Imagine acordar e descobrir que suas informações pessoais estão circulando na internet sem que você tenha autorizado nada. Seu CPF, seu endereço, seus dados bancários, talvez até seu histórico de saúde. Isso não é um cenário hipotético. É uma realidade que atinge cada vez mais brasileiros a cada ano que passa.
O Centro de Prevenção, Tratamento e Resposta a Incidentes Cibernéticos do Governo, conhecido pela sigla CTIR Gov, registrou em 2024 um total de 3.253 vazamentos de dados, segundo informações do site cdlcampina.org, maior número já contabilizado desde que o monitoramento começou.
Na mesma direção, a empresa de cibersegurança Surfshark apontou que o Brasil registrou 84,6 milhões de contas violadas ao longo de 2024, colocando o país entre os mais afetados no mundo. E segundo levantamento da Associação de Defesa de Dados Pessoais e do Consumidor, e publicado pelo NIC.BR os crimes digitais cresceram 45% em 2024 em relação ao ano anterior, somando cerca de 5 milhões de fraudes registradas.
Esses números impressionam, mas o mais importante não é só o volume. É o fato de que, segundo dados do instituto DataSenado, um em cada quatro brasileiros sofreu alguma tentativa de golpe digital, e metade dessas pessoas acabou se tornando vítima.
Ou seja, não estamos falando de um risco abstrato. Estamos falando de algo que pode estar acontecendo com você, com alguém da sua família ou com um colega de trabalho neste exato momento.
Neste artigo você vai entender o que é uma violação de dados pessoais, quais são as fraudes mais comuns que colocam suas informações em risco, como se proteger antes que um incidente aconteça, o que fazer durante e depois de uma exposição, e quais são seus direitos garantidos pela lei brasileira. Tudo isso de forma clara, detalhada e prática.
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O que é uma Violação de Dados Pessoais?
Antes de entrar nas estratégias de proteção, é importante entender exatamente do que estamos falando quando usamos o termo violação de dados pessoais.
De acordo com a Resolução CD/ANPD número 15, publicada em abril de 2024 e que aprovou o chamado Regulamento de Comunicação de Incidente de Segurança (RCIS), um incidente de segurança com dados pessoais é qualquer evento adverso confirmado, relacionado à violação das propriedades de confidencialidade, integridade, disponibilidade e autenticidade da segurança de dados pessoais, podendo decorrer de ações voluntárias ou acidentais que resultem em divulgação, alteração, perda ou acesso não autorizado a dados pessoais.
Traduzindo: uma violação acontece sempre que alguém acessa, usa, expõe, altera ou destrói informações suas sem que você tenha autorizado. Isso pode acontecer por um ataque cibernético deliberado, por uma falha técnica de um sistema mal configurado, ou simplesmente por um erro humano dentro de uma empresa que guarda os seus dados.
Há também uma distinção importante entre violação e vazamento, dois termos frequentemente usados como sinônimos, mas que têm significados distintos. A violação é o evento em si: o acesso não autorizado ou a exposição indevida.
O vazamento é a consequência: quando esses dados efetivamente circulam, são vendidos ou compartilhados em fóruns clandestinos. Uma violação pode acontecer sem que você saiba imediatamente. Em muitos casos, as empresas só descobrem que foram atingidas quando os dados das suas bases já estão disponíveis publicamente.
As Fraudes que mais ameaçam a sua Privacidade
Os criminosos digitais são criativos e adaptáveis. À medida que novas tecnologias surgem, novas formas de explorar dados pessoais aparecem junto. Conhecer as principais modalidades de fraude é a primeira linha de defesa.
Phishing: A Isca digital mais comum
O phishing, termo em inglês que pode ser traduzido como pescaria digital, é a fraude em que criminosos se passam por instituições confiáveis para roubar informações ou dinheiro. O mecanismo é simples: você recebe uma mensagem que parece vir do seu banco, de uma loja onde comprou, de um órgão do governo.
A mensagem pede que você clique em um link, atualize um cadastro ou confirme dados pessoais. Ao fazer isso, você entrega suas informações diretamente para quem está aplicando o golpe.
O phishing chega por email, por SMS (nesse caso chamado de smishing), por aplicativos de mensagens e até por ligação telefônica (chamado de vishing, do inglês voice phishing, ou phishing por voz). A sofisticação cresceu: mensagens de phishing modernas muitas vezes incluem seu nome correto, mencionam transações reais, usam o logotipo e a linguagem exata da instituição que estão imitando.
Spoofing: Quando o Criminoso assume uma Identidade falsa

O spoofing, que pode ser traduzido como falsificação ou personificação, é uma variação do phishing em que o golpista falsifica o número de telefone ou o endereço de email para fazer a mensagem parecer que vem de alguém que você conhece, como um amigo, um familiar ou o próprio banco.
Tecnicamente, o protocolo SMS tradicional não verifica se quem está enviando uma mensagem realmente é quem diz ser, o que torna esse tipo de falsificação relativamente simples para quem tem as ferramentas certas.
O golpe é particularmente perigoso porque o receptor tende a baixar a guarda quando vê um remetente familiar. A regra básica é nunca compartilhar informações pessoais por mensagem sem antes confirmar a identidade do remetente por um canal diferente, como uma ligação para o número oficial da pessoa ou empresa.
SIM Swap: Quando roubam a sua linha de Celular
O SIM Swap é um golpe mais técnico e por isso especialmente assustador. Nele, os criminosos convencem a operadora de telefonia a transferir seu número de celular para um chip novo que está em posse deles. Com o controle da sua linha, eles conseguem receber todas as mensagens destinadas a você, incluindo os códigos de autenticação de dois fatores enviados pelo banco.
Se o seu celular parar de receber sinal de repente, sem nenhuma razão aparente, esse é um sinal de alerta para o SIM Swap. Contate imediatamente sua operadora para verificar se houve alguma alteração no seu chip.
Fraudes com o Código QR: O Perigo invisível
Com a popularização dos pagamentos via código QR, especialmente pelo Pix, os criminosos passaram a criar versões falsas desses códigos que redirecionam para sites maliciosos ou capturam informações de pagamento.
A prática ficou conhecida internacionalmente como QRishing, combinação de QR com phishing. Ao escanear um código QR em um ambiente público, como restaurantes, estacionamentos ou eventos, sempre verifique o endereço para o qual ele está direcionando antes de inserir qualquer dado.
Brushing Scam: Quando chegam Pacotes que você não pediu
O Brushing Scam, ou golpe de escovação em tradução livre, acontece quando você recebe encomendas de produtos que nunca comprou. Por mais estranho que pareça, há uma lógica criminosa por trás: golpistas usam seus dados pessoais para criar compras falsas em plataformas de venda e inflar artificialmente avaliações de produtos.
O perigo real está no fato de que alguém conseguiu seu endereço e informações pessoais suficientes para fazer isso. Isso indica que sua privacidade já foi comprometida de alguma forma.
Antes que aconteça: Como proteger os seus Dados no dia a dia
A melhor resposta a uma violação de dados é evitar que ela aconteça. As estratégias preventivas são mais simples do que parecem e, na maioria dos casos, não exigem nenhum investimento financeiro. Exigem, principalmente, atenção e mudança de hábitos.
Senhas fortes e Exclusivas para cada Conta
Uma senha fraca é uma porta aberta. Datas de aniversário, sequências numéricas como 123456, o próprio nome ou o nome de um familiar são as primeiras combinações que ferramentas de ataque cibernético testam. Uma senha forte combina letras maiúsculas e minúsculas, números e caracteres especiais, e tem pelo menos 12 caracteres de extensão.
Mas tão importante quanto a força da senha é a exclusividade: nunca use a mesma senha em mais de uma conta. Se um serviço onde você tem cadastro sofrer uma violação e sua senha vazar, o criminoso vai tentar essa mesma combinação em um email, nos Bancos e nas Redes Sociais. Usar senhas diferentes para cada serviço limita o estrago a um único ponto.
Gerenciadores de senhas como Kaspersky Password Manager, 1Password ou o gerenciador nativo do seu celular resolvem o problema de memorização: você cria uma senha forte e única para cada serviço, e o gerenciador guarda tudo em um cofre protegido por uma única senha mestra.
Autenticação de Dois Fatores: A Segunda Camada que faz a diferença

A autenticação de dois fatores, conhecida pela sigla 2FA ou pela expressão em inglês Two-Factor Authentication, adiciona uma camada extra ao processo de login. Mesmo que alguém descubra sua senha, ainda precisaria de uma segunda verificação para acessar a sua conta.
Essa segunda verificação pode ser um código enviado por SMS, uma notificação em um aplicativo autenticador ou uma chave física. Entre essas opções, aplicativos autenticadores como Google Authenticator, Authy ou Microsoft Authenticator são os mais seguros, porque geram códigos localmente no seu dispositivo sem depender do sistema de telecomunicações. O SMS como segundo fator ainda é muito melhor do que nenhuma autenticação, mas é mais vulnerável ao golpe de SIM Swap.
Ative a autenticação de dois fatores em todas as suas contas prioritárias: e-mail (Geralmente é um serviço utilizado para recuperação e alteração de senhas, Bancos, Redes Sociais, serviços de armazenamento em nuvem e qualquer plataforma onde você tenha informações pessoais ou financeiras.
Cuidado com o que você Compartilha Online
Cada dado que você publica ou preenche em formulários online é uma informação que pode eventualmente ser usada de forma indevida. Isso não significa viver de forma paranoica e não usar nenhum serviço digital, mas significa ser mais seletivo.
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Nas redes sociais, evite deixar o número de telefone, endereço ou data de nascimento visíveis para qualquer pessoa. Configure a privacidade das suas contas para que essas informações sejam visíveis apenas para seus contatos próximos. Em formulários online, questione se o serviço realmente precisa do seu celular ou se você está fornecendo por hábito. Cada cadastro é uma potencial fonte de vazamento.
Mantenha os Dispositivos e Aplicativos Atualizados
Atualizações de software não existem apenas para adicionar recursos novos. Boa parte delas corrige vulnerabilidades de segurança que criminosos poderiam explorar para acessar seus dados. Manter o sistema operacional do celular, os aplicativos e o antivírus sempre atualizados é uma das formas mais simples e eficazes de manter a sua segurança digital.
Cuidado com Redes Wi-Fi Públicas
Redes de Wi-Fi públicas, como as de shoppings, aeroportos, cafés ou hotéis, são ambientes de risco para transações sensíveis. Em uma rede pública mal configurada, alguém com o conhecimento técnico adequado pode interceptar o tráfego de dados que passa por ali.
Se precisar usar uma rede pública, evite acessar o aplicativo do banco, fazer compras com cartão ou inserir senhas. Se o uso for inevitável, use uma VPN, sigla para Virtual Private Network, que em português significa Rede Virtual Privada. A VPN cria um túnel criptografado entre o seu dispositivo e a internet, protegendo os dados em trânsito mesmo em redes potencialmente hostis.
Monitore as suas Contas com frequência
Ativar as notificações de movimentação no aplicativo do banco é um hábito simples que pode alertar sobre transações suspeitas imediatamente. Verifique periodicamente também seus extratos de cartão de crédito e seu histórico de transações Pix.
O Registrato, serviço gratuito do Banco Central, permite consultar todas as contas, chaves Pix e operações de crédito vinculadas ao seu CPF, sendo uma ferramenta útil para identificar registros que você não reconhece.
Durante o incidente: Como agir nas primeiras horas?
Apesar de todos os cuidados preventivos, nenhum sistema de proteção é absolutamente infalível. Os incidentes envolvendo sequestro de dados, também chamado de ransomware, e de exploração de vulnerabilidades de sistemas de informação, além do roubo de credenciais e fraudes com base em engenharia social, continuam sendo os tipos mais comuns de incidentes comunicados à ANPD, ampliando o alerta de que as medidas de segurança da informação precisam ser objeto de maior atenção por parte dos agentes de tratamento de dados.
Se você suspeitar ou descobrir que seus dados foram expostos, a velocidade de reação é determinante para minimizar os danos.
Identifique o que aconteceu
O primeiro passo é entender a extensão do problema. Quais dados podem ter sido expostos? Foi um acesso à sua conta bancária, ao seu email, a um serviço de compras, a um aplicativo do plano de saúde? A resposta a essa pergunta define quais ações devem ser tomadas com mais urgência.
Você pode ter descoberto o incidente de formas variadas: recebeu uma notificação da empresa afetada, percebeu uma movimentação financeira que não fez, tentou acessar uma conta e descobriu que a senha foi alterada, ou viu seu nome mencionado em relatos de um vazamento público. Em qualquer desses casos, a reação deve ser imediata.
Existe um serviço gratuito chamado Have I Been Pwned, em português “Eu fui comprometido”, disponível em haveibeenpwned.com, que permite verificar se seu endereço de email aparece em bases de dados vazadas conhecidas. É uma ferramenta útil para ter uma dimensão do problema.
Altere todas as Senhas imediatamente
Assim que identificar que uma conta foi comprometida, altere a senha daquela conta e de todas as outras que usam a mesma combinação. Priorize as contas mais sensíveis: e-mail principal, Banco, Serviços de pagamento, Redes Sociais com acesso a dados pessoais.
Escolha senhas novas e únicas para cada serviço, sem reutilizar combinações anteriores. Se tiver dificuldade em gerenciar tantas senhas diferentes, é o momento de começar a usar um gerenciador de senhas.
Notifique as Instituições Financeiras
Se houver qualquer indício de que os dados bancários ou de cartão de crédito foram expostos, entre em contato imediatamente com o banco pelo canal oficial, seja o aplicativo, o site ou o número impresso no verso do cartão. Informe sobre o incidente e solicite o bloqueio preventivo do cartão se necessário. Peça também para revogar acessos a aplicativos de terceiros vinculados à sua conta.
Guarde registros de todos os contatos feitos: data, hora, nome do atendente e protocolo de atendimento. Essa documentação pode ser necessária caso você precise acionar autoridades ou comprovar que tomou as medidas devidas.
Registre um Boletim de Ocorrência
Se a violação resultou em prejuízo financeiro ou se há indícios de crime, registrar um boletim de ocorrência é importante por dois motivos: serve como prova formal do ocorrido e pode iniciar uma investigação pelas autoridades. Muitos Estados têm Delegacias Especializadas em crimes cibernéticos, onde o atendimento é mais adequado para esse tipo de ocorrência.
Depois do incidente: Seus Direitos e como exercê-los
O Brasil tem uma lei de proteção de dados pessoais que garante direitos concretos aos cidadãos. Conhecer esses direitos é fundamental para saber o que exigir quando algo dá errado.
O que diz a LGPD
A Lei Geral de Proteção de Dados, a LGPD, é a lei número 13.709, sancionada em agosto de 2018 e vigente desde setembro de 2020. Ela estabelece regras para a coleta, armazenamento, uso e compartilhamento de dados pessoais por empresas e órgãos públicos, e garante ao cidadão uma série de direitos sobre suas próprias informações.
De acordo com a lei, todo titular de dados, ou seja, qualquer pessoa cujos dados sejam tratados por uma organização, tem o direito de saber quais informações estão sendo coletadas e com qual finalidade, de solicitar correção de dados incorretos ou desatualizados, de pedir a exclusão de dados desnecessários ou tratados de forma irregular, de revogar o consentimento dado anteriormente, de receber informações sobre o compartilhamento de seus dados com terceiros, e de ser notificado sobre os incidentes de segurança que possam lhe causar risco ou dano.
Esse último ponto é especialmente relevante: o artigo 48 da LGPD determina que é dever do controlador comunicar à Autoridade Nacional de Proteção de Dados e ao titular de dados pessoais a ocorrência de incidente de segurança que possa acarretar risco ou dano relevante aos titulares.
Isso significa que a empresa que guarda os seus dados tem a obrigação legal de te avisar se algo acontecer com eles. Se você descobriu um vazamento por conta própria antes de receber qualquer comunicação da empresa responsável, isso já pode configurar um descumprimento legal.
Quem fiscaliza o cumprimento da LGPD
A Autoridade Nacional de Proteção de Dados, a ANPD, é o órgão federal responsável por fiscalizar o cumprimento da LGPD e aplicar sanções a quem descumprir a lei.
O ano de 2024 representou um período de grande amadurecimento institucional e regulatório para a ANPD, que exerceu seu papel como peça central no fortalecimento do sistema brasileiro de proteção de dados pessoais, buscando alinhar as exigências da LGPD às melhores referências internacionais.
As sanções que a ANPD pode aplicar incluem advertências, publicização da infração, bloqueio ou eliminação dos dados pessoais relacionados à irregularidade, suspensão parcial do funcionamento de Banco de dados e multas que podem chegar a 2% do faturamento da empresa, com limite de R$ 50 milhões por infração.
Como Apresentar uma Petição de Titular à ANPD?
Se você tentou exercer algum dos seus direitos diretamente com a empresa que guarda os seus dados, como pedir a exclusão de informações ou solicitar acesso ao histórico de tratamento, e não foi atendido adequadamente, você pode encaminhar uma petição de titular à ANPD.
A petição de titular é uma solicitação formal ao órgão regulador feita pelo próprio titular dos dados quando ele não consegue exercer seus direitos perante o controlador, que é o nome técnico dado à empresa ou organização que trata seus dados.
Desde janeiro de 2025, o envio de petições de titular e denúncias à ANPD é feito exclusivamente pelo Sistema de Requerimentos, acessível pelo portal Gov.br. O processo exige autenticação com o login Gov.br e a apresentação de documentação que comprove a tentativa prévia de contato com o controlador: número de protocolo de atendimento, mensagens trocadas, orientações recebidas. Sem essa comprovação, a petição pode não ser aceita.
É importante entender que a ANPD geralmente analisa os requerimentos de forma agregada, identificando padrões que afetam múltiplos titulares, e não necessariamente intervém de forma individual em cada caso. Para situações em que você sofreu um dano específico, como uma fraude financeira decorrente de um vazamento, a via judicial pode ser mais eficaz.
Como Registrar uma Denúncia à ANPD

Diferente da petição de titular, a denúncia não precisa ser vinculada a uma situação específica sua. Qualquer pessoa pode denunciar à ANPD uma prática de uma empresa que viole a LGPD, mesmo que você não seja diretamente afetado.
Exemplos de situações que podem ser denunciadas incluem a ausência de política de privacidade em um site, a coleta de dados sem justificativa aparente, a falta de um canal de contato para exercício de direitos, ou o tratamento de dados de forma discriminatória.
As denúncias também são enviadas pelo Sistema de Requerimentos no portal Gov.br, e podem ser feitas de forma anônima, desde que acompanhadas de elementos que comprovem o que está sendo relatado. Para denúncias anônimas, basta marcar a opção correspondente no formulário.
A ANPD reforça que casos envolvendo crimes, como fraudes financeiras ou roubos de identidade, devem ser encaminhados às autoridades policiais competentes, já que a atuação do órgão é de natureza administrativa, não criminal.

O Impacto além do Financeiro: Saúde Mental e Recuperação Emocional
Há um aspecto das violações de dados que raramente recebe atenção adequada: o impacto emocional. Descobrir que suas informações pessoais estão expostas e que pessoas desconhecidas podem estar usando seu nome, CPF ou Dados Bancários gera uma sensação real de invasão de privacidade, perda de controle e vulnerabilidade.
Pesquisas na área de psicologia digital mostram que vítimas de fraudes e violações de dados frequentemente relatam sentimentos de ansiedade, desconfiança e medo de novas exposições. Esses efeitos podem persistir mesmo depois que o problema técnico é resolvido.
Reconhecer esse impacto é o primeiro passo. Se os sentimentos de angústia forem intensos ou persistirem por muito tempo, buscar apoio de um profissional de saúde mental é uma medida legítima e necessária. Assim como você age para proteger seus dados, agir para proteger seu bem-estar emocional é igualmente importante.
O Cenário Corporativo: As Obrigações das Empresas e o que muda para você
Enquanto os cuidados individuais são fundamentais, é importante entender que boa parte da responsabilidade pela proteção dos seus dados recai sobre as organizações que os coletam e armazenam. Essa é a premissa central da LGPD.
De acordo com o levantamento da empresa de cibersegurança Check Point Research, o Brasil registrou uma média de 1.100 ataques cibernéticos por organização por semana em 2024, um aumento de 30% em relação ao ano anterior.
Além disso, segundo a Cisco, 92% dos consumidores consideram que as empresas têm a responsabilidade de proteger seus dados, e 76% afirmaram que não comprariam de companhias que não demonstrassem cuidado com a privacidade.
Empresas que integraram a LGPD à sua cultura organizacional perceberam benefícios como maior fidelização de clientes e redução de riscos jurídicos. Outro aprendizado importante foi a necessidade de mapear e categorizar os dados pessoais tratados, pois muitas autuações ocorreram porque as empresas não tinham clareza sobre quais dados possuíam, como eram utilizados e por quanto tempo eram armazenados.
Do ponto de vista do cidadão, isso significa que antes de contratar um serviço, fazer um cadastro ou fornecer dados pessoais a uma empresa, vale a pena verificar se ela tem uma política de privacidade acessível, se indica um encarregado de dados para contato (o chamado DPO, do inglês Data Protection Officer, ou Encarregado de Proteção de Dados) e se demonstra transparência sobre o que faz com as informações coletadas. Esses são sinais de uma organização que leva a proteção de dados a sério.
Quando o Problema envolve um Órgão Público
Uma particularidade do Brasil é que algumas das violações mais significativas dos últimos anos envolveram órgãos governamentais. Um incidente de segurança expôs dados pessoais sensíveis de beneficiários e segurados do INSS, com mais de 40 milhões de consultas ao Sistema Corporativo de Benefícios realizadas sem justificativa operacional, envolvendo o uso de credenciais válidas por meio de convênio entre o INSS, Controladoria Geral da União e a Advocacia Geral da União.
Em outro caso relevante, um incidente no Sistema de Cadastro e Permissão de Acesso expôs dados pessoais de milhões de brasileiros, com uma vulnerabilidade que permitia a consulta pública de informações relacionadas ao CPF e outros dados sensíveis, como nome, endereço e dados de saúde, por meio de uma API sem qualquer autenticação.
Esses casos ilustram que nem mesmo órgãos públicos estão imunes a falhas graves de segurança. Quando o responsável pelos seus dados é uma entidade governamental, os canais de denúncia incluem a ANPD, o Ministério Público e, nos casos com impacto financeiro ou dano comprovado, a via judicial.
A perspectiva para os próximos anos
O número de incidentes comunicados à ANPD permaneceu estável entre 2023 e 2025, ficando na média dos 350 incidentes por ano, com um pequeno aumento de 8% de 2024 para 2025. Ainda predominam os incidentes envolvendo sequestro de dados e exploração de vulnerabilidades de sistemas de informação, além do roubo de credenciais e fraudes com base em engenharia social.
Nos próximos anos, a integração da inteligência artificial nos sistemas de segurança digital deve trazer avanços na detecção de ameaças, mas também novos riscos. Golpes baseados em IA já conseguem criar mensagens personalizadas em escala, sintetizar vozes humanas para enganar vítimas por telefone e gerar imagens falsas convincentes. A corrida entre quem ataca e quem defende continua.
O que permanece constante, independentemente da tecnologia, é que o cidadão informado é muito mais difícil de enganar. Cada pessoa que entende como funcionam essas ameaças, que cuida dos seus dados com atenção e que conhece seus direitos representa uma barreira a mais para os criminosos digitais.
Proteger dados pessoais não é uma tarefa pontual que você conclui e esquece. É um hábito contínuo que precisa acompanhar a evolução do cenário digital. Ative as proteções disponíveis, monitore suas contas, questione os serviços que coletam suas informações, e saiba que quando algo der errado, você tem direitos e caminhos concretos para reivindicá-los.









