrado principalmente em cidades específicas.
Rupert Murdoch construiu um império global de mídia que inclui a Fox News, o Wall Street Journal, e propriedades em vários países. Sua influência na política americana e britânica é inegável. Mas mesmo Murdoch nunca controlou simultaneamente redes sociais, plataformas de streaming, televisão aberta e estúdios de cinema da forma que os Ellison estão prestes a fazer.
A família Chandler dominou o sul da Califórnia por décadas através do Los Angeles Times, mas tinha pouco poder em outras regiões. As missões editoriais da família Chandler não se sobrepõem completamente, o que limita sua capacidade de moldar uma narrativa única através de múltiplas plataformas.
Os Ellison, por outro lado, estão construindo algo qualitativamente diferente. Com o controle sobre a televisão tradicional via CBS, streaming via Paramount Plus e potencialmente HBO Max, redes sociais via TikTok, e produção de conteúdo através dos estúdios de Hollywood, eles podem influenciar como as pessoas consomem informação em praticamente todos os formatos de mídia relevantes.
O Fator Elon Musk e a Rede de Bilionários
É impossível falar sobre Larry Ellison sem mencionar sua relação com Elon Musk. Os dois bilionários desenvolveram uma amizade próxima ao longo dos anos, e Musk descreveu publicamente Ellison como uma das pessoas mais inteligentes que conhece e como seu mentor.
Ellison fez parte do conselho de administração da Tesla entre 2018 e 2022, período em que ajudou Musk a navegar por alguns dos momentos mais turbulentos da empresa de veículos elétricos. Quando Musk decidiu comprar o Twitter em 2022, Ellison contribuiu com US$ 1 bilhão, cerca de R$ 5,28 bilhões, para ajudar a financiar a aquisição.
Essa rede de bilionários mutuamente apoiadores, todos com proximidade política a Donald Trump, cria uma concentração de poder econômico e midiático que levanta questões sobre a saúde da democracia americana. Quando um pequeno grupo de homens extremamente ricos controla as principais plataformas onde os americanos se informam e se comunicam, quem defende o interesse público?
Os Projetos Filantrópicos e as Controvérsias
Ellison também tem se dedicado a projetos filantrópicos, embora com resultados mistos. Ele está construindo o Ellison Institute of Technology na Universidade de Oxford, onde diz que vai concentrar seus recursos em pesquisa científica e desenvolvimento de startups em ciências da vida.
Mas o projeto enfrentou turbulências que marcaram outros empreendimentos filantrópicos de Ellison. O bilionário tem um histórico de mudar de ideia sobre seu trabalho filantrópico ou romper com as pessoas que contrata para gerenciá-lo. Em 2025, Ellison se separou de John Bell, cientista renomado que havia sido contratado para liderar o instituto e que deu credibilidade instantânea ao projeto.
Bell chamou o instituto de projeto muito desafiador ao anunciar sua saída, apenas semanas depois que Ellison contratou Santa Ono, ex-presidente da Universidade de Michigan, para um cargo que parecia superior ao dele. Segundo informações, há tensão na liderança sobre a melhor forma de comercializar a pesquisa científica, além de dúvidas sobre o quanto o instituto pode confiar que Ellison cumprirá seus compromissos financeiros de longo prazo.
Ellison também é próximo do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu. Em 2017, realizou uma doação de US$ 16,6 milhões, cerca de R$ 87,6 milhões, para a organização sem fins lucrativos Amigos das Forças de Defesa de Israel, a maior doação que a organização havia recebido até então. Essas conexões políticas internacionais adicionam outra dimensão à influência que Ellison exerce.
O que vem a seguir?
A história de Larry Ellison nos ensina que ele raramente está satisfeito com o status quo. Aos 81 anos, quando muitos bilionários estariam se preparando para passar o controle de seus impérios para a próxima geração, Ellison está dobrando a aposta e expandindo para territórios completamente novos.
A potencial aquisição da Warner Bros Discovery seria apenas mais um passo nessa jornada. Se aprovada, criaria um conglomerado de mídia que rivalizaria ou superaria qualquer coisa que já existiu na história americana em termos de alcance e influência.
Mas há sinais de resistência. O declínio recente no valor das ações da Oracle mostrou que até mesmo a fortuna de Ellison tem limites. Ele perdeu mais de um terço do valor de suas ações da Oracle devido à volatilidade do mercado, demonstrando que nem tudo está sob seu controle absoluto.
A batalha regulatória pela Warner Bros também será um teste importante. Se as autoridades antitruste bloquearem a fusão, isso sinalizaria que existem limites para o quanto de poder de mídia pode ser concentrado em uma única família, independentemente de suas conexões políticas.
Por outro lado, se a fusão for aprovada, estaremos entrando em um território verdadeiramente novo em termos de concentração de mídia. Uma família controlando simultaneamente as maiores plataformas de televisão tradicional, streaming e redes sociais dos Estados Unidos representaria um nível de influência cultural que simplesmente não existia antes.
As Implicações para as Redes Sociais e a Democracia
Não podemos encerrar esta análise sem refletir sobre o que tudo isso significa para a democracia americana e para a qualidade do debate público.
Uma mídia livre e plural é considerada essencial para o funcionamento de uma democracia saudável. Quando o poder de determinar que informações cheguem ao público por estar concentrado em poucas mãos, especialmente em mãos que têm alianças políticas claras, surgem preocupações legítimas sobre censura, manipulação e supressão de vozes dissidentes.
As decisões editoriais recentes na CBS News, incluindo a criação de um cargo de ombudsman para revisar queixas de viés e a redução de programas de diversidade, podem ser vistas como responsabilidade corporativa ou como capitulação a pressões políticas, dependendo da perspectiva de quem observa.
No TikTok, a questão é ainda mais complexa. O algoritmo que determina o que 170 milhões de americanos veem todos os dias agora será controlado por um consórcio que inclui aliados próximos do presidente. Quais salvaguardas existem para garantir que esse algoritmo não seja manipulado para beneficiar certos pontos de vista políticos ou suprimir outros?
Essas não são perguntas retóricas. São questões fundamentais sobre o futuro da democracia americana em uma era em que a mídia tradicional e as plataformas digitais estão cada vez mais concentradas nas mãos de poucos bilionários com suas próprias agendas políticas e econômicas.
Um Império em Construção
Larry Ellison construiu sua fortuna através de décadas de trabalho duro, visão empresarial aguçada e, sim, táticas agressivas que nem sempre foram consideradas éticas por seus críticos. Mas ninguém pode negar que ele é um dos empresários mais bem-sucedidos da história da tecnologia.
Sua transformação de pioneiro do Vale do Silício em magnata de mídia representa um capítulo fascinante e preocupante da história empresarial americana. Com um patrimônio líquido de US$ 227,7 bilhões, cerca de R$ 1,2 trilhão, e controle crescente sobre como milhões de americanos consomem informação e entretenimento, Ellison alcançou um nível de poder que poucos indivíduos na história já tiveram.
A parceria com seu filho David criou uma dinastia familiar que pode dominar o cenário da mídia americana por décadas. A proximidade política com Donald Trump fornece uma proteção regulatória que permite expansões que seriam impensáveis em outros contextos políticos.
Mas essa concentração de poder também levanta questões fundamentais sobre o pluralismo da mídia, a liberdade de imprensa e a saúde democrática. À medida que o império dos Ellison continua crescendo, essas questões se tornarão cada vez mais urgentes.
O segundo ato de Larry Ellison como magnata de mídia está apenas começando. Como essa história terminará ainda está sendo escrito, mas uma coisa é certa: o impacto de suas decisões será sentido por gerações de americanos que consomem notícias, entretenimento e informação nas plataformas que ele controla.








