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Centros de Dados Orbitais da SpaceX Podem Cegar os Maiores Telescópios da Terra, Alertam Cientistas

SpaceX

Em janeiro de 2026, enquanto preparava a abertura de capital da SpaceX na Nasdaq, Elon Musk disse ao Fórum Econômico Mundial em Davos: “O lugar de menor custo para processar IA estará no espaço, e isso será verdade em dois anos, talvez três no máximo.”

Dias depois, a SpaceX formalizou essa visão numa petição à Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos (FCC, do inglês “Federal Communications Commission”): uma constelação de até 1 milhão de satélites em órbita terrestre baixa, operando entre 500 e 2.000 quilômetros de altitude, que funcionariam como fazendas de servidores alimentadas por energia solar. A empresa batizou o projeto de AI1.

Conforme o SpaceNews, numa entrevista à CNBC em 12 de junho de 2026, a presidente da SpaceX, Gwynne Shotwell, confirmou que a empresa espera lançar os primeiros satélites de centros de dados em 2027. “Acredito que lançaremos os satélites AI1 completos no final do próximo ano, mas colocaremos capacidade de computação em alguns dos satélites Starlink de banda larga e Starlink Mobile antes disso”, disse ela.

Essa declaração transformou o que parecia uma visão de longo prazo num plano com prazo concreto. E a comunidade astronômica, que já lutava com os efeitos da constelação Starlink existente, reagiu com alarme.

Segundo o Robert Massey, vice-diretor executivo da Real Sociedade Astronômica Britânica (RAS), “isso é realmente intolerável. É absolutamente a destruição de uma parte central do patrimônio humano.”

O Estado Atual do Céu: o Problema que Já Existe

O Starlink Mudou o Céu para Sempre

Para entender o que está em jogo com os centros de dados orbitais, é preciso primeiro entender o problema que o Starlink já criou.

A Starlink, subsidiária da SpaceX, já conta com aproximadamente 10.400 satélites em órbita. Antes de 2022, a humanidade havia lançado apenas cerca de 14.450 satélites no total em toda a história. Em menos de quatro anos, a SpaceX sozinha colocou no céu um número equivalente a dois terços de tudo que a humanidade havia lançado ao espaço em décadas.

Esse crescimento já produziu consequências mensuráveis para a astronomia. Satélites deixam rastros brilhantes nas imagens dos telescópios, corrompendo observações que podem levar horas ou dias para ser repetidas, quando podem ser repetidas. Astrônomos desenvolveram softwares para mascarar pixels contaminados, mas conforme o Tony Tyson, professor de pesquisa da Universidade da Califórnia em Davis e cientista-chefe do Observatório Vera C. Rubin, mesmo com esse software, a perda de dados de dezenas de milhares de satélites é considerável.

O que são rastros de satélites nas imagens de telescópios? Quando um satélite passa pelo campo de visão de um telescópio durante uma exposição longa, ele deixa uma linha brilhante na imagem, chamada de rastro. Isso acontece porque o satélite reflete luz solar enquanto se move rapidamente através do campo de visão, enquanto o telescópio está fixo numa estrela ou galáxia distante. A linha brilhante pode obscurecer objetos celestes importantes ou impossibilitar a análise científica da imagem afetada.

Conforme o SpaceNews, apesar dos esforços colaborativos entre astrônomos e a SpaceX para reduzir o brilho dos satélites, os problemas persistem. Os atuais satélites Starlink V2 Mini têm brilho de magnitude 5, acima do limite recomendado de magnitude 7 para minimizar impactos em telescópios como o Observatório Vera C. Rubin. Os próximos e maiores satélites Starlink V3 serão ainda mais brilhantes.

O que é magnitude astronômica? É a escala logarítmica usada para medir o brilho de objetos celestes. Quanto menor o número, mais brilhante é o objeto. Estrelas visíveis a olho nu têm magnitude entre 1 e 6. Uma estrela de magnitude 5 é perceptível em céus escuros sem instrumentos. O limite recomendado de magnitude 7 para satélites significa que eles deveriam ser mais fracos do que a maioria das estrelas visíveis a olho nu. Os atuais Starlink V2 Mini, com magnitude 5, já ultrapassam esse limite.

O Estudo da ESO: o que as Simulações Mostram

1,7 Milhão de Satélites Propostos: um Cenário Sem Precedentes

A situação atual, já preocupante, pode se tornar radicalmente pior. Empresas propuseram o lançamento de 1,7 milhão de satélites adicionais em órbita terrestre baixa nos próximos anos, um número que um novo estudo revisado por pares da Observatório Europeu do Sul (ESO) diz que teria consequências devastadoras para a astronomia, potencialmente cegando os telescópios mais poderosos do mundo e alterando permanentemente o céu noturno como a humanidade o conhece há milênios.

SpaceX

O que é o ESO (Observatório Europeu do Sul)? O ESO (do inglês “European Southern Observatory”) é uma organização intergovernamental de pesquisa astronômica que opera alguns dos maiores e mais avançados telescópios do mundo, localizados principalmente no Chile. Fundado em 1962, o ESO é financiado por 16 países europeus mais o Brasil, e opera instalações como o Very Large Telescope (VLT) no deserto do Atacama. O ESO conduz pesquisa fundamental sobre o universo, de planetas próximos a galáxias distantes, e é uma das principais vozes institucionais na defesa do céu escuro.

O estudo da ESO, liderado pelo astrônomo Olivier Hainaut, com mais de trinta anos de experiência no observatório, modelou o impacto de diferentes cenários de população de satélites nos telescópios terrestres. Sua conclusão foi direta: não mais que 100.000 satélites, todos mais fracos que a visibilidade a olho nu na magnitude aparente 7 ou mais fraca, poderiam ser acomodados sem causar danos graves às observações astronômicas.

O VLT: 28% do Campo de Visão Comprometido

O Very Large Telescope da Europa, atualmente um dos telescópios ópticos mais poderosos do planeta, localizado no Observatório de Paranal no Chile, perderia até 28% de sua capacidade de imageamento para rastros de satélites. Isso significa que, em qualquer exposição de longa duração, mais de um quarto dos pixels da imagem seria potencialmente corrompido por satélites passando.

O que é o Very Large Telescope (VLT)? O VLT é o principal instrumento de observação do ESO, localizado no Observatório de Paranal, no deserto do Atacama chileno, a uma altitude de 2.635 metros. Na verdade, é um conjunto de quatro telescópios principais, cada um com um espelho de 8,2 metros de diâmetro, que podem ser usados separadamente ou em conjunto como um único telescópio interferométrico. O VLT é responsável por algumas das imagens e descobertas mais importantes da astronomia moderna, incluindo a primeira imagem de um exoplaneta e observações detalhadas do buraco negro supermassivo no centro da Via Láctea.

O Observatório Vera C. Rubin: Horas de Inutilização por Noite

O Observatório Vera C. Rubin no Chile, projetado para mapear todo o céu austral e central para detectar asteroides próximos à Terra, teria a maioria de suas imagens inutilizáveis por várias horas todas as noites durante os períodos de crepúsculo, quando os satélites captam luz solar enquanto o céu está escuro.

O que é o Observatório Vera C. Rubin e qual é sua importância? O Observatório Vera C. Rubin (anteriormente chamado de LSST, do inglês “Large Synoptic Survey Telescope”) é um telescópio de levantamento de larga escala localizado no Cerro Pachón, Chile. Ele foi projetado especificamente para varrer o céu noturno repetidamente, detectando objetos que mudam de posição ou brilho ao longo do tempo. Isso o torna o principal instrumento para detectar asteroides próximos à Terra que poderiam representar risco de colisão, além de ser valioso para estudar supernovas, galáxias distantes e a natureza da energia escura. A perda de horas de observação por noite afeta diretamente a capacidade de identificar ameaças de asteroides com antecedência suficiente para qualquer intervenção.

A perda de dados no Vera C. Rubin vai além de uma inconveniência científica. Ela compromete diretamente a capacidade de detectar asteroides potencialmente perigosos, rochas que poderiam ameaçar a Terra. Isso torna o problema uma questão de segurança planetária, não apenas de ciência.

Conforme destacado na análise do WebProNews, os telescópios terrestres permanecem indispensáveis para a defesa planetária. A detecção e o rastreamento de asteroides próximos à Terra que poderiam representar riscos de colisão dependem dessas instalações. Uma constelação de 1 milhão de satélites tornaria partes do levantamento efetivamente inutilizáveis durante certas horas.

O Projeto AI1: Como a SpaceX Imagina os Centros de Dados Orbitais

O que São os Satélites AI1

Em um vídeo publicado em 8 de junho de 2026, Ian Dahl, diretor de engenharia de satélites da SpaceX, explicou a arquitetura básica do projeto. Segundo Dahl, o desafio técnico central é entregar energia elétrica e depois remover o calor residual e a energia desperdiçada.

Conforme o SpaceNews, Musk descreveu o AI1 como simples em comparação com os satélites Starlink: “São muitos painéis solares, radiador, e todo o resto é bem pequeno em comparação.” A SpaceX argumenta que os satélites AI1 serão mais fáceis de produzir que os Starlink porque não terão antenas de arranjo de fase complexas para comunicações, usando em vez disso links de intersatélite a laser para os satélites Starlink.

A fábrica dos satélites AI1 está planejada para ser construída em Bastrop, Texas, a leste de Austin, onde a empresa já tem uma fábrica produzindo terminais Starlink.

A Escala que Desafia a Compreensão

A análise do IEEE Spectrum coloca os números em perspectiva com precisão técnica. Atualmente, existem aproximadamente 14.500 satélites ativos em órbita. A constelação Starlink da Musk representa cerca de dois terços desse total. Tanto o ritmo de lançamento quanto a capacidade de fabricação de satélites teriam que escalar astronomicamente para implantar 1 milhão de satélites de centros de dados orbitais.

Para colocar 1 milhão de satélites em órbita terrestre baixa usando o Starship da SpaceX, que é projetado para carregar até 60 satélites por veículo, seriam necessários 16.666 lançamentos exclusivamente dedicados a implantações de satélites. Considerando que a SpaceX lançou um recorde de 165 missões orbitais em 2025, mesmo com dez vezes esse ritmo, levaria uma década. E quanto tempo levaria para construir 1 milhão de satélites, dado o ritmo atual da Starlink de cerca de 4.000 por ano e um aumento de dez vezes na capacidade?

Esses números do IEEE Spectrum fazem parte de uma análise mais ampla que questiona a viabilidade econômica do projeto. Mas o debate regulatório e astronômico não espera confirmação de viabilidade econômica: o pedido na FCC já existe, e a SpaceX já afirma que os primeiros satélites serão lançados em 2027.

O Problema Físico do Resfriamento no Espaço

Uma análise da engenharia de resfriamento revela outro desafio que o texto original da proposta não aborda. Resfriar até uma única GPU Nvidia H100 no espaço é difícil: ela consome 700 watts, o que exigirá 1,4 metro quadrado de radiador a 60°C. Um rack de servidores de 40 quilowatts precisará de um radiador de 80 metros quadrados. Um centro de dados de 100 megawatts exigirá 2.500 desses radiadores.

Esses radiadores enormes não são apenas um problema de engenharia. São exatamente a estrutura que os astrônomos temem: painéis grandes e planos que refletem luz solar para a Terra como espelhos involuntários.

O que é a Síndrome de Kessler? É um cenário teórico proposto pelo cientista da NASA Donald Kessler em 1978, no qual a densidade de objetos em órbita terrestre baixa atinge um ponto crítico onde colisões entre satélites geram detritos, que causam novas colisões, num ciclo de retroalimentação que poderia tornar a órbita terrestre baixa inutilizável por gerações. Com 1 milhão de satélites adicionais numa faixa de altitude já congestionada, a probabilidade de colisões aumenta exponencialmente. Uma cadeia de reação de colisões poderia potencialmente isolar a humanidade da órbita terrestre de forma permanente.

O Problema Paralelo: os Espelhos Orbitais da Reflect Orbital

Um Segundo Projeto Igualmente Preocupante

Os centros de dados orbitais da SpaceX não são a única ameaça que os astrônomos enfrentam. Paralelamente, a startup californiana Reflect Orbital propõe uma constelação de 50.000 satélites espelho projetados para refletir feixes de luz solar de volta para áreas direcionadas da Terra, com o objetivo declarado de expandir a produção de energia solar, estender as estações agrícolas e até substituir iluminação pública em cidades.

Se aprovada pela FCC, a Reflect Orbital pretende lançar seus 50.000 satélites até 2035. Onde os satélites convencionais deixam rastros brilhantes nas imagens dos telescópios, 50.000 satélites espelho projetados para refletir luz solar fariam algo mais fundamental: aumentariam o brilho geral do céu noturno em três a quatro vezes o nível atual.

SpaceX

Isso não é um problema que pode ser resolvido agendando observações em torno das passagens de satélites. Um céu que é três a quatro vezes mais brilhante no ponto de partida significa que objetos mais fracos, galáxias distantes, exoplanetas fracos, a luz mais antiga do universo, simplesmente não podem ser detectados da superfície terrestre, independentemente de quão avançado seja o telescópio.

De acordo com a Northeastern University, a adição de novos pontos de luz no céu noturno também perturbaria os ciclos naturais de dia e noite dos quais a maioria da vida depende. Pássaros usam as estrelas para navegar e determinar seus padrões de migração. A adição de mais “estrelas” artificiais perturbaria esses comportamentos biologicamente desenvolvidos com resultados desastrosos. Polinizadores como abelhas também seriam profundamente impactados pela criação de mais luz artificial.

A Sociedade Astronômica Americana (AAS) já apresentou uma petição à FCC para negar o projeto da Reflect Orbital. A FCC recebeu mais de 1.500 comentários formais sobre a aplicação da Reflect Orbital, a grande maioria da comunidade científica.

O Vácuo Regulatório: Quem Está no Controle?

A FCC e os Limites da Sua Autoridade

A SpaceX tem um pedido na FCC para implantar até 1 milhão de centros de dados orbitais, alarmando astrônomos que alertam que a constelação poderia devastar as observações terrestres, a defesa planetária e o recurso compartilhado do céu noturno, tudo enquanto os reguladores carecem de autoridade clara para intervir.

Essa combinação, grande escala, cronograma acelerado e vácuo regulatório, é o que mais preocupa a comunidade científica. Conforme John Barentine, pesquisador de poluição luminosa citado no Space.com, “a presunção agora é que a aplicação deve ser aprovada e que cabe às pessoas que possam objetar provar que há um problema de algum tipo. O fato de terem acelerado essa aplicação, que tem efeitos potencialmente enormes não apenas para a astronomia, mas também para o meio ambiente, e fazê-lo sem conduzir uma revisão ambiental completa, é preocupante.”

A RAS, a mais antiga sociedade astronômica do mundo, juntou-se a um crescente grupo de instituições de pesquisa que registram objeções à FCC contra as propostas da SpaceX e da Reflect Orbital.

A Posição da SpaceX: Soluções Técnicas Como Resposta

A SpaceX, por sua vez, rejeita o enquadramento catastrófico. A empresa argumenta que suas equipes de engenharia trabalham cooperativamente com a comunidade astronômica e que soluções tecnológicas, como satélites mais escuros, software de previsão de trajetórias e algoritmos de pós-processamento, podem mitigar os piores efeitos. A empresa aponta para o design VisorSat e os experimentos DarkSat anteriores como evidências de boa fé.

Mas os críticos observam que essas medidas foram implementadas apenas após pressão pública sustentada, e que a SpaceX nunca concordou com limites de brilho vinculantes. E mesmo as medidas existentes não foram suficientes: os satélites V2 Mini ainda excedem os limites de magnitude recomendados, e os próximos V3 serão mais brilhantes ainda.

Conforme o professor Tyson no encontro das Academias Nacionais em 4 de junho de 2026, “não estou vendo muitos sinais de mudanças técnicas ou de política para mitigar o impacto dos centros de dados orbitais. Haverá impactos importantes na astronomia óptica a partir de 2027. A próxima geração jovem de astrônomos vai ter que lidar com isso.”

A Lógica Econômica por Trás do Projeto

Por que Musk Quer Servidores no Espaço

Para entender a proposta, é preciso compreender a lógica econômica que a motiva. Em vez de competir por terra e eletricidade na Terra, a infraestrutura de IA está se encaminhando para a órbita para capitalizar a energia solar constante e o resfriamento natural pelo vácuo do espaço.

O pedido da SpaceX à FCC argumenta que essa mudança não apenas desbloquearia eficiências de custo transformadoras, mas também aliviaria a carga ambiental sobre os recursos planetários.

A verticalidade do modelo também é relevante. Conforme a análise do IEEE Spectrum, a empresa tem um modelo de negócios verticalmente integrado: ela constrói os foguetes, os satélites e as estações terrestres, o que lhe dá uma estrutura de custos que nenhum concorrente pode atualmente igualar. Além disso, o pedido da FCC chegou horas depois de relatos de que a SpaceX estava em discussões para se fundir com a xAI, a startup de inteligência artificial de Musk.

Mas viável para quem? Essa é a pergunta que os astrônomos continuam fazendo. O céu noturno é um recurso compartilhado, um que antecede qualquer corporação ou governo. Comunidades indígenas, astrônomos amadores e bilhões de pessoas no mundo em desenvolvimento têm relações culturais e práticas com um céu desobstruído que nenhuma análise de custo-benefício captura completamente. A astronomia profissional, por sua vez, é um bem público financiado em grande parte pelos contribuintes. Os telescópios ameaçados pelas constelações de satélites foram construídos com dinheiro público para responder a perguntas fundamentais sobre o universo.

O que Está em Jogo Além da Astronomia

O Direito ao Céu Escuro

O debate sobre os centros de dados orbitais vai além de uma disputa técnica entre astrônomos e engenheiros de satélites. Ele levanta questões fundamentais sobre propriedade de recursos compartilhados, governança de novas tecnologias e o papel dos reguladores num momento em que a tecnologia avança mais rápido que os marcos legais.

A poluição luminosa tem se intensificado. A luz poluiu a Terra em 16% desde 2014, segundo dados de satélites. Com 1,7 milhão de satélites propostos, o próximo passo seria uma transformação radical do céu que a humanidade observa há séculos.

Segundo a Tiffany Nichols, professora assistente de história e engenharia civil e ambiental na Northeastern University que co-preside o Comitê da Sociedade Astronômica Americana para a Proteção da Astronomia e do Ambiente Espacial, “estamos vendo um aumento na morte de pássaros porque eles começam a colidir com coisas porque não conseguem distinguir o que é real do que é artificial.”

O impacto sobre polinizadores como abelhas, sobre ecossistemas marinhos que dependem de ciclos lunares e sobre populações humanas que habitam regiões remotas com acesso histórico a céus escuros também é preocupante, mas ainda pouco estudado.

A Defesa Planetária como Argumento Irrefutável

Um argumento que transcende o debate científico é o da segurança. O Observatório Vera C. Rubin foi projetado especificamente para detectar e rastrear asteroides próximos à Terra. Se satélites orbitais comprometerem sua capacidade de observação por várias horas a cada noite, a janela de detecção antecipada para um asteroide potencialmente perigoso seria reduzida.

Esse não é um argumento abstrato. Existem asteroides em trajetórias que cruzam a da Terra. A probabilidade de impacto de qualquer asteroide individual é baixa, mas o custo de não detectar um a tempo é catastrófico. Comprometer a principal ferramenta de levantamento do planeta para possibilitar centros de dados orbitais é uma decisão de gestão de risco que a maioria dos especialistas em segurança global consideraria inaceitável.

A Proposta da ESO: um Teto para Satélites

Diante desse cenário, a ESO propõe um limite de 100.000 “satélites fracos, abaixo da visibilidade a olho nu” como um teto que poderia limitar os danos de ter tantos objetos brilhantes em órbita terrestre baixa.

Para determinar o limite, os pesquisadores do grupo rodaram simulações prevendo como uma projetada inundação de satélites Starlink poderia perturbar os telescópios mais poderosos do mundo, e os resultados não foram agradáveis.

A proposta de 100.000 satélites como teto máximo é muito menor do que o que a SpaceX sozinha planeja. Com 10.400 Starlink já em órbita e 1 milhão de centros de dados orbitais propostos adicionalmente, a empresa sozinha já ultrapassa em dez vezes o teto que os cientistas consideram o máximo compatível com a preservação da astronomia terrestre.

O Céu é um Recurso Compartilhado, e Alguém Precisa Governá-lo

O caso dos centros de dados orbitais da SpaceX representa uma encruzilhada que a humanidade não estava totalmente preparada para enfrentar: o momento em que a expansão comercial privada do espaço passa a ter consequências diretas e mensuráveis para recursos que pertencem a todos.

As simulações são claras. O VLT pode perder 28% da sua capacidade. O Vera C. Rubin pode ter horas de observação por noite comprometidas. A defesa planetária contra asteroides fica mais difícil. O céu noturno, que a humanidade observa há dezenas de milhares de anos, pode se tornar permanentemente mais brilhante do que era antes da era espacial.

A SpaceX é uma empresa privada operando dentro do sistema regulatório americano, e o seu pedido na FCC é legítimo. Mas o espaço orbital não é propriedade americana, e as consequências de um céu congestionado são globais. Nenhum governo votou para transformar o céu noturno em infraestrutura de dados. Nenhuma consulta pública global foi feita.

O que acontece a seguir depende do FCC, de agências espaciais internacionais como a ESA e a própria postura da SpaceX em relação a limites vinculantes de brilho. A comunidade científica já sabe o que quer: um teto de 100.000 satélites e padrões de brilho aplicáveis. A pergunta que persiste é se alguém com autoridade regulatória vai ouvi-la a tempo.

Quer acompanhar as últimas atualizações sobre a disputa entre a astronomia e a expansão comercial do espaço? Continue no nosso blog para análises atualizadas sobre ciência, tecnologia e as questões que definem o futuro compartilhado da humanidade.


Fontes e Referências

Foto de Jonnhy Carvalho

Jonnhy Carvalho

Redator de tecnologia pelo ClicaTech, com foco principal em hardware, inteligência artificial e robótica. Atuo na produção de notícias, cobertura de lançamentos e análise de produtos tecnológicos, sempre com o compromisso de oferecer conteúdo informativo, atualizado e de alta qualidade. No ClicaTech, participo ativamente da curadoria de pautas, avaliação de dispositivos e elaboração de análises críticas sobre componentes de hardware, sistemas embarcados e baseados em IA e avanços no campo da robótica..

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