A Meta acaba de anunciar uma das aquisições mais significativas e controversas de sua história, de acordo com uma reportagem exclusiva do The Wall Street Journal: a compra da Manus, startup de inteligência artificial sediada em Singapura com raízes chinesas, por um valor superior a 2 bilhões de dólares.
O que torna esse negócio ainda mais impressionante é a velocidade com que foi fechado: apenas 10 dias de negociação, segundo fontes próximas à transação.
As aquisições bilionárias normalmente levam meses, com análises legais, negociações complexas e aprovações regulatórias. Fechar um negócio desse porte em menos de duas semanas demonstra tanto a urgência da Meta em garantir a tecnologia da Manus quanto o desejo da startup de se juntar a uma das maiores empresas de tecnologia do mundo.
Segundo o businessinsider, a Meta compra a Startup de IA Manus, desenvolvedora de agentes de IA de propósito geral com sede em Singapura, em um movimento que marca a quinta aquisição relacionada a inteligência artificial que a empresa fez apenas em 2025. Esse ritmo acelerado de compras demonstra a estratégia agressiva de Mark Zuckerberg para posicionar a Meta como líder absoluta na corrida da IA.
Mas este negócio vem com uma reviravolta política significativa. A Meta comprometeu-se publicamente a encerrar completamente os laços restantes da Manus com a China, incluindo eliminar totalmente a participação acionária chinesa e fechar operações comerciais no país asiático. Em um ambiente geopolítico cada vez mais tenso entre Estados Unidos e China, essa decisão não é apenas estratégica, é praticamente obrigatória.
Quem é a Manus e por que todo mundo está falando dela?

A Manus explodiu na cena tecnológica em março de 2025 com um vídeo de demonstração que causou furor no Vale do Silício. O vídeo mostrava um agente de IA executando tarefas complexas de forma completamente autônoma: realizando uma triagem de candidatos para vagas de emprego, planejando férias detalhadas, analisando portfólios de ações e até construindo sites funcionais do zero.
O que diferenciava a Manus de chatbots tradicionais como ChatGPT ou Gemini era sua abordagem fundamentalmente diferente. Enquanto chatbots convencionais reagem a cada interação de forma isolada, respondendo perguntas e resumindo informações, os agentes da Manus são capazes de planejar, decidir e executar ações encadeadas a partir de instruções gerais do usuário.
Para entender melhor, imagine pedir a um chatbot tradicional para encontrar um apartamento de dois quartos em determinada localização. Ele provavelmente forneceria links para sites de imóveis e algumas sugestões gerais.
Agora imagine pedir isso a um agente Manus. Ele imediatamente começaria a pesquisar ativamente em múltiplos sites, compararia preços, analisaria localizações, verificaria disponibilidade, compilaria uma lista detalhada com pros e contras de cada opção e apresentaria tudo em um relatório organizado, tudo sem você precisar dar instruções adicionais.
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Desde o lançamento, a Manus processou mais de 147 trilhões de tokens e criou mais de 80 milhões de computadores virtuais. Esses números são impressionantes e demonstram a escala de adoção que a startup alcançou em apenas alguns meses. A empresa afirmou ter alcançado receita recorrente anual de mais de 100 milhões de dólares apenas oito meses após o lançamento, com taxa de crescimento superior a 125 milhões de dólares.
A Manus opera através de computadores virtuais hospedados na nuvem, ambientes simulados onde os agentes podem executar tarefas como se estivessem usando um computador real. Eles podem navegar na internet, usar ferramentas digitais, escrever código, analisar dados e concluir projetos completos de forma autónoma e contínua, com a mínima intervenção humana.
As Raízes Chinesas e a Controvérsia Política
Aqui está onde a história fica politicamente complicada. A Manus começou como produto da empresa chinesa Butterfly Effect, também conhecida como Monica.Im, fundada em Pequim em 2022, antes de se mudar para Singapura em meados de 2025. Essa origem chinesa imediatamente levantou bandeiras vermelhas em Washington.
Em maio de 2025, o senador John Cornyn, republicano do Texas e membro sênior do Comitê de Inteligência do Senado, criticou publicamente o investimento americano na Manus. Em uma postagem no X, Cornyn questionou se o capital americano deveria apoiar empresas de IA com raízes na China, citando preocupações com a competição econômica e militar com Pequim.
A crítica de Cornyn veio após relatos de que a Benchmark, renomada empresa americana de capital de risco, participou de uma rodada de financiamento de 75 milhões de dólares para a Manus em abril de 2025, que avaliou a startup em 500 milhões de dólares pós-investimento.
Outros investidores chineses importantes também haviam apostado na empresa, incluindo Tencent, ZhenFund e HSG, anteriormente conhecida como Sequoia China, através de uma rodada anterior de 10 milhões de dólares.
Ser duro com a China tornou-se uma das genuinamente poucas questões bipartidárias no Congresso americano. Democratas e republicanos concordam que empresas de tecnologia com vínculos chineses representam riscos potenciais à segurança nacional, especialmente em áreas sensíveis como inteligência artificial. O escrutínio sobre investimentos em IA ligados à China intensificou-se nos últimos anos.
A Meta claramente antecipou essas preocupações e tomou medidas proativas. Um porta-voz da empresa disse em comunicado que a aquisição permitirá fornecer a tecnologia mais avançada aos usuários, com medidas de segurança implementadas para eliminar áreas de risco potencial. Crucialmente, não haverá participação acionária chinesa na Manus após a transação, e a empresa encerrará completamente seus serviços e operações na China.
O Que exatamente a Meta está comprando?
Vamos ser específicos sobre o que torna a tecnologia da Manus tão valiosa que justifica um investimento de mais de 2 bilhões de dólares. A startup se posicionou como uma camada de execução para IA, focada em transformar modelos avançados em sistemas capazes de realizar trabalho no mundo real.
Os agentes da Manus utilizam um sistema multi-agente alimentado por vários modelos distintos trabalhando em conjunto. Quando você dá uma tarefa complexa, como desenvolver um site completo ou conduzir análise financeira detalhada, o sistema divide essa tarefa em subtarefas, atribui diferentes agentes especializados para diferentes partes, coordena a execução e integra os resultados em um produto final coeso.
Por exemplo, se você pedir para a Manus selecionar o melhor candidato para uma vaga de emprego avaliando aplicações armazenadas em um arquivo ZIP, o agente pode abrir o arquivo compactado, ler todos os documentos contidos, avaliar cada candidato de acordo com critérios definidos por você, comparar qualificações, experiências e adequação cultural, e finalmente produzir um documento ranqueando candidatos por aptidão para a função, tudo automaticamente.
Testes iniciais realizados por jornalistas em março de 2025 destacaram tanto a ambição do produto quanto suas deficiências. Houve casos de dados distorcidos e erros de execução em tarefas particularmente complexas. Mas a empresa trabalhou arduamente desde então para tornar esses recursos mais confiáveis e úteis em uma gama crescente de casos de uso no mundo real, segundo comunicado da própria Manus.
A Meta planeja integrar essa tecnologia em seus produtos para consumidores e empresas, incluindo especificamente a Meta AI, o assistente de inteligência artificial da empresa já disponível no Facebook, Instagram e WhatsApp. Isso significa que potencialmente bilhões de pessoas terão acesso a agentes de IA autônomos capazes de executar tarefas complexas diretamente dentro dos aplicativos que já usam diariamente.
Encerrando laços com a China: Como será feito

A Meta foi extraordinariamente específica sobre como planeja cortar completamente os vínculos da Manus com a China, reconhecendo que declarações vagas não seriam suficientes dada a sensibilidade política do negócio.
Primeiro, todas as participações acionárias chinesas serão eliminadas. Investidores chineses que atualmente detêm partes da Manus serão comprados ou suas participações serão canceladas como parte da reestruturação pós-aquisição. Após a conclusão da transação, nenhum investidor chinês terá qualquer participação financeira na empresa.
Segundo, as operações comerciais limitadas da Manus na China serão completamente encerradas. Isso inclui especificamente fechar o negócio da assistente de IA Monica.cn, que era a manifestação comercial da Butterfly Effect no mercado chinês. Todos os serviços oferecidos diretamente a clientes chineses serão descontinuados.
Terceiro, funcionários relevantes serão realocados. Não está claro quantos funcionários da Manus ainda estão baseados na China continental, mas aqueles que escolherem se juntar à Meta como parte da aquisição precisarão se mudar para Singapura ou outras localidades aprovadas. A Meta confirmou que funcionários da Manus que se juntarem à empresa não terão acesso aos dados coletados diretamente dos clientes da Meta.
Quarto, a Meta continuará a restringir o acesso aos seus modelos de IA através de bloqueio geográfico. Isso significa que usuários localizados na China não poderão acessar serviços baseados em tecnologia Manus através de plataformas da Meta, mesmo que teoricamente tivessem acesso ao Facebook, ao Instagram ou ao WhatsApp através de VPNs.
A Manus manterá sua sede operacional em Singapura, onde a empresa já havia se mudado em meados de 2025. Singapura tem se posicionado como um hub neutro para tecnologia asiática, atraindo empresas que querem servir mercados globais sem as complicações geopolíticas de estar sediadas na China ou mesmo em Hong Kong.
A Estratégia mais ampla de IA da Meta
Esta aquisição não acontece em um vácuo, mas sim como parte de uma estratégia muito mais ampla e agressiva da Meta para dominar o espaço de inteligência artificial. Mark Zuckerberg transformou completamente as prioridades da empresa, fazendo da IA o foco central, superando até mesmo suas ambições anteriores para o metaverso.
A Meta comprometeu-se com pelo menos 70 bilhões de dólares em despesas de capital em 2025, com expectativa de gastar ainda mais em 2026. A maior parte desse investimento está indo para construção de data centers para hospedar cargas de trabalho de IA. Estamos falando de infraestrutura em uma escala que poucas empresas no mundo podem igualar.
A aquisição da Manus é a quinta compra relacionada a IA que a Meta fez apenas em 2025. Anteriormente, a empresa adquiriu as startups de IA PlayAI e WaveForms, a desenvolvedora de aceleradores Rivos e a desenvolvedora de dispositivos vestíveis Limitless. Cada uma dessas aquisições trouxe capacidades específicas que se encaixam na visão maior da Meta para IA.
Mas o negócio mais significativo antes da Manus foi a aquisição de 49% de participação na Scale AI por 14,3 bilhões de dólares em junho de 2025. Esse negócio foi amplamente visto como uma manobra para trazer o fundador e CEO Alexandr Wang para a equipe de liderança de IA da Meta, para trabalhar nos projetos de superinteligência da empresa. Pagar mais de 14 bilhões por 49% de uma empresa essencialmente para recrutar seu CEO demonstra até onde Zuckerberg está disposto a ir.

A Meta também tem oferecido pacotes de compensação de oito dígitos para atrair os melhores talentos de IA para a empresa. Engenheiros e pesquisadores de ponta estão recebendo ofertas que incluem salários, bônus e ações que totalizam dezenas de milhões de dólares. Essa guerra de talentos está redistribuindo profissionais entre Google, OpenAI, Anthropic, Meta e outras empresas líderes.
Agentes de IA: A Próxima Fronteira
Para entender por que a Meta pagou mais de 2 bilhões pela Manus, precisamos entender por que agentes de IA representam a próxima grande fronteira na tecnologia de inteligência artificial.
Chatbots generativos como ChatGPT, Claude e Gemini são impressionantes, mas fundamentalmente limitados. Eles são excelentes para responder perguntas, resumir informações, escrever textos e manter conversas. Mas não podem realmente fazer coisas no mundo digital de forma autônoma. Cada interação é isolada, e o usuário precisa guiar o processo passo a passo.
Agentes de IA autônomos, por outro lado, recebem objetivos de alto nível e descobrem como alcançá-los de forma independente. Eles podem planejar sequências complexas de ações, usar múltiplas ferramentas digitais, adaptar-se quando encontram obstáculos e persistir até completar tarefas, tudo sem supervisão constante.
Em 2025, agentes de IA explodiram em popularidade no mundo empresarial. Agentes de codificação como CodeGPT, GitHub Copilot, Replit e Jules transformaram desenvolvimento de software, permitindo que programadores trabalhem muito mais rapidamente. Empresas como Salesforce e ServiceNow lançaram frotas de agentes de IA projetados para automatizar trabalho em indústrias verticais específicas.
A Manus é diferente porque é um agente de propósito geral. Em vez de ser especializado em codificação ou vendas ou atendimento ao cliente, pode teoricamente lidar com qualquer tarefa que você normalmente faria em um computador. Essa generalidade é simultaneamente seu maior trunfo e seu maior desafio, porque tarefas verdadeiramente gerais são extremamente difíceis de automatizar de forma confiável.
A visão da Meta é clara: integrar agentes de IA autônomos diretamente nas plataformas que bilhões de pessoas já usam diariamente. Imagine pedir ao seu assistente no WhatsApp para pesquisar e reservar viagens, e ele realmente faz isso de ponta a ponta. Ou dizer à Meta AI no Instagram para analisar tendências de mercado e preparar um relatório, e receber um documento profissional completo. Essas capacidades transformariam fundamentalmente como pessoas interagem com tecnologia.
Desafios e Riscos do Negócio
Apesar do entusiasmo e dos números impressionantes, esta aquisição não está isenta de desafios e riscos significativos. Vamos ser honestos sobre o que pode dar errado.
Primeiro, a tecnologia ainda é imatura. Mesmo os melhores agentes de IA autônomos cometem erros, falham em tarefas complexas e às vezes produzem, alucinações, resultados incorretos ou sem sentido. Colocar essa tecnologia nas mãos de bilhões de usuários não técnicos através do Facebook e WhatsApp pode resultar em frustrações se não funcionar confiavelmente.
Segundo, questões de privacidade e segurança são enormes. Agentes autônomos precisam de acesso extensivo a dados e sistemas para funcionar. Como garantir que eles não vazam informações sensíveis, não são manipulados por atores mal-intencionados ou não causam danos acidentalmente? A Meta já enfrenta escrutínio intenso sobre privacidade de dados, e adicionar agentes de IA poderosos ao mix complica ainda mais a situação.
Terceiro, o escrutínio regulatório será inevitável. Governos ao redor do mundo estão começando a regular inteligência artificial, e agentes autônomos capazes de executar ações no mundo real levantam questões legais complexas. Quem é responsável quando um agente de IA comete um erro que causa dano financeiro ou de outra natureza?
Quarto, a integração técnica e cultural será desafiadora. A Manus tem sua própria cultura de startup, tecnologia proprietária e formas de trabalhar. Integrar isso na Meta, uma das maiores empresas de tecnologia do mundo com processos e sistemas estabelecidos, nunca é simples. Muitas aquisições de tecnologia falham não por problemas técnicos, mas por choques culturais.
Quinto, a concorrência está feroz. Google, OpenAI, Anthropic, Microsoft e dezenas de outras empresas também estão desenvolvendo agentes de IA. A janela de vantagem competitiva pode ser menor do que a Meta espera, especialmente considerando que muitas dessas tecnologias acabarão se tornando commodities.
O que vem a seguir
Então, para onde vamos a partir daqui? A Meta disse que continuará operando e vendendo o agente Manus como uma oferta separada por enquanto, mantendo o serviço de assinatura através do aplicativo e site da empresa. Isso permite que usuários atuais da Manus continuem usando o serviço sem interrupção.
Simultaneamente, a tecnologia será gradualmente integrada ao ecossistema da Meta. Espere ver recursos baseados em agentes Manus começarem a aparecer na Meta AI nos próximos meses. Provavelmente começarão com casos de uso específicos e bem definidos, expandindo progressivamente para tarefas mais complexas conforme a confiabilidade melhora.
A Meta está testando um produto de assinatura chamado Meta AI Plus, segundo relatos. A tecnologia da Manus parece uma boa adequação para esse tipo de oferta premium, onde usuários pagariam uma taxa mensal para acesso a capacidades avançadas de agentes de IA que vão além do que está disponível gratuitamente.
Para o mercado mais amplo de IA, esta aquisição sinaliza que agentes autônomos estão se movendo da fase experimental para implantação mainstream. Quando uma empresa do tamanho da Meta aposta mais de 2 bilhões de dólares em agentes de IA, outras empresas prestam atenção e aceleram seus próprios programas.
Também estabelece um precedente interessante para startups de IA com origens chinesas. A disposição da Meta de adquirir a Manus, desde que todos os laços com a China sejam cortados, sugere um caminho para outras empresas similares. Contanto que estejam dispostas a romper completamente com investidores e operações chinesas, podem encontrar compradores americanos.
Para Xiao Hong, CEO da Manus, e sua equipe, juntar-se à Meta representa oportunidade de escalar sua tecnologia para bilhões de pessoas de uma forma que nunca seria possível como startup independente. Em comunicado, Hong disse que o acordo permite construir sobre uma base mais forte e sustentável sem mudar como a Manus funciona ou como decisões são tomadas.
Uma aposta bilionária no futuro da IA
Para a Meta, este negócio traz capacidades técnicas avançadas, uma equipe talentosa e comprovadamente capaz, e um produto que já demonstrou tração real no mercado com milhões de usuários pagantes. A empresa está apostando que integrar agentes de IA em seus produtos sociais criará uma vantagem competitiva sustentável.
Para a indústria mais ampla, este negócio acelera a corrida para desenvolver e implantar agentes de IA capazes. Quando uma das maiores empresas de tecnologia do mundo faz uma aposta tão grande, forças outras empresas a responderem ou arriscarem ficar para trás.
E para as relações entre Estados Unidos e China no espaço tecnológico, esta aquisição estabelece um template interessante: empresas com raízes chinesas podem encontrar caminhos para mercados americanos, mas apenas se estiverem dispostas a cortar completamente laços com a China. Isso pode ser insatisfatório para ambos os lados, mas representa um compromisso pragmático em um mundo cada vez mais dividido por tensões geopolíticas.
Nos próximos meses e anos, descobriremos se a aposta de Mark Zuckerberg na Manus valeu a pena. Se os agentes de IA autônomos provarem ser tão transformadores quanto seus defensores afirmam, essa aquisição será lembrada como um momento decisivo. Se falharem em cumprir suas promessas, será apenas mais um exemplo de hype superando a realidade em um mundo sempre otimista da inteligência artificial.








