Se você está pensando em comprar um notebook novo nos próximos meses, talvez seja hora de antecipar essa decisão. Segundo uma análise publicada pela firma de pesquisa de mercado TrendForce em março de 2026, os preços dos notebooks tradicionais podem saltar até 40% ainda neste ano.
Não é um rumor de fórum tecnológico: é uma projeção baseada em dados reais do mercado de semicondutores, com implicações sérias para consumidores, empresas e revendedores no mundo inteiro, incluindo o Brasil.
A notícia foi amplamente coberta por portais internacionais especializados como o PCWorld e o Tom’s Hardware, duas das publicações de tecnologia mais respeitadas do planeta. E embora o número pareça assustador, ele faz sentido quando você entende o encadeamento de fatores que estão pressionando a cadeia de suprimentos da indústria de computadores portáteis.
Memória RAM, armazenamento em SSD (disco de estado sólido, muito mais rápido que os HDs tradicionais) e processadores: os três pilares fundamentais de qualquer notebook estão ficando simultaneamente mais caros e mais escassos. E por trás de tudo isso está, de forma crescente, a demanda da inteligência artificial.
Por que os preços dos notebooks podem subir 40% em 2026
A projeção da TrendForce e o que ela significa na prática
A TrendForce é uma empresa taiwanesa de pesquisa de mercado especializada no setor de tecnologia e semicondutores, reconhecida globalmente por suas análises sobre a cadeia de suprimentos de chips. Quando ela publica uma projeção, a indústria presta atenção.
E o que ela diz sobre 2026 é direto: se fabricantes, distribuidores e varejistas quiserem manter suas margens de lucro diante do aumento dos custos de componentes, o preço final dos notebooks vai subir expressivamente.
O cálculo é relativamente simples de acompanhar. Um notebook popular, vendido atualmente em torno de 900 dólares nos Estados Unidos, poderia facilmente chegar a mais de 1.200 dólares mantendo as mesmas especificações. Isso representa um salto de mais de 33%, e dependendo do modelo e da configuração, esse percentual pode chegar perto dos 40% projetados.
No Brasil, onde o preço dos eletrônicos já sofre a incidência de impostos de importação e variação cambial, o impacto potencial é ainda mais preocupante.
Leia também: Crise Global de Memória RAM: Preços disparam até 246% e escassez deve durar até 2028
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Memória RAM e SSD: os componentes que mais pesam na conta
Para entender a crise, é necessário entender o peso desses componentes no custo total de um notebook. Antes da atual escalada de preços, a memória RAM e o armazenamento em SSD representavam juntos cerca de 15% do custo total de fabricação de um notebook convencional. Esse número, segundo a TrendForce, está caminhando rapidamente para ultrapassar os 30% do custo total.

Isso significa que esses dois componentes, sozinhos, praticamente dobraram sua participação na estrutura de custo dos fabricantes. E a razão principal para esse fenômeno não é uma falha técnica nos processos de fabricação, nem um desastre natural que tenha destruído alguma fábrica importante.
A culpa é da inteligência artificial, ou mais precisamente, da demanda massiva por chips de memória de alta performance gerada pelos data centers que sustentam os modelos de IA generativa que todo mundo passou a usar nos últimos anos.
O que é memória RAM e por que ela ficou tão cara
A memória RAM (do inglês Random Access Memory, ou Memória de Acesso Aleatório) é o componente responsável por armazenar temporariamente os dados que o computador está usando em tempo real.
Quando você abre vários programas ao mesmo tempo, edita um documento enquanto ouve música e mantém dezenas de abas abertas no navegador, é a RAM que está sustentando tudo isso funcionando simultaneamente. Quanto mais RAM, mais tarefas você consegue executar ao mesmo tempo sem que o computador trave ou fique lento.
O problema é que os sistemas de inteligência artificial que rodam em grandes servidores, como os que alimentam chatbots, geradores de imagens e ferramentas de análise de dados, utilizam um tipo especial de memória chamado HBM (High Bandwidth Memory, ou Memória de Alta Largura de Banda). Esse tipo de memória é fabricado nos mesmos processos industriais que a RAM convencional dos notebooks.
Quando a demanda por HBM explodiu junto com o boom da IA, as fábricas de chips redirecionaram sua capacidade produtiva para esse segmento muito mais lucrativo. O resultado foi uma redução no volume disponível de memória para uso em computadores pessoais, causando escassez e empurrando os preços para cima.
SSD: o armazenamento também entrou na crise
O armazenamento em SSD, que utiliza chips de memória do tipo NAND Flash, passou pelo mesmo processo. Um SSD é essencialmente um conjunto de chips de memória flash interligados, muito mais rápidos e resistentes do que os HDs (discos rígidos magnéticos) tradicionais. Nos últimos anos, SSDs se tornaram padrão em praticamente todos os notebooks novos, especialmente nos segmentos intermediário e premium.
Mas a indústria de chips NAND também está sendo pressionada pela demanda de IA. Centros de dados precisam de armazenamento ultrarrápido em quantidades astronômicas para lidar com os dados que alimentam e são gerados pelos modelos de inteligência artificial.
Fabricantes como a Phison, importante player do setor, chegaram a alertar publicamente que a escassez de chips NAND poderia ser grave o suficiente para inviabilizar algumas empresas de eletrônicos de consumo em 2026. Com menos chips disponíveis para o mercado de notebooks, os preços naturalmente sobem.
O papel da inteligência artificial na escassez de componentes
Como a corrida da IA está engolindo os chips do seu próximo notebook
Existe uma ironia perversa no centro dessa crise. As empresas de tecnologia investiram bilhões de dólares para desenvolver ferramentas de inteligência artificial que prometem tornar a vida das pessoas mais fácil e produtiva. Mas ao fazer isso, elas criaram uma demanda tão intensa por semicondutores que agora está tornando mais difícil e mais caro para as pessoas comuns comprar os dispositivos que usariam para acessar essas mesmas ferramentas.
A pressão vem de múltiplas direções. Os hiperscalers, termo usado para descrever as grandes empresas de computação em nuvem como Amazon, Google, Microsoft e Meta, estão construindo data centers em ritmo acelerado e precisam de chips de memória em quantidades sem precedentes.
Eles pagam preços que nenhum fabricante de notebook consegue competir. Isso significa que, na prática, a capacidade produtiva que antes abastecia o mercado de computadores pessoais foi direcionada para esse segmento mais lucrativo.
IA agêntica e a nova pressão sobre os processadores
Se a pressão sobre a memória RAM e os SSDs já era conhecida desde o final de 2025, o ano de 2026 trouxe uma surpresa adicional: a inteligência artificial também começou a pressionar os processadores. Não apenas os chips de GPU (Unidade de Processamento Gráfico) usados em servidores de IA, mas os próprios CPUs (Unidade Central de Processamento), ou seja, os processadores convencionais presentes em notebooks e computadores de mesa.
Isso aconteceu principalmente por causa da chamada IA agêntica. Uma IA agêntica é um sistema de inteligência artificial capaz de executar tarefas complexas de forma autônoma, tomando decisões e realizando ações em sequência sem precisar de intervenção humana a cada passo.
Para funcionar de forma eficiente, esses sistemas demandam uma combinação de processadores, GPUs e chips de processamento de IA (os NPUs, ou Neural Processing Units) que criou uma nova onda de demanda por CPUs de alta performance. Tanto a Intel quanto a AMD relataram picos inesperados na demanda por seus processadores, especialmente os modelos voltados para servidores.
A Intel já começou a repassar os custos
A Intel, uma das maiores fabricantes de processadores do mundo, já deu sinais concretos de que os preços estão subindo. Segundo reportagem do Tom’s Hardware, a empresa elevou o preço de várias gerações de processadores modernos em até 20% em alguns mercados internacionais.
Para os chips de entrada, o aumento foi superior a 15%. Isso é significativo porque os processadores já representavam cerca de 30% do custo total de fabricação de um notebook antes desta alta.
Combinando o crescimento da participação da memória no custo total, que passou de 15% para mais de 30%, com a alta nos preços dos processadores, a TrendForce estimou que memória, armazenamento e CPU juntos agora correspondem a cerca de 58% do custo de materiais de um notebook típico.
Antes da crise, esse conjunto representava algo em torno de 45%. Essa diferença de 13 pontos percentuais no custo de materiais, quando multiplicada pelas margens de toda a cadeia de fornecimento desde o fabricante até o varejista, explica por que a estimativa de aumento no preço final ao consumidor é tão expressiva.
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O mercado de notebooks diante de uma transformação forçada
Modelos de entrada correm o risco de desaparecer
Uma das consequências mais preocupantes dessa escalada de preços é o que pode acontecer com os notebooks de entrada, aqueles modelos mais acessíveis que permitem que estudantes, trabalhadores e famílias de menor renda tenham acesso a um computador portátil funcional.
A IDC (International Data Corporation, uma empresa global de pesquisa e consultoria em tecnologia) alertou que o mercado de PCs como um todo pode encolher entre 5% e 9% em 2026 justamente por causa do encarecimento da memória.
Relatórios mais pessimistas chegam a sugerir que o segmento de PCs de entrada, aqueles que hoje custam entre 300 e 500 dólares, pode simplesmente deixar de existir até 2028 se a pressão sobre os componentes continuar no ritmo atual. Isso não é apenas uma questão de conforto tecnológico: significa acesso à educação, ao trabalho remoto, à informação. O impacto social de encarecer o hardware de forma tão abrupta é difícil de calcular, mas certamente não é trivial.
A Asus já sinalizou aumento de preços
A situação já está se materializando em decisões concretas de empresas. A Asus, uma das maiores fabricantes de notebooks do mundo, anunciou publicamente aumentos de preços em seus produtos a partir do início de 2026, citando explicitamente o aumento nos custos de RAM e armazenamento como o principal gatilho.
Isso significa que as projeções da TrendForce não são apenas teoria: são tendências que já estão em movimento.
Outras marcas devem seguir o mesmo caminho. Quando componentes críticos ficam mais caros para todos os fabricantes ao mesmo tempo, não há como absorver esses aumentos indefinidamente sem repassá-los para o consumidor.
Empresas que tentarem manter os preços por muito tempo correm o risco de operar no prejuízo ou de comprometer a qualidade dos produtos para compensar os custos, o que também prejudica o consumidor final.
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O mercado brasileiro de tecnologia já é historicamente mais caro do que os preços internacionais de referência sugeririam.
A combinação de impostos de importação, ICMS, PIS, COFINS e outras taxas faz com que um notebook que custa 900 dólares nos EUA chegue às prateleiras nacionais por valores muito superiores. Qualquer alta no preço base de fabricação, portanto, é amplificada pela estrutura tributária brasileira.
Além disso, a variação cambial é outro fator multiplicador. Se o dólar se valoriza em relação ao real no mesmo período em que os custos de componentes sobem em dólar, o consumidor brasileiro enfrenta uma pressão dupla.
Um aumento de 40% no preço base de um notebook, convertido para reais em um cenário de câmbio desfavorável, pode representar um salto muito maior no preço final ao consumidor nacional do que o percentual original sugere.
O que fazer diante desse cenário
Para quem está considerando comprar um notebook em 2026, algumas estratégias práticas fazem sentido. A primeira delas é evitar adiar demais a decisão.
Os modelos atualmente disponíveis ainda refletem preços anteriores à plena absorção dos aumentos de componentes pela cadeia varejista. Conforme os estoques antigos forem se esgotando e os novos lotes chegarem com custos mais altos, os preços nas lojas devem subir progressivamente.
Outra opção válida é considerar modelos recondicionados (aqueles que foram devolvidos ou usados brevemente e passaram por revisão técnica) de fabricantes confiáveis. Muitas marcas oferecem garantia nesses produtos e os preços costumam ser significativamente menores do que os dos modelos novos.
Também vale considerar se as especificações que você precisa realmente exigem um aparelho novo: um notebook com dois ou três anos de uso, em bom estado, pode atender perfeitamente às necessidades de uso cotidiano como navegação, trabalho em documentos e reuniões online.
Situação paradoxal da Apple no meio da crise
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Existe um dado peculiar que resume bem o absurdo da situação atual. Com os preços dos notebooks Windows subindo de forma tão acentuada, os modelos da Apple, historicamente conhecidos por serem mais caros do que as alternativas baseadas em Windows, podem acabar se tornando opções competitivas em termos de custo-benefício para uma parcela maior de consumidores.
Conforme reportado pelo Tom’s Hardware, um MacBook Air com chip M5, lançado com preço base de 1.099 dólares, incluindo 16 GB de memória unificada e 512 GB de armazenamento, pode se tornar mais atrativo do que um notebook Windows de especificações equivalentes caso esses subam para 1.200 dólares ou mais.
Isso porque a Apple fabrica seus próprios chips e tem mais controle sobre sua cadeia de suprimentos do que os fabricantes que dependem inteiramente de componentes externos da Intel, AMD, Samsung e Micron.
Como a Apple consegue navegar melhor nessa crise
A vantagem da Apple nesse contexto está na chamada integração vertical: em vez de comprar processadores de um fabricante, memória de outro e armazenamento de um terceiro, a empresa projeta seus próprios chips que integram processador, memória e outros componentes em um único pacote.
Isso não a torna imune à crise, já que ela também sofre pressão de custos, mas oferece maior flexibilidade para negociar e gerenciar sua cadeia de fornecimento.
Vale destacar, no entanto, que a Apple também está enfrentando pressões de custo de infraestrutura de IA. Relatórios recentes indicam que a demanda acelerada por memória RAM para sistemas de IA começou a comprimir os custos de componentes da empresa, o que eventualmente pode se refletir em preços mais altos também para os produtos da marca. A diferença é o timing e a intensidade do impacto.
O futuro próximo: quando os preços podem se estabilizar?
Há luz no fim do túnel?
A pergunta que muita gente faz é: quanto tempo vai durar essa pressão? A resposta honesta é que ninguém sabe ao certo. A construção de novas fábricas de chips, as chamadas fab plants (fábricas de semicondutores), leva anos e exige investimentos medidos em dezenas de bilhões de dólares.
Governos como o dos EUA, através do CHIPS Act (lei de incentivos à fabricação doméstica de chips), e países como o Brasil, Japão e a própria Coreia do Sul estão tentando estimular a expansão da capacidade produtiva, mas os resultados desses investimentos levam tempo para aparecer.
No curto prazo, enquanto a demanda de IA continuar crescendo mais rápido do que a capacidade de fabricação de chips puder acompanhar, a pressão sobre os preços de memória e armazenamento tende a persistir. Algumas análises sugerem que os próximos dois a três anos serão desafiadores.
Outras indicam que a situação pode se normalizar mais rapidamente caso a curva de investimento em novos data centers desacelere ou caso inovações tecnológicas permitam que os sistemas de IA operem com menos memória do que os modelos atuais.
O que a indústria pode fazer para mitigar o impacto
Fabricantes de notebooks estão explorando algumas saídas para tentar conter os aumentos de preço sem comprometer a atratividade dos produtos. Uma delas é oferecer configurações com menos memória e armazenamento do que o habitual como configuração padrão, deixando upgrades como itens opcionais pagos. Outra é buscar chips alternativos de fabricantes menores ou de regiões com estrutura de custo diferente.
Há também quem aposte que a pressão dos consumidores e o risco de queda nas vendas levarão os fabricantes a absorver parte dos custos adicionais em suas margens, especialmente nos segmentos mais competitivos do mercado. O risco real de perder market share pode ser um freio mais eficaz do que qualquer regulação para conter os aumentos mais extremos.
Prepare-se para pagar mais, mas seja inteligente na decisão
O aumento de até 40% no preço dos notebooks em 2026 não é um medo infundado nem uma especulação exagerada. É uma projeção embasada em dados concretos sobre a cadeia de suprimentos de semicondutores, confirmada por movimentos já observados no mercado, como os aumentos de preço anunciados pela Intel e pela Asus.
A convergência entre a escassez de memória RAM, a crise dos chips NAND para SSDs e a alta nos processadores, tudo isso amplificado pela demanda insaciável da inteligência artificial por recursos computacionais, criou uma tempestade perfeita para o setor de notebooks.
Para o consumidor comum, seja no Brasil ou em qualquer outro lugar do mundo, o recado é claro: se você precisa de um notebook novo nos próximos meses, agir com antecedência pode fazer uma diferença financeira real.
Se sua necessidade não é urgente, vale a pena acompanhar a evolução dos preços e considerar alternativas como modelos recondicionados ou versões anteriores de aparelhos confiáveis. E para quem está planejando renovar o parque tecnológico de uma empresa, a urgência de uma análise criteriosa do custo-benefício nunca foi tão grande quanto agora.
A inteligência artificial prometeu transformar o mundo. Ela certamente está transformando, inclusive o preço do hardware que os humanos precisam para acessá-la.








