Há exatamente 15 anos, Tim Cook assumia o cargo mais difícil da indústria tecnológica: suceder Steve Jobs na Apple. Era uma tarefa que muitos consideravam impossível, não por falta de competência de Cook, mas porque Jobs havia se tornado sinônimo da própria empresa. O que aconteceu desde então é uma das histórias mais improváveis e impressionantes do mundo corporativo.
Nesta segunda-feira, 20 de abril de 2026, a Apple anunciou que essa Era está chegando ao fim, pelo menos no que diz respeito ao cargo de CEO. Tim Cook Deixa o Comando da Apple no dia 1º de setembro e se tornará presidente executivo do conselho.
Em seu lugar, assumirá John Ternus, o engenheiro de 50 anos que passou os últimos 25 anos construindo os produtos físicos que definem a Apple moderna. Da transição do Mac para o Apple Silicon ao iPhone Air, Ternus esteve presente nos bastidores de praticamente tudo que a Apple lançou na última década.
A transição foi aprovada pelo conselho de administração na sexta-feira anterior ao anúncio. É a primeira mudança de CEO da Apple desde que Cook, agora com 65 anos, sucedeu Steve Jobs em 2011.
O Anúncio Que o Mercado Aguardava

A notícia não chegou completamente como surpresa. Rumores sobre a aposentadoria de Cook circulavam há meses, e o nome de Ternus havia emergido como o candidato mais provável com crescente consistência nas análises de mercado.
Ainda assim, o anúncio formal em uma segunda-feira de abril, sem o contexto de uma conferência de resultados ou evento da empresa, surpreendeu pelo timing.
A transição, anunciada nesta quarta-feira, surpreendeu o mercado, que esperava uma sucessão entre 2027 e 2031. Cook encerra seu ciclo com a Apple valendo US$ 4 trilhões, um salto monumental desde os US$ 350 bilhões que a empresa valia quando ele assumiu.
O comunicado oficial da Apple descreveu a transição como resultado de um “processo de planejamento de sucessão cuidadoso e de longo prazo”, aprovado por unanimidade pelo conselho de administração.
A linguagem escolhida é deliberada: deixa claro que nada foi apressado e que Ternus não é uma escolha de emergência, mas o desfecho de um planejamento que vinha sendo construído silenciosamente há anos.
Cook compartilhou o anúncio em uma declaração que equilibra gratidão pessoal e confiança inequívoca no sucessor: “Foi o maior privilégio da minha vida ser CEO da Apple e ter tido a confiança para liderar uma empresa tão extraordinária. John Ternus tem a mente de um engenheiro, a alma de um inovador e o coração para liderar com integridade e honra.
Ele é um visionário cujas contribuições para a Apple ao longo de 25 anos já são inúmeras, e sem dúvida é a pessoa certa para liderar a Apple rumo ao futuro.”
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Quem é John Ternus, o Oitavo CEO da Apple

Ternus, que com 51 anos tem quase a mesma idade que Cook tinha quando se tornou CEO, passou praticamente toda a sua carreira na Apple. Californiano de origem, estudou engenharia mecânica na Universidade da Pensilvânia, competiu no time universitário de natação e se formou em 1997.
Após uma breve passagem projetando headsets de realidade virtual numa pequena empresa chamada Virtual Research Systems, ingressou na equipe de design de produtos da Apple em 2001.
A trajetória de Ternus dentro da Apple é a de alguém que sempre esteve mais próximo dos produtos do que dos holofotes. Ele ascendeu devagar e de forma consistente: gerente de equipe três anos após entrar na empresa, vice-presidente de engenharia de hardware em 2013, e vice-presidente sênior da área em 2021, quando passou a integrar formalmente a equipe executiva.
Durante seu tempo na empresa, ele supervisionou o desenvolvimento de hardware em todas as categorias de produtos, sendo peça fundamental na introdução de linhas como o iPad e os AirPods, além de inúmeras gerações do iPhone, Mac e Apple Watch.
Sob a liderança de Ternus, o Mac vive um de seus momentos mais fortes, tornando-se mais potente e popular globalmente do que em qualquer outro momento de sua história de 40 anos.
Mas o capítulo mais significativo de sua carreira até aqui foi a transição do Mac, dos processadores Intel para o Apple Silicon, os chips desenvolvidos internamente pela Apple.
Esse projeto, anunciado na WWDC de 2020 e concluído em menos tempo do que qualquer analista havia previsto, é frequentemente citado como uma das jogadas técnicas mais bem-sucedidas da indústria de tecnologia da última década. E Ternus estava no centro dela.
Segundo o perfil na página da Apple, Ternus “foi um líder de destaque na transição em curso do Mac para os Apple Silicon”, os processadores próprios desenvolvidos pela Apple. Esta transição ditou a independência da Apple em relação à Intel.
O homem que assumirá a empresa também tem uma marca pessoal bem definida. Diferente do estilo mais reservado de Cook, Ternus apareceu com crescente frequência nos keynotes da Apple nos últimos anos, apresentando produtos e explicando decisões de engenharia diretamente ao público. Quando o iPhone Air foi anunciado, era Ternus no palco descrevendo os desafios de design.
Mais recentemente, seu nome está associado ao iPhone Air, o modelo mais fino já lançado pela empresa, e ao MacBook Neo, novo laptop da linha Mac.
O Estilo de Liderança: Engenheiro que Ficou Próximo da Equipe
Um detalhe revelador sobre o caráter de Ternus como líder veio de seu primeiro chefe na Apple, Steve Siefert. Quando Ternus foi promovido a gerente, teve a opção de se mudar para um escritório fechado em um andar superior. Escolheu ficar no espaço aberto, ao lado da sua equipe.
Quando Siefert se aposentou em 2011 e ofereceu o cargo ao seu sucessor natural, Ternus recusou o posto e preferiu permanecer com a equipe que já liderava.
Só em 2013, quando a escalada de responsabilidades tornou inevitável a mudança de função, ele assumiu o cargo de vice-presidente.
Essa postura, de preferir a proximidade com o trabalho e as pessoas em vez das formalidades hierárquicas, define a imagem que as pessoas que trabalharam com ele descrevem.
Em um lugar como a Apple, onde a cultura de produto é elevada ao nível de religião, um líder que vem das trincheiras da engenharia e que manteve esse vínculo ao longo de toda a carreira tem um perfil que ressoa fortemente.
As Mudanças na Estrutura de Liderança
A transição de CEO vem acompanhada de uma reorganização mais ampla na cúpula da Apple.
Johny Srouji, que atuava como vice-presidente sênior de tecnologias de hardware, assume o cargo de diretor de hardware da Apple com uma função ampliada.
Ele passará a supervisionar tanto a engenharia de hardware quanto as tecnologias, incluindo toda a estratégia de chips e semicondutores, desde o design dos processadores até os testes de durabilidade e confiabilidade. Srouji foi o arquiteto da estratégia de Apple Silicon e um dos engenheiros mais respeitados da empresa.

Srouji liderará a Engenharia de Hardware, reportando-se a Ternus. O atual CEO Tim Cook afirmou que Srouji foi fundamental na transição da Apple para o Apple Silicon.
Tom Marieb, atual vice-presidente de Integridade de Produto, assumirá o cargo de chefe de engenharia de hardware, reportando-se diretamente a Ternus.
No conselho de administração, Arthur Levinson, que presidiu o conselho de forma não executiva pelos últimos 15 anos, passará a atuar como diretor independente principal a partir de 1º de setembro.
Sua função será garantir o equilíbrio de poder entre o conselho, o presidente executivo Tim Cook e o novo CEO John Ternus.
O Legado de Tim Cook: De US$ 348 Bilhões a US$ 4 Trilhões
Qualquer avaliação de Cook como CEO começa e termina com um número: a Apple multiplicou seu valor de mercado por mais de dez vezes durante sua gestão. Mas reduzir o legado a um número financeiro é ignorar a complexidade e a abrangência do que foi construído.
Quando Cook assumiu em agosto de 2011, herdou uma empresa que havia acabado de lançar o iPhone 4 e estava em plena ascensão. Mas o iPhone era ainda um produto relativamente recente, e a Apple dependia fortemente do hardware como única fonte de receita significativa.
Sob Cook, a empresa expandiu para o wearable com o Apple Watch e os AirPods, criou um segmento de serviços que hoje responde por quase US$ 100 bilhões de receita anual, incluindo App Store, Apple Music, Apple TV+, Apple Arcade e Apple Pay.
Lançou o Apple Vision Pro, seu primeiro produto de realidade espacial. E conduziu a transição mais ousada da história do Mac, abandonando os processadores Intel em favor dos chips Apple Silicon desenvolvidos internamente.
Cook deixa um legado de expansão financeira e de serviços, incluindo Apple Music, Apple TV e Apple Pay, que hoje respondem por uma receita de US$ 100 bilhões.
Além dos números, Cook transformou a Apple em uma empresa que se posiciona publicamente em questões de privacidade, sustentabilidade, igualdade racial e política.
Sua capacidade de navegar as relações geopolíticas entre os Estados Unidos e a China, mercados igualmente críticos para a Apple, foi outro diferencial do seu mandato.
Cook manteve a cadeia de fornecimento da Apple operando em períodos de intensa tensão comercial, e seu relacionamento com diferentes administrações americanas permitiu que a empresa conseguisse isenções de tarifas e espaço para negociar em momentos críticos.
O Que Muda com Ternus: de Operador a Inventor
A diferença fundamental entre Cook e Ternus não é apenas de perfil pessoal. É uma diferença de arquétipo de liderança.
Jobs era o visionário de produto. Cook era o operador mestre, o arquiteto da cadeia de suprimentos, o diplomata corporativo que transformou a Apple em uma máquina financeira de eficiência sem precedentes. Ternus é o engenheiro, o homem que entende a Apple pelo que ela cria.
Em uma conversa citada amplamente nas análises sobre a sucessão, Steve Jobs teria dito ao biógrafo Walter Isaacson que Cook “conseguia fazer tudo” na empresa, mas que “Tim não é uma pessoa focada em produtos”. A observação não era crítica, era descritiva: os dois tinham papéis diferentes e complementares.
Ternus é, fundamentalmente, uma pessoa de produtos. Seu nome está associado a cada iPhone, iPad e Mac relevante dos últimos anos.
A questão que o mercado e os observadores da indústria estão fazendo é se um CEO focado em engenharia terá o perfil necessário para lidar com os desafios que estão além dos produtos: as guerras tarifárias, as regulações antitruste na Europa, as complexidades da cadeia de suprimentos na Ásia e, acima de tudo, o desafio de posicionar a Apple na corrida pela inteligência artificial.
Como Cook sai, a Apple enfrenta numerosos desafios, incluindo uma cadeia de suprimentos cada vez mais complexa, tensões geopolíticas, as tarifas do governo Trump e uma escassez de memória ligada à demanda explosiva por chips de IA.
É exatamente por isso que a decisão de Cook permanecer como presidente executivo com foco em relações governamentais faz tanto sentido estratégico. Ternus trará o foco no produto. Cook cuidará da diplomacia corporativa.
O Que Esperar do CEO Ternus
Ternus também lidera a Apple em áreas cruciais como confiabilidade e design sustentável. Ele foi responsável por introduzir técnicas que tornaram os produtos Apple mais resilientes e por inovações em materiais que reduzem a pegada de carbono da empresa.
Entre suas contribuições de destaque estão a criação de um novo composto de alumínio reciclado utilizado em diversas linhas de produtos e o uso de titânio impresso em 3D no Apple Watch Ultra 3.
A agenda imediata de Ternus já está definida pelo calendário da Apple. Seu primeiro grande teste público como CEO será o outono de 2026, período em que a empresa tradicionalmente lança a nova linha de iPhone.
Há rumores consistentes de que o iPhone 18 incluirá o iPhone Fold, o primeiro modelo dobrável da Apple, o que tornaria o lançamento um dos mais ambiciosos em anos.
Isso significa que Ternus, um engenheiro que passou 25 anos construindo produtos, assumirá o cargo de CEO possivelmente semanas antes de ter que apresentar ao mundo o produto mais complexo que a Apple já tentou fazer.
Ternus disse estar “cheio de otimismo” em relação ao que a Apple pode alcançar: “Tendo passado quase toda a minha carreira na Apple, tive a sorte de trabalhar com Steve Jobs e de ter Tim Cook como meu mentor.
Foi um privilégio ajudar a moldar os produtos e as experiências que mudaram tanto a forma como interagimos com o mundo e uns com os outros. Sinto-me honrado em assumir este cargo e prometo liderar com os valores e a visão que definem este lugar especial há meio século.”
Para quem acompanha a Apple há anos, há algo reconfortante no perfil do novo CEO. Assim como Jobs e Cook tinham expertises complementares que, combinadas, construíram a empresa mais valiosa do mundo, Ternus traz uma intimidade com o hardware e com os produtos que pode revitalizar o foco criativo da Apple num momento em que a indústria toda está sendo reformatada pela inteligência artificial. Sua tarefa não será manter o que Cook construiu, mas descobrir o que vem a seguir.














