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Mahsa Alert: o Aplicativo Criado por Iranianos para Monitorar Ataques Aéreos com Dados Coletados Colaborativamente

Sem sirenes, sem avisos oficiais e com menos de 1% de acesso à internet, cidadãos iranianos desenvolveram uma ferramenta digital para sobreviver à guerra. Entenda como funciona o Mahsa Alert e por que ele representa uma nova fronteira no uso da tecnologia em conflitos armados.

Mahsa Alert: o Aplicativo Criado por Iranianos para Monitorar Ataques Aéreos com Dados Coletados Colaborativamente
(Imagem: Reprodução/AppleInsider)

O Silêncio mais Perigoso: Quando o Governo não Avisa que há Bombas Caindo

Mahsa Alert: o Aplicativo Criado por Iranianos para Monitorar Ataques Aéreos com Dados Coletados Colaborativamente

Existe um tipo de silêncio que mata. Não o silêncio da paz, mas o silêncio deliberado de um Estado que prefere deixar seus próprios cidadãos no escuro a admitir que há uma guerra acontecendo em seu território.

É exatamente esse o cenário que dezenas de milhões de iranianos enfrentam desde o início de 2026. Ao completar a quinta semana de guerra com os Estados Unidos e Israel, cerca de 93 milhões de civis no Irã vivem em uma zona de conflito sem nenhum sistema de alerta de mísseis e sem acesso à internet.

Outros 4 milhões de pessoas de origem iraniana espalhadas pelo mundo foram cortadas de seus amigos e familiares que ainda estão dentro do país.

Enquanto isso, o governo iraniano mantém uma postura que seria absurda em qualquer democracia funcional. Segundo Ahmad Ahmadian, diretor executivo da Holistic Resilience, em vez de sirenes enviando alertas de crise para a população em massa, o Ministério de Inteligência envia mensagens de texto diárias ameaçando as pessoas: “Se você compartilhar informações com outras pessoas, saberemos e viremos atrás de você.”

É nesse contexto que surgiu uma das histórias mais fascinantes da tecnologia em tempos de guerra: um Aplicativo Criado por Iranianos foi construído do zero como um sistema de alerta que o governo iraniano se recusa a criar. Um grupo de engenheiros e ativistas de direitos digitais decidiu construir e o resultado se chama Mahsa Alert.

O que é o Mahsa Alert e como Ele Surgiu?

Aplicativo Criado por Iranianos
(Imagem: Reprodução/AppleInsider)

Um Nome Carregado de História

O nome do aplicativo não foi escolhido por acaso. O app leva o nome de Mahsa Amini, uma jovem iraniana de 22 anos que morreu em 2022 após ser presa pela “polícia da moralidade” do Irã, um grupo que detém mulheres que, segundo as autoridades, não cumprem as leis obrigatórias de cobertura do cabelo.

A morte de Amini se tornou o estopim para protestos generalizados após décadas de opressão, e sua imagem tornou-se símbolo do que ficou conhecido como o movimento Mulher, Vida, Liberdade.

Batizar um aplicativo de sobrevivência com esse nome é, portanto, um ato político tanto quanto tecnológico. É a continuação de uma resistência que começou nas ruas e chegou às telas dos smartphones.

Quem está por Trás do Projeto?

O Mahsa Alert foi desenvolvido pela Holistic Resilience, um grupo de engenheiros focado na liberdade de acesso à internet, que identificou pela primeira vez a falta de proteções civis durante a guerra de 12 dias entre Israel e Irã, em junho de 2025.

À frente da organização está Ahmad Ahmadian, uma figura com uma trajetória que parece saída de um roteiro de cinema político.

Segundo seu perfil na Conferência pela Liberdade de Berlim, Ahmadian começou como ativista estudantil dentro do próprio Irã, o que o levou à detenção, prisão e períodos de isolamento.

Depois do esmagamento do Movimento Verde em 2009, foi forçado ao exílio, e passou mais de uma década desenvolvendo ferramentas para contornar a censura digital em países fechados, incluindo Coreia do Norte, Rússia, China e Afeganistão.

Ahmadian explicou a motivação do projeto: “Não existe um sistema de alerta de emergência no Irã. Vimos o momentum e a necessidade, então continuamos trabalhando com voluntários e especialistas, usando esta plataforma para mapear o sistema de repressão e vigilância no Irã.” Conforme noticiado pelo ImArabic

Como o Mahsa Alert Funciona na Prática

A Estrutura Técnica do Aplicativo

O Mahsa Alert funciona principalmente como um site, mas também está disponível como aplicativo para iOS e Android.

Antes de entender seus recursos, é importante explicar dois conceitos centrais para compreender o que torna esse app especial em um contexto de guerra:

Crowdsourcing (coleta colaborativa de dados): é a prática de reunir informações a partir de um grande número de pessoas, geralmente pela internet. No caso do Mahsa Alert, cidadãos, jornalistas e observadores enviam relatos, fotos e vídeos sobre eventos que estão ocorrendo no território iraniano, formando uma base de dados construída de baixo para cima, e não por uma autoridade central.

Inteligência de fonte aberta, conhecida pela sigla em inglês OSINT (Open Source Intelligence): é o processo de coletar e analisar informações disponíveis publicamente, como postagens em redes sociais, vídeos no Telegram, fotos no X (antigo Twitter) e transmissões ao vivo, para verificar eventos em tempo real. É a mesma metodologia usada por jornalistas investigativos e organizações como o Bellingcat.

Usando crowdsourcing e inteligência de fonte aberta, voluntários analisam cerca de 100 denúncias por dia, verificando sua validade e precisão. Esses relatos podem chegar na forma de vídeos ou fotos de redes sociais, ou mensagens no Telegram. A equipe também mapeia a localização de cerca de 18.000 câmeras de circuito fechado (CFTV) espalhadas pelo país.

O que os Usuários Encontram no Mapa

Ao abrir o aplicativo, o usuário tem acesso a um mapa interativo do território iraniano com diferentes camadas de informação.

Há marcadores para ataques confirmados, alertas de evacuação emitidos pelas Forças de Defesa de Israel em sua conta em persa no X, dicas enviadas por usuários e pontos estratégicos de sobrevivência.

Outros detalhes incluem alertas de evacuação das forças israelenses, bem como dicas de eventos enviadas por usuários. Há também milhares de locais mostrando posições de câmeras de segurança, possíveis postos de controle do governo, instalações médicas e locais religiosos.

Civis que se deslocam para cidades que não conhecem podem usar o Mahsa Alert como uma linha de apoio crítica, identificando hospitais, bancos de sangue, postos de controle governamentais ou abrigos, mesmo sem conexão com a internet.

Verificação Rigorosa Antes de Qualquer Publicação

Um dos pontos que mais diferencia o Mahsa Alert de um simples grupo de WhatsApp ou canal de Telegram é o processo de verificação. A equipe não publica nada sem antes confirmar as informações.

Em um caso específico, Ahmadian relatou que uma denúncia alegava que mísseis estavam sendo lançados de um determinado prédio, que a equipe mais tarde identificou como uma dormitório feminino de uma universidade.

Ahmadian disse acreditar que a denúncia pode ter sido uma tentativa de enganar o sistema de identificação de alvos, fornecendo ao governo iraniano munição para sua campanha de propaganda anti-Israel e anti-EUA, embora isso não tenha podido ser verificado de forma independente. “Ao aumentar o número de vítimas civis, eles alimentam sua guerra de propaganda”, disse Ahmadian. “Esta não é a nossa guerra. Nunca foi a nossa guerra.”

Ainda assim, a quantidade de informações recebidas é considerável. Segundo os dados disponíveis na reportagem da Wired, citada pela AppleInsider, a equipe tem um acúmulo de mais de 3.000 relatórios em análise aguardando verificação.

Usuários em 2026: 335.000Pico de uso diário: 100.000+
Dentro do Irã: 28%Fora do país: 72%
Denúncias/dia analisadas: ~100Câmeras CFTV mapeada:18.000

O Desafio do Acesso à Internet: Por que Conectar o Irã é Quase Impossível

Um Apagão Digital sem Precedentes

Para entender por que o Mahsa Alert é tão relevante, é preciso compreender o nível de isolamento digital imposto pelo governo iraniano a seus próprios cidadãos.

Com a conectividade à internet no Irã estimada em menos de 1%, os avisos de evacuação das Forças de Defesa de Israel frequentemente não chegam aos civis que deveriam alcançar.

Isso significa que mesmo os alertas que são publicados em árabe e persa nas redes sociais internacionais não chegam às pessoas que precisam deles.

É por isso que os desenvolvedores do Mahsa Alert priorizaram uma característica técnica pouco comum: o funcionamento sem conexão com a internet.

Os aplicativos foram projetados para serem leves e utilizáveis em uma ampla gama de dispositivos, e as atualizações são mantidas pequenas, medindo cerca de 100 kilobytes em média.

Isso permite que uma pessoa que conseguiu baixar o app antes do bloqueio ainda tenha acesso ao mapa de instalações médicas, abrigos e postos de controle, mesmo completamente desconectada.

O Contrabando de Antenas Starlink

A Holistic Resilience não está batalhando apenas no campo dos aplicativos. Segundo reportagem da AFP reproduzida pelo Free Malaysia Today, Ahmadian revelou que sua organização comprou dispositivos Starlink em países europeus ou em outros locais e os introduziu no Irã por meio de “países vizinhos”.

O Starlink é o serviço de internet via satélite da empresa SpaceX, fundada por Elon Musk. Ele funciona por meio de uma constelação de satélites em órbita baixa que transmitem sinal diretamente para uma antena compacta instalada no chão.

Como não depende de cabos ou torres de telecomunicações terrestres controladas pelo governo, é muito mais difícil de bloquear.

Ahmadian estima que existem mais de 50.000 terminais Starlink no Irã. O governo reprimiu duramente esses terminais em 2025, e os pegos usando-os enfrentam prisão, com acusações que podem ser agravadas se o dispositivo tiver sido enviado por uma organização americana.

No mercado negro, uma antena Starlink chegou a custar o equivalente a cerca de R$ 25.000 ao câmbio atual, no final de 2025. Com o início da guerra, o preço dos terminais subiu ainda mais, chegando a aproximadamente R$ 100.000 por unidade, segundo Ahmadian.

A Explosão de Usuários: de Zero Para 100 mil em Dias

O Crescimento Acelerado Após o Início da Guerra

Ahmadian indicou que o aplicativo cresceu de zero para mais de 100.000 usuários ativos diários em apenas alguns dias, com indicadores mostrando que 28% dos usuários estão se conectando de dentro do Irã, segundo o site ImArabic.

Mas o dado mais surpreendente sobre o Mahsa Alert é justamente o contrário: mais de 72% dos usuários não estão dentro do Irã. Para entender por que isso acontece, é preciso olhar para o perfil de quem usa o aplicativo.

Por que a Maioria dos Usuários está Fora do Irã

Há pelo menos três razões para esse fenômeno.

  • A primeira é a mais óbvia: o bloqueio de internet dentro do país torna difícil até mesmo baixar o aplicativo pela primeira vez, que já é o primeiro obstáculo para qualquer usuário.
  • A segunda razão está na natureza ampla das informações disponíveis no app. Militares, a mídia internacional e cidadãos de países vizinhos ao Irã têm interesse legítimo no fluxo de dados à medida que a guerra evolui. Uma ferramenta que mapeia posições de câmeras de vigilância, instalações nucleares e movimentações de tropas é estrategicamente valiosa para analistas e jornalistas em todo o mundo.
  • A terceira razão é humana e emotiva: há uma diáspora iraniana de milhões de pessoas espalhadas pelo globo. Segundo uma fonte israelense de segurança consultada pela publicação The Free Press, cidadãos iranianos que vivem fora do país usam o aplicativo para verificar a situação dos bairros onde moram seus familiares, garantindo que não há nenhuma instalação que possa ser alvo de ataques nas proximidades. “Há muitas coisas que nos dizem sobre o povo iraniano”, afirmou o operativo. “Nunca disseram que eles são tolos. Pelo contrário, são inteligentes e corajosos.”

Sob ataque: Quando o Aplicativo Vira Alvo

Ataques DDoS e Envenenamento de Domínio

Uma ferramenta que salva vidas rapidamente se torna uma ameaça para quem quer suprimir informações. Não demorou muito para que o Mahsa Alert passasse a ser atacado digitalmente.

O que é um ataque DDoS? A sigla vem do inglês Distributed Denial of Service, que significa “negação de serviço distribuída”.

Funciona assim: em vez de uma única máquina tentar sobrecarregar um servidor, milhares de computadores (muitas vezes infectados e controlados remotamente) enviam requisições simultâneas ao servidor alvo, até que ele não consiga mais responder às solicitações legítimas.

O resultado é que o site ou aplicativo fica fora do ar para seus usuários reais.

Segundo a reportagem da Wired, citada pelo AppleInsider, após o lançamento do aplicativo, ele passou a ser alvo de ataques DDoS para interromper seu funcionamento, uma situação que só piorou desde o início da guerra.

Além disso, houve tentativas de “envenenamento de domínio”, uma prática em que agentes mal-intencionados registram domínios com nomes parecidos com o do aplicativo original para confundir usuários e redirecioná-los para versões falsas ou perigosas. Vários domínios usando a marca do aplicativo surgiram desde fevereiro de 2026.

O governo iraniano também acusou voluntários que contribuem com informações para a plataforma de atuarem como espiões israelenses ou de coletarem informações para os Estados Unidos.

O Custo Humano de Manter o Sistema no Ar

Ahmadian é franco sobre o esforço que a operação exige: “Tenho colegas trabalhando perto de 16 horas neste projeto. Temos nos autofinanciado desde o início, e nunca paramos de fazer isso apesar de todos os desafios. A razão é que isso é algo que as pessoas precisam ter, e salva vidas”, Via Fox Business.

A Dimensão Geopolítica: Quando Dados Civis Viram Inteligência Militar

Israel Monitorando o que Iranianos Publicam

Uma das facetas mais complexas do Mahsa Alert é que ele transcendeu seu propósito original de proteção civil e passou a ter implicações militares que seus criadores talvez não tenham antecipado plenamente.

Segundo reportagem do The Free Press, existe um site onde iranianos comuns podem marcar geograficamente instalações militares-chave diretamente no mapa do país, e o site funciona mesmo durante os apagões de internet impostos pelo regime.

Desde pelo menos o início da guerra, a inteligência israelense tem usado essas informações para ajudar a identificar alvos, como locais de lançamento de mísseis.

Isso coloca o aplicativo em um território ético complicado. Por um lado, ele genuinamente protege civis ao informar sobre zonas de perigo, instalações médicas e rotas de evacuação.

Por outro, os dados fornecidos voluntariamente pelos próprios iranianos se tornam, potencialmente, informações de inteligência usadas para conduzir ataques militares.

Ahmadian é consciente desse dilema e busca ser rigoroso na verificação justamente para evitar que o aplicativo seja instrumentalizado por qualquer lado.

O caso da denúncia falsa sobre o dormitório feminino universitário é um exemplo claro de como grupos podem tentar manipular a plataforma para fins propagandísticos.

Tabela: Recursos do Mahsa Alert

RecursoDescrição
Mapa de ataques confirmadosMarcadores verificados por vídeos e imagens de redes sociais
Alertas de evacuaçãoAvisos emitidos pelas Forças de Defesa de Israel em persa
Denúncias de usuáriosRelatos enviados pela comunidade, sujeitos a verificação
Instalações médicasHospitais e bancos de sangue mapeados
Câmeras de vigilânciaMais de 18.000 posições de câmeras CFTV identificadas
Postos de controlePossíveis checkpoints do governo sinalizados
Modo offlineFunciona sem internet após download inicial
Atualizações levesPacotes de cerca de 100 kilobytes para economizar dados
MultiplataformaDisponível como site, app iOS e app Android

A Longa História de Aplicativos que Nascem onde os Governos Falham

Hong Kong, EUA e Ucrânia: um Padrão que se Repete

O Mahsa Alert não é o primeiro caso de tecnologia civil surgindo para preencher um vazio deixado pela omissão ou pelo autoritarismo de governos. Há um padrão claro, que se repete em diferentes conflitos e contextos políticos ao redor do mundo.

Em 2019, a Apple removeu da App Store o aplicativo HKmap Live, que era usado para monitorar os movimentos das forças policiais em Hong Kong durante os protestos pró-democracia.

A ferramenta permitia que manifestantes evitassem confrontos com a polícia, mapeando em tempo real onde os agentes estavam atuando.

Nos Estados Unidos, a mesma Apple removeu aplicativos como o ICEblock, que monitorava as atividades de agentes do Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE, na sigla em inglês).

O Departamento de Justiça americano chegou a investigar se a empresa violou a Primeira Emenda ao ceder às pressões para remover esses aplicativos.

Em 2022, o governo ucraniano de Volodymyr Zelensky criou um chatbot no Telegram logo depois da chegada das tropas russas, para que os cidadãos que ainda permaneciam no país reportassem ao exército ucraniano as movimentações das tropas inimigas.

O usuário era convidado a enviar todos os detalhes possíveis sobre os militares, como equipamentos, contingente e localização exata. Fonte: Canaltech

A escolha do Telegram não foi por acaso. Se o governo ucraniano tivesse criado um aplicativo independente, o Kremlin poderia pedir à Apple e ao Google que o removessem das respectivas lojas, algo que seria inviável de conseguir com o Telegram.

Naquele mesmo período, foi descoberto que soldados russos podiam ser rastreados por meio do aplicativo “Encontrar”, da Apple, porque não resistiam à tentação de roubar AirPods das casas de civis ucranianos.

As minúsculas etiquetas de rastreamento acabavam entregando as posições das tropas sem que ninguém precisasse fazer nada de especial.

O Desafio da Desinformação em Tempo de Guerra

Quando a Mentira pode Custar uma Vida

Construir uma ferramenta baseada em dados coletados colaborativamente em uma zona de guerra é, por natureza, uma aposta arriscada. Ao contrário de um sistema oficial de alerta, que tem fontes controladas e autorizadas, o Mahsa Alert depende de um fluxo constante de informações vindas de pessoas comuns que podem estar erradas, assustadas, ou deliberadamente querendo enganar.

É por isso que o processo de verificação é tratado como a espinha dorsal do projeto. A equipe criou uma camada de “ataques confirmados” que só inclui locais verificados por investigadores por meio de vídeos ou imagens compartilhadas em redes sociais. Apenas após essa confirmação a informação é marcada no mapa com a classificação mais grave.

Ahmadian fez questão de destacar que o governo iraniano é consciente do poder do aplicativo e tenta explorá-lo: “Ao aumentar o número de vítimas civis, eles alimentam sua guerra de propaganda.”

Além disso, o regime tenta intimidar a população com ameaças diretas por SMS, desestimulando qualquer pessoa de dentro do país a contribuir com informações para o aplicativo, o que torna o trabalho dos voluntários ainda mais delicado.

O que o Mahsa Alert Revela sobre a Tecnologia e o Poder

Quando Cidadãos Fazem o que Governos não Fazem

A existência e o sucesso do Mahsa Alert levantam uma pergunta incômoda: por que uma ferramenta de sobrevivência tão básica precisa ser construída por voluntários, financiada de forma independente e mantida sob constante ameaça de ataques digitais?

A resposta está no controle da informação. Para muitos governos autoritários, um sistema de alerta de emergência eficiente para a população civil seria ao mesmo tempo uma admissão de vulnerabilidade e uma perda de controle sobre a narrativa. Manter os cidadãos desinformados, paradoxalmente, é uma forma de poder.

O Mahsa Alert é uma resposta tecnológica direta a essa lógica. Cada notificação enviada pelo aplicativo é uma pequena vitória da transparência sobre o sigilo, da comunidade sobre o Estado.

Ahmadian resume bem essa tensão: “Esta não é a nossa guerra. Nunca foi a nossa guerra.” O que ele está dizendo, nas entrelinhas, é que o conflito armado pertence aos governos e aos exércitos, mas a responsabilidade de proteger vidas civis não pode ser deixada exclusivamente nas mãos de quem está conduzindo a guerra.

O Futuro dos Aplicativos de Crise

O padrão que o Mahsa Alert representa, assim como o chatbot ucraniano no Telegram e o HKmap Live em Hong Kong, aponta para uma tendência que tende a crescer: em contextos onde o Estado falha ou se omite, a tecnologia civil vai preencher o vazio.

Esse fenômeno levanta questões importantes para pesquisadores de segurança, desenvolvedores e formuladores de políticas públicas. Como garantir a privacidade dos usuários em zonas de conflito?

Como proteger as infraestruturas digitais dessas ferramentas de ataques patrocinados por Estados? Até que ponto plataformas como a Apple e o Google devem ou não remover aplicativos sob pressão governamental?

Não há respostas simples para nenhuma dessas perguntas. Mas enquanto o debate acadêmico e jurídico avança em velocidade de paz, em Teerã e em outras cidades iranianas, pessoas estão usando um aplicativo de 100 kilobytes para tentar sobreviver ao dia seguinte.

A Tecnologia como Ato de Resistência

O Mahsa Alert não é apenas um aplicativo. É um manifesto em código, um ato coletivo de desobediência civil no espaço digital, e uma prova de que a criatividade humana encontra saídas mesmo nas situações mais extremas.

Em um país onde menos de 1% da população tem acesso à internet, onde o governo ameaça por SMS quem compartilhar informações, e onde antenas de satélite são contrabandeadas por fronteiras como se fossem mercadoria proibida, um grupo de engenheiros e ativistas conseguiu construir algo que o Estado iraniano deliberadamente recusou-se a criar: uma ferramenta de proteção para sua própria gente.

Enquanto o regime iraniano prioriza seus objetivos além das fronteiras em detrimento de seu próprio povo, é a sociedade civil, organizada em torno de ferramentas digitais, que tenta preencher esse vazio com informação verificada, dados georreferenciados e um mapa que talvez salve a vida de alguém que não sabe que está perto demais de um alvo.

Se você quer acompanhar o desenvolvimento do Mahsa Alert ou apoiar iniciativas de liberdade digital, o site oficial do aplicativo é mahsaalert.app e a organização responsável, a Holistic Resilience, pode ser encontrada em holisticresilience.org.

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